Editorial | | Umberto Salvador Coelho
Rced, instabilidade e ambiente deletério no governo do Tocantins
Os recentes acontecimentos relativos ao RCED 698 que pede a cassação do governador Marcelo Miranda (PMDB) reacenderam no sentido literal da palavra a chama do siqueirismo. Pelo menos no que se refere à capital, Palmas, que passou todo o dia desta terça-feira, 24, no maior foguetório. Isto tudo por causa de um simples Parecer do vice-procurador eleitoral Francisco Xavier Pinheiro Filho, da Procuradoria Geral Eleitoral, pugnando pela cassação.
Alguns chegaram a formar aglomerações nas ruas comemorando a “cassação”, outros sem entender o motivo de tantos fogos se perguntavam e perguntavam o que estaria acontecendo, afinal não estamos em ano de copa do mundo e o Brasil não está em campo jogando uma maravilhosa partida de futebol.
O Conexão Tocantins foi acusado em email de dormir em cima da notícia por internautas mais afoitos e passionais. Outros chegaram a ligar do interior para saber porque o site não estava sendo atualizado na tarde da terça-feira em que Marcelo Miranda foi cassado sem deveras ter sido. Uma funcionária pública, provavelmente comissionada, indagava: “mais ele (MM) não foi cassado?”.
Até jornalista entrou no agendamento irracional e especulava sobre encontros que teria com representantes da família Siqueira para negociar futuras e espúrias concessões da comunicação estadual.
O certo é que determinado veículo de comunicação online demonstrou mais uma vez seu poder de fogo e sua capacidade de desestabilizar, forçando como já dissemos, um agendamento irracional dos fatos. Ou estaríamos errados em nossa análise da realidade objetiva, tratando-se verdadeiramente de uma cobertura bastante racional, embora tendenciosa a um grupo político, como já ocorreu em outras oportunidades?
Foram várias as vozes da oposição a se pronunciar e vários os fatos que não foram relatados, embora evidentes, a exemplo o fato do Tribunal Superior Eleitoral (TSE), também nesta terça-feira, ter decidido pela não cassação do governador do Piauí Wellington Dias (PT). Ou o fato de que, ainda, sequer existe uma data de julgamento marcada e que mesmo após o julgamento, que deve acontecer por volta da metade do ano, ainda cabem recursos. Outra coisa estranha foi a demora por parte da Secom em se pronunciar ao longo do dia, assistindo passivamente o desenrolar dos acontecimentos. Quando se pronunciou, o fez de maneira insossa e quase pilática.
Não queremos assumir aqui a defesa do governo Marcelo Miranda e até achamos que apenas está colhendo o que plantou, pois este agendamento é financiado literalmente pela própria Secretaria de Comunicação do Estado (Secom). Marcelo Miranda está cercado por uma comunicação ardilosa e sutil que conspira e acende os rastilhos de pólvora que seu governo tem deixado pelo caminho. Urdindo o fio da teia, traidores tramam nas madrugadas os próximos passos esperando o momento certo para lhe aplicar do próprio veneno.
O cuidado que se deve tomar nos próximos meses, caso se confirme a cassação - e nisto o deputado estadual Marcello Lelis foi bastante responsável, ao dizer que a oposição tem que ter “cautela, serenidade e tranquilidade para fazer a transição da maneira mais correta" -, é para que não se crie um ambiente deletério no Estado, como aconteceu nos últimos meses do governo Moisés Avelino em 1994, quando desvios de toda ordem foram praticados.
Por fim, assistimos a uma cobertura dos fatos, por parte da Organização Jaime Câmara, que se aproximou do mito da objetividade da notícia e isto é louvável na medida em que se resguardou e fugiu da cobertura sensacionalista, assim como outros veículos. Cabe à área de comunicação do governo, a partir de agora, corrigir os desequilíbrios na produção da informação que eles mesmo estão patrocinando, passando a tratar igualitariamente e com respeito os veículos de comunicação do Estado, principalmente os que representam a mídia alternativa de internet.
Para os internautas que questionaram a participação do Conexão Tocantins nesta terça-feira, afirmamos que o silêncio é instrumento tanto da retórica dominante pela opressão, quanto da retórica do oprimido, se dando na forma de resistência. Como disse certa ocasião De Certeau “O poder se exerce acompanhado de um certo silêncio. É o silêncio da opressão”.
