Opinião

A droga tirou meu sono... mais uma vez! Meu cérebro não desliga, os pensamentos voam numa velocidade surpreendente, me deixando confuso; os olhos vermelhos me denunciam; a alma, cada vez mais vazia, clama por socorro...

Se você associou o lamento acima a um dependente químico/adicto, engana-se. Todos os dias, milhares de homens, mulheres, jovens e até mesmo crianças sentem na pele experiência parecida – em maior ou menor intensidade. Muitos deles não bebem e não fumam (o que é lícito) e nunca experimentaram nenhum tipo de substância química ilegal, aliás, alguns nem sabem como elas são: cor, cheiro, textura. São pessoas que sofrem na própria pele os efeitos desastrosos das drogas. Eles são pais, companheiros, irmãos e filhos de usuários, que embarcam de carona na nóia alheia – são os co-dependentes. Por respeito à pessoa querida, medo da reação do usuário, vergonha ou simplesmente por não saber o que fazer, muitos sofrem calados, se consomem por dentro enquanto, em tentativas muitas vezes equivocadas e inúteis, tentam ajudar a pessoa amada. E estas pessoas não estão distantes de você, pode ser um colega de trabalho, um amigo, um vizinho...

Ações das mais variadas são desenvolvidas com foco na prevenção, especialmente com o público adolescente e jovem. Apesar de questionar a eficácia de campanhas de marketing sem o suporte de uma estrutura sólida no que se refere a programas educativos, de saúde e segurança pública, reconheço que elas têm o seu valor, que estes podem ser potencializados, e muito, com o envolvimento da família, professores e pessoas que exercem influência sobre esta faixa etária.

Para os dependentes químicos, hoje reconhecidos como pessoas doentes pela Organização Mundial da Saúde (Classificação Internacional de Doenças - CID 10), existem várias possibilidades de tratamento, tradicionais e alternativos, que vão da internação em centros de recuperação à administração de medicamentos com o acompanhamento de profissionais da área da saúde. No caso dos centros de internação, os particulares geralmente custam uma fortuna e são privilégio de poucos e os administrados por organizações não-governamentais – geralmente com vínculos religiosos – não dão conta de atender toda a demanda existente. Em ambos os casos, com raras exceções, o usuário só é aceito se demonstrar vontade própria, o que exige um estado de consciência nem sempre presente.

Para os traficantes, a polícia e a justiça. Mas a abrangência do poder dos traficantes e o consumo cada vez mais popularizado demonstram claramente as falhas, omissões e conivências que existem no sistema. É ridículo assistir a uma reportagem que fala sobre a incineração de material apreendido dois anos antes. Por que ficar guardado tanto tempo? Mesmo sendo uma prova processual, ela pode ser materializada por meio de fotografias e um laudo detalhado sobre peso, medida e tipos de substâncias presentes. No caso de febre aftosa, as vacas não são sacrificadas e enterradas? Os alimentos vendidos ilegalmente nos comércios – estragados ou bons - não vão para o aterro sanitário? Então, se a “coisa” faz mal para a saúde coletiva, por que guardar por tanto tempo? Em relação à prisões cinematográficas, sei que o custo-benefício de se prender os grandes traficantes é maior, mas os pequenos também causam seu dano à sociedade. Eles reúnem os clientes para provar as novidades, entregam em domicílio e usam a pracinha das nossas quadras livremente, em plena luz do dia, para vender a mercadoria. Nós temos que bater em retirada, trancafiar nossos filhos entre muros para garantir a segurança, enquanto os bandidos usam o espaço construído com o dinheiro de nossos impostos para enriquecer e desgraçar a vida de muitos.

E quanto aos co-dependentes, pessoas com vínculos afetivos aos dependentes? Há pouco espaço onde possam ser acolhidos e orientados. Mesmo não sendo o público-alvo da grande maioria dos programas desenvolvidos na área de dependência química, é necessário que sejam contemplados pelas políticas públicas de saúde. São pessoas que estão adoecendo não só na alma, mas no físico também. São pessoas que precisam de suporte para continuar a vida. A maioria destas vítimas (sim, são vítimas do tráfico também) só é vista quando a situação envolve agressões físicas e vira caso de polícia, mas elas existem – e são bem mais comuns do que imaginamos.

Já se sabe que o ambiente interfere diretamente no processo de recuperação dos dependentes, que as relações familiares também adoecem e diferentes pesquisas mostram o grau de influência familiares dependentes na formação de crianças e adolescentes, aumentando, inclusive, a propensão à dependência na vida adulta, além contribuir para o surgimento de problemas de aprendizado, comportamento e sociais. Acaba sendo um círculo vicioso que afeta as demais redes de relacionamentos, dos dependentes e as dos seus familiares.

Apesar das iniciativas específicas para este público não serem muitas, elas existem e devem ser amplamente divulgadas. Em Palmas, uma possibilidade é o Centro de Atenção Psicossocial específico para usuários de álcool e drogas, o CAPS AD, localizado na quadra 108 Norte, Alameda 14, Lote 37, recentemente credenciado pelo Ministério da Saúde, o que permitira o investimento de recursos financeiros do Governo Federal. O telefone é (63) 3218 – 5519. Mesmo que você não precise, divulgue. Pode ter alguém bem próximo a você esperando, ansiosamente, por esta informação.

(Andréa Luiza Collet)

Jornalista

 

Por: Andréa Luiza Collet

Tags: CAPS, Drogas, Opinião