Polí­tica

Saudosos são os dias em que aguardávamos, ansiosos, os pronunciamentos do senador Pedro Simon na tribuna do Senado Federal. Com sua eloquência quase sagrada, pontuou momentos importantes de nossa História recente. Foi firme e apartidário em lances decisivos, tanto no passado, em nome da democracia, quanto no presente, pela manutenção dela. Um gênio do PMDB gaúcho. Um nome insofismável do cenário nacional, chegando a criar o “Decálogo Indispensável para o Exercício da Atividade Política”. Mas Pedro Simon morreu. Foi assassinado politicamente na tarde fria de uma quinta-feira, 25 de junho de 2009. O que o matou? Quem matou Pedro Simon?

Esperava-se para aquela quinta-feira um discurso histórico. Não foi o que vimos. Lamentavelmente, o Brasil assistiu ao velho caudilho gaúcho tentar levantar a voz pela renúncia do senador José Sarney à presidência da Casa e ser calado por uma tropa de choque favorável à manutenção do coronel no comando. O primeiro aparte ao seu discurso foi sofrível. Da planície, o senador acreano Geraldo Mesquita Júnior falou enfadonhamente por intermináveis trinta minutos e defendeu a manutenção de Sarney no poder. Logo depois, o senador-suplente Wellington Salgado (PMDB-MG) – sim, suplente é menor, é uma ignomínia, não é eleito pelo povo, só tem o voto do titular – calou Simon ao convidá-lo a rever equívocos históricos e temporais de seu discurso. Por fim, o senador Heráclito Fortes (DEM-PI) mostrou que Simon era um dos grandes responsáveis pela atual situação crítica do Senado Federal. Estava chancelada a derrocada do discurso de Pedro Simon.

O primeiro secretário da Mesa Diretora, senador Heráclito Fortes, oposicionista e futuro macérrimo, recorreu à prática lulista dos jargões futebolísticos para chamar Pedro Simon à realidade: “quem pede, recebe; quem se desloca, tem a preferência”. Ao usar essa pérola do saudoso técnico carioca Neném Prancha, Heráclito desqualificou o discurso de Simon lembrando-o de um passado recente, quando, em novembro de 2008, o senador gaúcho fora procurado por uma “falange” de companheiros solicitando sua candidatura à presidência da Casa e receberam uma sonora negativa. Ou seja, se Sarney é hoje o presidente, Pedro Simon é um dos grandes responsáveis. “Correu do pau”, como dizem lá em Paraíba do Sul, minha terra natal fluminense.

Ninguém acredita que o senador Pedro Simon seria capaz de fazer grande diferença ou que teria evitado a crise institucional posta, mas esperava-se uma reação mais forte, mais tenaz. Limitou-se à acenar com o velho lenço ao seu dileto correligionário José Sarney. Como bem diz a blogueira de O Globo, Maria Helena Rubinato, “de 'nobre colega' e 'preclaro amigo' já estamos absolutamente enfastiados”. E conclui: “no fundo, penso que os senadores tem uma imensa saudade de quando eram vereadores”. Talvez nem isso consigam ser mais. Nem mesmo Simon, o que é inacreditável em tempos onde os cidadãos clamam pela seriedade, pela responsabilidade e por uma ação mais robusta e imediata diante das crises, dos escândalos de corrupção e da falência no sistema de representatividade política vigente e que assolam o Brasil. Pedro Simon calou e foi calado.

No cerne deste triste fim, o senador Pedro Simon faltou com seu próprio “Decálogo”. Desrespeitou cinco de seus dez mandamentos, quais sejam: 2º) Não usar o sagrado dinheiro público em vão; 4º) Honrar a confiança depositada nas urnas; 5º) Jamais ser omisso no cumprimento da função política; 9º) Desenvolver os melhores valores e transformar-se em referência positiva para as gerações futuras; e 10º) Comprometer-se, fielmente, com a verdade, somente a verdade, nada mais que a verdade. Rendendo-se ao poderio político de Sarney, assinou sua sentença de morte. Assim como restou concluído que foi Ney Latorraca quem matou seu personagem Barbosa na extinta TV Pirata, foi o próprio cidadão Pedro Jorge Simon quem matou o saudoso senador Pedro Simon.

(Helder Caldeira)

Articulista Político, Palestrante e Conferencista

heldercaldeira@folha.com.br

 

Por: Helder Caldeira

Tags: Opinião, Política