Opinião

Foto: Rogério Ribeiro Família do trabalhador assassinado encontra cápsulas de ponto 40 e clama por justiça Família do trabalhador assassinado encontra cápsulas de ponto 40 e clama por justiça

Já estamos chegando, na manhã deste domingo, a 30 horas daquela tragédia de sexta que vitimou o trabalhador Everaldo Morais e a Polícia Militar ainda revira suas entranhas para dar uma explicação lógica, para traçar uma argumentação racional que dê sentido a tudo isso e que dê sustentação ao sentimento que a move nos últimos meses.

Não há, por outro lado, a reação dos indignados tampouco a contrição dos arrependidos. O que remonta aos comportamentos psicopatas bem conhecidos, de criminosos que não se emocionam com os atos que praticam. Depois de disparado o tiro, às vezes de arma com cano raspado, as jogam fora, como as vidas que descartam.

Há, sim, a certeza de impunidade que agride, profundamente, os profissionais da Corporação que não coadunam com ações do tipo e que a fazem ficar paralisada, por alguns instantes, para ato contínuo, passado o momento, voltar com as mesmas atitudes. Isto é corriqueiro.

A falta de reflexão somatizada ao desconhecimento, insensatez, deficiências de formação, combinadas com um comando truculento e deslocado do tempo, transforma homens em animais irracionais. Se tem uma arma nas mãos, os fazem pensar ser Deus. Daí a importância de quem e como se comanda. Policiais são guiados pela hierarquia e mobilizados à voz de comando. Os que têm boa formação pessoal e intelectual agem de uma forma. Os que não a têm, de outra, como se vê todos os dias nas ruas.

Se nada justifica a truculência da PM assim como as mortes, na questão financeira pior ainda. Somente no ano passado, 4 mil e 600 soldados (e bombeiros) receberam reajuste salarial de 71%, passando a ganhar de R$ 1.666,62 e R$ 2.850,00. Podem ganhar o mesmo que um professor de nível superior, na faixa de R$ 2.181,60 a R$ 2.673,42. Recebem mais, bem mais mesmo, que um professor de nível médio, situado entre R$ 947,16 e Rnt.183,90.

Se olharmos para os oficiais (os que comandam), os coronéis tiveram no ano passado reajuste de 57,94% nos seus salários e ganham entre R$ 7.597,00 e R$ 12.000,00 para comandar estes aí que andam perturbando a população e matando inocentes.

Como se percebe em alguns comentários no meu artigo de ontem, há denúncias de que a PM estaria incentivando prisões, orientando o aumento de flagrantes, numa competição onde quem perde é o cidadão honesto e desarmado., vilipendiado em seus direitos fundamentais. Mais prisões daria direito a folgas, regalias. Não sei se é verdade, mas talvez explique a sede de encontrar marginais em qualquer canto que os PMs têm buscado saciar.Se não tem flagrante, os fabricam.

Mas isto não importa, agora. Enquanto escrevo, a família estaria descendo à campa o corpo daquele jovem de 35 anos, operário com carteira assinada e que pretendia casar-se daqui a dois meses. O Jornal do Tocantins deste domingo publica declarações arrasadoras de testemunhas que apontam de forma definitiva para o cano de onde saíram os disparos que mataram Everaldo.

Uma enfermeira indignada mostrou-se segura ao dizer que dirá em qualquer lugar o que viu. E repetiu as palavras do policial na hora em que tentava reanimar o trabalhador, já baleado, ali no chão, dando os últimos suspiros: "Porque está socorrendo? Não mexe não que é bandido e bandido tem que morrer.", disse a técnica em enfermagem ao JTo. Everaldo só queria comemorar com a noiva os dez anos de carteira assinada. Pode, uma situação dessas!

Outros falaram do desespero provocado dos tiros, crianças correndo, chorando, avós sem saber o que fazer, clientes andando sem direção, o lugar estava cheio de pessoas. E os tiros pipocando para cima deles. Uma irresponsabilidade criminosa inquestionável. Se os tiros que acertaram Everaldo não saíram da arma dos policiais, eles assumiram o risco disso aí, ao trocarem tiros com suspeitos no meio da multidão.

O governador Siqueira Campos fez divulgar ontem uma nota de pesar e pediu a urgente apuração dos fatos à PM. Isto, certamente, não vai trazer de volta a vida de Everaldo. Pode dar conforto à família, sedenta de justiça.

E a PM ainda não veio a público para dizer, mesmo envergonhada – mas verdadeira, como deveria se comportar instituições e pessoas sérias, dispostas a proteger o cidadão – que errou. Ou que não é culpada. Prefere o silêncio dos culpados à indignação dos ofendidos. Isto a torna mais comprometida com este delito bárbaro.

E faz-nos imaginar que outros crimes devem estar acontecendo a todo momento e não se tem conhecimento já que não há qualquer indício de que a PM se mostre, como força pública que é, remunerada com nosso dinheiro, uma corporação transparente. De interesse público. E não discutida e movimentada à maneira dos militares nos porões da ditadura. Isto,certamente, ficou lá atrás na história.

Vamos ver no que vai chegar essa apuração.

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O artigo original pode ser lido aqui. Confira aqui matéria sobre a morte do trabalhador.