Esporte

Foto: Emerson Silva

A realização dos primeiros Jogos Indígenas Karajá nas 16 aldeias da etnia nos estados do Tocantins e Mato Grosso marcaram o início de um trabalho que busca resgatar a autoestima dos índios, propiciar a melhoria da qualidade de vida nas aldeias e incentivar os jovens a conhecer e preservar as tradições culturais. A iniciativa veio após diagnóstico realizado por equipe multi-institucional que levantou entre os indígenas quais poderiam ser a causa da crescente ocorrência de suicídios e abuso de bebida alcoólica, sobretudo entre os mais jovens. Segundo informações do Distrito Sanitário Especial Indígena de São Félix do Araguaia (Dsei-Araguaia), de janeiro a agosto de 2012 ocorreram sete óbitos em decorrência de suicídio, além da constatação de aproximadamente 80 situações de vulnerabilidade que englobam tentativas, ameaças e ideação. A população karajá na área de influência do Dsei Araguaia é de cerca de 4000 índios. Proporcionalmente, os casos de suicídio e tentativas são considerados alarmantes.

A proposta é que o manifestado gosto pelo esporte possa ser utilizado cono fator de agregação dos índios, que participam de todas as etapas da ação juntamente com as instituições envolvidas: Secretaria Especial de Saúde Indígena, através do Dsei Araguaia, Funai, Secretaria de Educação do Estado do Tocantins, universidades federais de Goiás e do Tocantins (UFG e UFT) e Instituto do Patrimônio Histórico e Artístico  Nacional (Iphan), com anuência do Ministério Público Federal no Tocantins. Houve disputas de futebol e vôlei (masculino e feminino), natação e corrida, além da luta indígena. Paralelamente aos jogos, foram realizadas oficinas de artesanato tradicional, com produção de remos e bonecas karajá, além de saúde bucal e DST Aids. A intenção das oficinas tradicionais é despertar nos jovens o interesse pela manutenção da cultura de seu povo.

Danças tradicionais como a maraci e a produção da bebida calugi constam como atividades tradicionais realizadas durante os jogos. Na aldeia Santa Izabel, foi promovida uma gincana com as crianças para coleta de lixo, com separação entre os materiais papel, plástico e metal. Os organizadores pretendem que a gincana seja realizada nas demais aldeias nas próximas edições dos jogos, o que contribuirá para a limpeza dos locais. Os indígenas normalmente comercializam e consomem álcool durante suas festas, mas não houve comércio de bebidas durante os jogos. Os casos de pessoas sob efeito de álcool durante o evento foram mínimos.

A continuidade deste trabalho é considerada essencial para que se almeje a redução dos índices de suicídio e outras mortes violentas decorrentes do abuso de álcool. Os índios também relatam a entrada de drogas ilícitas nas aldeias e o uso de substâncias como gasolina com propósitos entorpecentes cada vez mais cedo. O maior incentivo ao esporte pode vir com a contratação dos professores de educação física para as aldeias, já autorizada pela Seduc e não efetivada por falta de profissionais. A melhoria dos campos de futebol e construção de quadras poliesportivas cobertas, citados durante campanha pelo prefeito eleito de Lagoa da Confusão, também são tidos como fatores cruciais do processo.

Problema antigo

Os problemas do abuso de álcool há tempos motivam debates sobre as condições atuais dos índios da região da Ilha do Bananal, intimamente influenciados pela cultura envolvente e seu apelo consumista mas ao mesmo tempo ainda ligados ao modo de vida ancestral do povo iny (pronuncia-se inã). Uma sequência de mortes por suicídio motivou a realização em 2009, na cidade de São Félix do Araguaia, de um seminário sobre alcoolismo entre os índios e suas consequências. Entre as diversas alternativas debatidas chegou-se a implementar o controle da entrada de bebidas em algumas aldeias. Segundo os índios, a ideia deu certo e só não teve continuidade por falta de recursos para remunerar os integrantes das chamadas guardas indígenas.

O  procurador da República no Tocantins Álvaro Manzano considera que a melhoria na qualidade de vida dos índios depende da comunidade. “O envolvimento dos órgãos públicos é importante, mas o êxito só virá com o efetivo envolvimento das comunidades, que não podem apenas aguardar por ações governamentais. O futuro dos índios depende principalmente deles mesmos”. Maria Helena, da Funai no Distrito Federal, tem como importante o fato das partidas de futebol terem sido disputadas somente com a motivação desportiva, sem apostas envolvendo dinheiro como já é costume. A premiação é somente troféus e medalhas.

Para João Werreria, liderança karajá e coordenador técnico local da Funai em São Félix do Araguaia, o índio que abusa do álcool deve ser acolhido. “Nosso povo vive um momento de grandes conflitos, e discriminar o índio que bebe não é a solução. Eles estão doentes e devem ser tratados”. O jovem Anteci Karajá, estudante de licenciatura intercultural na UFG e morador da aldeia Macaúba, preocupa-se com a manutenção das tradições do povo iny. “A dança maraci era realizada antes de combates com outros povos e contém palavras na língua que não são comuns no dia a dia. O desinteresse dos mais jovens pode causar a perda deste importante elemento da nossa cultura, e isto é muito ruim para um povo que busca sua sobrevivência”, disse.

Aldeias karajá na Ilha do Bananal e adjacências

Santa Izabel, JK, Tutemã, Ataú, Fontoura, Aldeia Nova, Axiwé, Macaúba, São João, Ibituna, Cutariá (Dentro da Ilha do Bananal, noTocantins)
Teribré, São Domingos, Itxalá, Hawalorá, Mytiri (na outra margem do Araguaia, no Mato Grosso)

(Ascom PRTO)