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Os indígenas krahô-kanela das aldeias Lankraré e Takaiurá estarão unidos para reiniciar a luta pelo território considerado tradicional pela etnia. A decisão será apresentada em documento a ser enviado à Coordenação de Identificação da Funai, em Brasília. Este foi um dos encaminhamentos decididos durante reunião na Terra Indígena da Mata Alagada, no município de Lago da Confusão, realizada durantes esta sexta-feira, 5, e sábado, 6, com intermediação do Ministério Público Federal no Tocantins. O documento deverá detalhar como será feita a ocupação do novo território, caso seja efetivada sua posse pelos índios, por cada um dos grupos.

A reunião com os dois grupos de krahô-kanela aconteceu após a Coordenação de Identificação da Funai argumentar que as divergências entre eles, um dos quais ocupa a terra indígena e outro que permanece acampado fora da reserva, é o motivo para que não seja dada continuidade ao processo que pode culminar na aquisição de mais de 33 mil hectares do território tradicionalmente ocupado pelos krahô-kanela, onde estão enterrados seus antepassados e preservados seus laços e vínculos territoriais.

Participaram do evento representantes das aldeias Lankraré e Takauirá, além do Conselho Indigenista Missionário (Cimi) e Funai. Também foram encaminhadas a análise da possibilidade de um novo levantamento antropológico a respeito do território reinvindicado pelos índios e a realização de uma reunião no mês de agosto na 6ª Câmara de Coordenação e Revisão do MPF, que trata de assuntos relacionados a direitos de índios e minorias.

Segundo Wagner Krahô-Kanela, uma das lideranças da aldeia Lankraré, a terra obtida é boa, mas 90% de sua extensão fica alagada entre os meses de janeiro a maio de todos os anos. Dependendo da proporção das enchentes nos rios Formoso, Javaé e outros da região, até os locais mais altos que são destinados à formação das roças são atingidos pelas águas. Mesmo sendo uma quantidade expressiva, a terra não é suficiente para garantir a reprodução física e cultural do povo.

Luta pela terra

Após serem expulsos de seu território tradicional, os krahô-kanela iniciaram em 1984 um movimento que culminou na compra, em 2006, de 7600 hectares de terra para receber os índios no território conhecido como Mata Alagada. A compra da terra com recursos do Incra deve-se ao não reconhecimento da terra indígena pela Funai do local apontado pelo grupo de trabalho encarregado de identificar o território tradicional dos remanescentes da etnia, com cerca de 40 mil hectares. Devido à situação precária em que viviam os índios na cidade de Gurupi, tendo em risco sua sobrevivência física e cultural, a terra foi comprada e os índios foram assentados.

As divergências entre os dois grupos fez com que 19 famílias permanecessem no local que já foi a sede de uma fazenda de gado na região, atualmente denominada terra indígena da Mata Alagada. Os demais índios da etnia vivem atualmente em um lote de um projeto de assentamento do Incra na região, de posse de uma indígena, que recebeu os demais. O local do acampamento provisório, que já dura mais de quatro anos, é denominado aldeia Takauirá,.

Desmatamento

Os mais de 33 mil hectares de terra não reconhecidos pela Funai como sendo o território tradicional dos krahô-kanela abrangem hoje a área de duas fazendas no município de Lagoa da Confusão. Os índios afirmam que este é o único local que interessa a eles pelo vínculo com o passado e a tradição dos krahô-kanela. Mesmo com diversas interferências sofridas ao longo dos anos, o território ainda mantém significativa reserva de mata nativa, que deve ser preservada para a manutenção física e cultural dos índios. O atual proprietário da terra teria afirmado ao cacique da aldeia Lankraré, Mariano Krahô-Kanela, sua intenção em não alterar o ambiente local com novas derrubadas para plantio de soja e arroz, desde que o processo de aquisição da terra para destinação aos índios não demore muito. Eles também temem a iminente entrada de máquinas para construir um aterro que liga a cidade de Lagoa da Confusão ao PA Capão do Coco.

Mariano afirmou que a atual Terra Indígena da Mata Alagada foi aceita mesmo representando somente um quarto do território reivindicado devido à situação emergencial vivida pelo grupo há sete anos, mas que o local não é suficiente para abrigar a todos devido ao alagamento em parte do ano. O representante do Cimi, Sebastião, afirmou que esta terra foi uma conquista dos índios, e que esta pausa na luta por todo o território é natural devido ao processo desgastante vivido pelas lideranças, mas que este é o momento de voltarem as reivindicações.

O procurador da República Álvaro Manzano ressaltou que uma das preocupações que a Funai apresenta como justificativa para a interrupção do processo é que, uma vez viabilizado, o novo território motive novos conflitos entre os dois grupos de krahô-kanela, e que por isso o discurso apresentado ao órgão indigenista durante as novas reivindicações deve ser único e comprovando a união entre todos para ocupar de forma pacífica o novo território.