Polí­tica

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A Comissão Parlamentar de Inquérito do Tráfico de Pessoas ouviu nesta terça-feira, 27, a professora Zulmira Gonzaga, de Porto Nacional. Zulmira teve o seu filho Sérgio Leonardo, sequestrado em Porto Nacional há 27 anos. A audiência foi realizada através de requerimento da deputada federal Dorinha Seabra Rezende (DEM/TO), que também solicitou as presenças de Pedro Izar Neto, Marcos Roberto Molitor de Souza, Jorge Luis Mateus e Germiro Moretti, além dos delegados Edson Azevedo Soares e Edison de Souza Parente. Apenas os delegados compareceram. Soares atuou em Porto Nacional entre os anos de 1984 e 1988 e Parente entre 1997 e 2000.

Zulmira detalhou sobre o desaparecimento do filho e apresentou evidências que comprovariam as participações de Pedro Izar, além de outras pessoas acusadas do sequestro de Sérgio Leonardo, como Marcos, considerado o monitor na ação de tráfico de pessoas e um outro homem chamado Beto. Segundo a professora, o empresário Pedro Izar tinha terras na cidade, desde 1982, e desfez da propriedade, nove meses depois que foi denunciado por um dos cúmplices, Lourival Vicente, que, alguns anos depois do desaparecimento, havia sido dado como morto.

A professora também contou que teve muita dificuldade para contar com o apoio da polícia na época e que várias diligências foram tomadas, mas nenhuma cumprida. “Eu sou leiga, não tenho conhecimento do Direito, mas a polícia recebeu 14 diligências sobre o caso e nenhuma foi cumprida. Várias vezes eu pedi dilação de prazo que nunca aconteceu. Ele (delegado Edson Parente) estava com o processo em mãos quando novas informações iam surgindo sobre o paradeiro do meu filho. Eu fui até o delegado, pedi ajuda, mas ele não disse que estava com diligências a cumprir”, contou.

Ambos os delegados Edson Asevedo e Edison Parente alegaram falta de estrutura e de material humano para proceder com as investigações naquela época. “Eu era delegado, agente e escrivão ao mesmo tempo e atendia uma média de 30 pessoas por dia. Muitas diligências eu fiz usando meu carro próprio”, disse Asevedo.

O delegado afirmou não se recordar de detalhes do caso, mas que se dirigiu ao local do sequestro, mas ele tinha sido violado o que dificultou a procura de vestígios. “Infelizmente não deu pra fazer tudo o que tinha que fazer porque não tinha estrutura”.

Já Edison Parente afirmou que fez o possível para ajudar a professora. “As falhas ocorreram por falta de condições e material humano, não por falta de vontade. Procedemos as diligências em tudo que foi possível. Lamentamos profundamente não ter concluído satisfatoriamente essa situação, mas pode-se ver nos autos do processo que foi oferecida denúncia e pedido de prisão de um dos suspeitos, de nome Lourival, mas posteriormente foi colocado em liberdade por ordem judicial”, disse.

Em relação ao processo, a parlamentar afirmou que a omissão do poder público é clara no processo e é injustificável. “Embora conheçamos as dificuldades, não podemos justificar essa omissão. É no mínimo estranho saber que houve 14 diligências sobre o caso e nenhuma foi cumprida. Há elementos de sobra que deveriam ser investigados, mas foi ignorado no processo, que se arrastou por tantos anos”, disse.

O presidente da CPI, deputado Arnaldo Jordy, disse que ouviu Pedro Izar em uma audiência feita em São Paulo e afirmou que ele foi lacônico em dizer que nada tinha a ver com o caso e criticou o trabalho da polícia no caso. “Nenhuma diligência cumprida é uma coisa assustadora, mesmo levando em consideração a dificuldade estrutural do trabalho da polícia. A professora Zulmira investigou e juntou mais provas do que as polícias juntas. Tráfico de pessoas envolve grandes organizações criminosas. São claros o descaso e a negligência em relação a esse processo”, afirmou.

O próximo passo, segundo Professora Dorinha, será discutir na comissão se há a necessidade de acareação entre os acusados as possíveis providências em relação ao processo, que foi arquivado em 2007.

Professora Zulmira disse que ainda tem fé de que possa reencontrar o filho. “Eu perdi os anos mais importantes do meu filho. Eu ensinei tanta criança a ler, mas não pude ensinar o meu filho. Não estive perto quando ele ficou doente. Sei que hoje ele é um homem, tem 27 anos e eu não o terei mais em minha casa. Mas eu quero abraçá-lo e dizer que não o dei para ninguém, como é contado às crianças adotadas, mas que ele foi levado de mim”.