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Começou nesta última segunda-feira, 23, e segue até o dia 25 de novembro o Encontro Regional dos Povos e Comunidades do Cerrado, no espaço de acolhida e formação Casa Dona Olinda, região de Araguaína/TO. Cerca de 200 pessoas - entre indígenas, geraizeiros, quilombolas, fundo e fecho de pasto, camponeses e camponesas - se reunirão ao longo desses dias para refletirem, a partir das experiências de resistência das comunidades do Cerrado, o tema "PDA Matopiba e as consequências para os povos do Cerrado".

Participam do encontro pessoas dos estados do Maranhão, Piauí, Tocantins e Bahia - estados atingidos pelo Plano de Desenvolvimento Agropecuário do Matopiba (PDA), encabeçado pelo Ministério da Agricultura, Pecuária e Abastecimento (Mapa). "O Matopiba destaca a produção que não insere a grande maioria dos camponeses e camponesas", afirma o professor da Universidade Federal do Tocantins (UFT), do campus de Porto Nacional, Atamis Antônio Foschieta, que também participa do evento.

Foschieta acredita ainda que o encontro é um importante espaço de debate e esclarecimento sobre mais esse "plano de desenvolvimento" do governo. "A ideia sobre o Matopiba é algo muito vago. Até o momento destaca-se apenas a sua delimitação. E os objetivos apresentados são genéricos", ressalta.

Juntamente com os povos e comunidades que, com seu modo de vida tradicional, convivem, preservam e reproduzem a vida no Cerrado, o encontro tem como objetivo fazer uma análise critica sobre o Plano de Desenvolvimento do Matopiba e fortalecer a articulação das comunidades e suas formas de resistência, através da troca de experiências.

"A gente vive um momento muito crítico no País, onde percebemos claramente uma investida devastadora sobre a terra e Território de muitos povos e comunidades. E tudo isso baseado numa ânsia capitalista das grandes empresas, da bancada ruralista, e lamentavelmente do próprio governo, que tem apoiado totalmente tudo isso", ressalta Paulo César Moreira, da coordenação executiva nacional da Comissão Pastoral da Terra (CPT).

Ainda conforme o coordenador da CPT, o encontro vem para fortalecer as articulações, “tentar clarear tudo isso para as comunidades e potencializar ações que levam em consideração a vida e o Território de tantas comunidades que estão nessa região".

Matopiba

Próximo de onde o encontro é realizado, a cerca de 100 quilômetros está o município de Barra do Ouro - região de Cerrado que ilustra bem os conflitos por terra e a incessante

destruição do bioma. Essa área, em específico, tem sofrido com grilagens de terras por grandes latifundiários, desmatamentos, despejos dos povos que ali vivem e diversos outros conflitos agrários. 

Dona Raimunda, 73 anos, e mais 40 famílias moram na Gleba Tauá, nessa região, há meio século. Mesmo depois de todas essas décadas morando no local, o juiz da comarca de Goiatins, Luatom Bezerra Adelino de Lima, emitiu ordem de despejo contra as famílias para ser realizada no último dia 12 de novembro. Dona Raimunda foi despejada, teve sua casa destruída pelo trator do fazendeiro, e sete pessoas foram detidas durante uma ação truculenta da polícia.

A Gleba Tauá tem sido o alvo constante de desmatamento realizado pelo empresário catarinense Emilio Binotto, o qual grilou essa área para plantar soja, milho e criar gado. Em maio de 2015, ao menos cinco tratores com “correntões” - prática usada pelos desmatadores para derrubada do Cerrado - foram responsáveis por destruir todo o Cerrado que encontravam pela frente.

À época, o sojeiro pretendia desmatar uma área equivalente a cerca de 800 campos de futebol, mas esta estimativa já foi superada. A área total desmatada desde a chegada do fazendeiro pode atingir 11 mil hectares. Rios, córregos e nascentes estão desaparecendo devido ao assoreamento ocasionado pela devastação do bioma. “Antes eu andava por essas terras e sabia exatamente onde ficava cada grota d’água, cada caminho para as casas das famílias amigas. Hoje em dia, com esse desmatamento, eu não reconheço mais nada, não sei mais caminhar por aí”, denuncia dona Raimunda.

O evento é organizado pela Articulação CPT's do Cerrado - projeto da Comissão Pastoral da Terra (CPT) -, Agência 10envolvimento, Conselho Indigenista Missionário (Cimi), Rede Cerrado e outros.