Polí­cia

Foto: Divulgação Frederico Gayer foi condenado em março de 2014, por assassinato cometido em 5 de abril de 1997 Frederico Gayer foi condenado em março de 2014, por assassinato cometido em 5 de abril de 1997

A viúva de Hebert Resende, Adriane Gavião, 51 anos de idade, concedeu entrevista exclusiva ao Conexão Tocantins, contando sua versão do crime de assassinato contra seu ex-marido, ocorrido há 19 anos na porta de uma boate em Goiânia/GO. Seu marido morreu no Hospital Santa Genoveva, alguns dias depois de ter levado um tiro. O crime foi cometido por Frederico Gayer, marido da deputada estadual no Tocantins, Luana Ribeiro (PDT), de quem ele estaria separado, no papel, desde que foi condenado a 12 anos e seis meses de cadeia em regime inicialmente fechado, mas com a qual estaria continuando a viver conjugalmente. 

Adriane Gavião ainda acusa Frederico Gayer de ter cometido outros dois crimes de assassinato além de ter esfaqueado a própria mãe. A Polinter tem em mãos mandado de prisão contra ele desde o último dia 25 de maio, mas até o momento não foi cumprido. Adriane mora há 10 anos na Holanda e disse que virá ao Brasil assim que Frederico for preso. “Porque eu quero visitá-lo pessoalmente na cadeia”.

De acordo com Adriane, no dia 5 de abril de 1997, data do crime, ela e o marido Hebert Resende, foram a boate Draft em Goiânia, a convite de um amigo para uma comemoração e por lá ficaram pouco tempo, quando, então, resolveram ir embora. Segundo conta, após um desentendimento com Hebert na hora de pagar a conta no caixa, Gayer saiu para fora da boate e ficou esperando pelo casal e, quando os mesmos saíram, ele foi na direção de Hebert e efetuou um tiro a queima roupa. “Não houve grito, não houve empurrão, não houve nada, não houve troca de fichas também não. O caixa passou o Frederico na frente do meu marido e o meu marido disse para o caixa: Por que você está atendendo o babaca na minha frente?! O Frederico disse: Vou te mostrar lá fora quem é o babaca. O caixa atendeu o meu marido, nós voltamos para a mesa, despedimos dos nossos amigos e fomos embora. Quando chegamos na porta o Frederico já estava à nossa espera onde tirou a arma e deu um tiro à queima roupa. Não houve empurrão, não houve nenhuma troca de oi, olá, quem é quem, nada! Na hora sacou a arma e deu um tiro no Hebert”, afirmou Adriana salientando que seu marido era um homem educado.

Adriane Gavião conta que no dia do crime, inclusive, estava adoentada e havia passado o dia no hospital recebendo tratamento de coluna e que teria ido à boate com o marido apenas para não desprestigiar o amigo. Ela conta que um vigia da boate testemunhou os passos dados por Frederico Gayer no dia do crime. “Esse vigia viu quando ele saiu da boate, foi no carro, pegou a arma e voltou para a porta da boate e sentou e conta (o vigia) até quantos minutos ele (Gayer) esperou sentado na porta da boate até que a gente saísse. Esse vigia era nossa testemunha”, disse.

Após receber o tiro Hebert Resende foi atendido no Hospital de Urgência de Goiânia (HUGO) e posteriormente ele foi transferido para o Hospital Santa Genoveva na mesma cidade.

Adriane informa que não sabia, naquele dia, quem era Frederico Gayer que havia atirado contra o seu marido. Após efetuar o disparo, segundo Adriane, Frederico saiu correndo mas deixou o celular cair no chão. “Nós não o conhecíamos, só que, quando ele atirou e correu, ele deixou o celular cair e alguém pegou o celular e me deu e eu pensei que fosse o meu celular”, disse. Adriane afirma que no dia seguinte ligou na Telegoiás, operadora do telefone, deixando dados para que, se o dono procurasse pelo aparelho, entrasse em contato com ela. “Foi quando a mãe dele (Gayer), sem saber quem era eu, me ligou e disse: 'Meu filho matou um cara na porta da boate ontem e você pegou o celular'. Foi que eu fiquei sabendo que era o Frederico Gayer”, afirmou. 

Na época do caso, Gayer tinha 22 anos de idade e era policial nomeado pelo Governo de Goiás sem ser concursado, conhecido popularmente como policial calça curta. "Quando ele matou meu marido ele tinha 22 anos e já era policial há não sei quantos anos pelo tráfico de influência porque ela (a mãe de Frederico, Conceição Gayer) era parente do Iris Resende (político em Goiás) e era delegada. Ele matou o Hebert com uma bala explosiva então muita coisa que foi falada no julgamento, no processo é mentira. A intenção era de matar. O tiro não foi na barriga, o tiro foi no peito, abaixo do mamilo. Era uma bala explosiva porque ele estava com uma arma de trabalho em Goiânia e ele não podia porque ele era lotado do interior, ele tinha que estar no interior", afirmou. 

Exoneração 

Logo após o ocorrido, Adriane disse que conseguiu pedir ajuda ao governador de Goiás, na época, Maguito Vilela. "Estava indo para o Hospital Santa Genoveva para estar com o meu marido, encontrei com ele (o governador) no trânsito, ele desceu e me atendeu e marcou uma audiência para mim no Palácio para o dia seguinte e perguntou o que eu queria e eu pedi duas coisas: pedi uma guia do SUS para o tratamento do Hebert no hospital particular e pedi que o Frederico fosse exonerado. A exoneração ele atendeu o meu pedido, a guia do SUS nunca saiu. Nós ficamos com uma dívida gigante, fora tudo que foi investido no hospital, na época", disse. 

Adriane aproveitou para esclarecer detalhes sobre o tratamento de Hebert na Unidade de Tratamento Intensivo (UTI). Segundo ela, foi dito no julgamento, pela defesa do condenado, que Hebert faleceu porque não foi para uma UTI quando foi transferido do Hospital de Urgência de Goiânia, para o Hospital Santa Genoveva. "O HUGO, onde ele estava morrendo à míngua, nos corredores do hospital, e eu transferi ele sim para o Hospital Santa Genoveva onde os donos do hospital foram criados pelo meu avô", disse. Ainda de acordo com Adriane, Hebert foi transferido com uma UTI toda pronta à espera dele. "Nunca teve fora da UTI. Ele só foi para o quarto dois dias antes de falecer, que é aquela melhora súbita que todo paciente em fase de terminal tem, depois falece. Mas ele ficou 20 dias na UTI, então não tem essa de que ele morreu porque ele não foi para a UTI, ele morreu porque foi baleado com uma bala explosiva que estourou o intestino, estômago, pulmão, tudo dele. Nesses 20 dias ele passou por quatro cirurgias no hospital. Como que ele ficou no quarto?! Ele foi operado quatro vezes em 20 dias. Isso é o cúmulo da mentira”, afirmou.

Influência, ameaças, propina

Adriane Galvão afirma ter sofrido ameaças e tentativas de suborno por parte da mãe de Frederico Gayer, a delegada de polícia na época, Conceição Gayer. Ela conta que logo após seu marido ter levado o tiro, a mãe de Frederico Gayer marcou junto com um advogado, encontro com Adriane que diz ter acreditado que Conceição iria dar assistência ao tratamento médico de Hebert, porém, viu que não se tratava de ajuda. Adriane afirma que Conceição Gayer marcou o encontro para pedir sigilo do ocorrido, pois estava concorrendo ao cargo de delegada de primeira classe. “Então que eu ficasse calada que ela iria me dar uma propina de 10 mil ou 20 mil e é obvio que eu recusei, porque não tem dinheiro nenhum que valia a vida do meu marido na época”, afirmou.

Segundo Adriane, após a recusa pela propina, ela passou a sofrer ameaças. “Eu e meu filho passamos por ameaças terríveis. Foram cinco anos de pesadelo, verdadeiro pesadelo com essa mulher. Os policias da delegacia dela marcavam encontro comigo, eu ia, eu nunca tive medo dela. Eu sempre tentei fazer justiça. Depois quando eu vi que não resultava em nada, que nós éramos muito fracos para tanto poder, eu, para poder acabar de criar meus filhos, vim para a Holanda trabalhar de faxineira para poder dar uma vida digna para o meu filho porque o esteio da minha casa era o Hebert. Eu não trabalhava”, contou. Adriana disse que chegou a sofrer ameaças de morte por parte da mãe de Frederico Gayer. "Tem um processo na Corregedoria da Polícia Civil no qual o corregedor da época, doutor Diogo, foi meu próprio testemunha que ouviu dela por telefone, as ameaças”. 

Adriane afirma que Gayer sempre contou com influências para poder protelar seu julgamento. "Foram 19 anos! Ele conseguiu comprar desembargador, que eu sei disso, mas não tenho como provar, usando das influências do sogro falecido (senador João Ribeiro - falecido em 2013), da mãe que na época tinha (influência por ser delegada), da esposa que é deputada (Luana Ribeiro)", disse.

Outros crimes 

Sem dar maiores detalhes, Adriane Gavião acusa Frederico Gayer de ter cometido outros crimes além do assassinato de seu marido. Segundo ela, Gayer teria matado outras duas pessoas: um homem no CarnaGoiânia (carnaval fora de época em Goiânia), crime que teria sido cometido depois do assassinato de Hebert e teria também matado a cozinheira da casa de sua mãe quando ainda era menor de idade. Segundo Adriane, a mãe de Frederico teria usado de sua influência de delegada e teria conseguido limpar a ficha do filho. 

Adriane ainda fez questão de lembrar que Frederico Gayer foi capaz de atentar contra a vida da sua própria mãe, fato que foi tratado também em seu julgamento. "Tenho aqui o recorte do jornal onde fala que ela foi esfaqueada pelo Frederico. O que ocorre é que no processo (do assassinato de seu marido), eles não enfocaram muito isso porque não houve homicídio, é uma briga familiar, ele esfaquear a mãe. Sobre os outros dois crimes dele, não consta nos autos porque ele não foi fichado... e a mãe dele, a Conceição Gayer, conseguiu limpar a ficha dele", afirmou. 

Filhos de Hebert 

Hebert deixou quatro filhos. Um deles com Adriane e os outros três com a primeira esposa. “Os outros três filhos dele não eram comigo, é do primeiro casamento dele, mas eu tenho contato com os meninos, tenho excelente relacionamento com a ex-mulher dele, é uma pessoa maravilhosa que também criou os filhos muito bem. São todos advogados e todos estavam empenhados da condenação desse bandido. Todos trabalharam arduamente no processo, inclusive no julgamento. A filha do Hebert, mais nova, foi assistente da promotoria de acusação. Então ela consta no julgamento, tenho até o filme gravado, tenho tudo gravado”, explicou.

O filho de Adriane com Hebert chama-se Hebert Resende Filho e reside com ela na cidade de Zwanemburg, na Holanda. 

Vida atual 

Adriane tinha 31 anos na época do ocorrido e seu filho 7 anos de idade. Ela reside na Holanda há 10 anos. "Tem quatro anos que eu trouxe meu filho (Hebert Filho). Quando meu filho fez 21 anos eu o trouxe. Ele fazia faculdade no Brasil e eu resolvi trazê-lo, porque ele sentiu muito a morte do pai. Foi o que mais sentiu, era o mais novo quando o pai morreu", disse. Segundo Adriane, Hebert filho é casado e tem um filho. Adriane ainda tem outra filha. "A minha outra filha no Brasil, que não é filha de sangue do Hebert, mas era considerada como filha, morava conosco, muito apegada também ao Hebert, hoje também é uma advogada, casada também tem um filho, mas continua morando no Brasil", disse. 

Adriane afirmou que Frederico Gayer destruiu vidas “foram muitos anos de lágrimas de sangue e até hoje nós temos a sequela, a cicatriz desse fato porque eu tinha 12 anos de casada com o Hebert e foi como se tirasse parte da minha vida. Um lado do meu coração secou. Atualmente sou casada novamente, com um holandês. Uma pessoa muito boa, inclusive muito parecida de gênio, de comportamento com o Hebert, mas, inclusive, o meu marido aqui na Holanda sabe que o amor que eu tenho pelo Hebert até hoje em um lado do meu coração”, frisou. 

Confira abaixo parte do julgamento de Frederico Gayer e, a partir de 1h39min da execução do vídeo, veja o momento em que o advogado de acusação lembra o episódio em que Frederico Gayer foi capaz de atentar contra a vida da sua própria mãe.