Opinião

Há pouco mais de um mês o Partido do Movimento Democrático Brasileiro assumiu o governo, de maneira transversa. É a primeira vez que o partido se acha em tal posição, depois do governo de José Sarney, que não era peemedebista autêntico, apenas um adesista oriundo do partido governista do regime militar, que assumiu por ter sido vice de Tancredo Neves em uma eleição indireta. Portanto, o PMDB nunca foi habituado a governar nem a disputar uma eleição direta com esse propósito. A última vez que concorreu foi em 1989, com Ulysses Guimarães, depois disso preferiu fisiologicamente ‘estar’ no governo e não ‘ser’ governo, usufruindo dos bônus sem se responsabilizar pelos ônus.

Por isso, não devem os brasileiros se surpreender com erros e contradições deste interino governo peemedebista representado por Michel Temer, o partido nunca teve traquejo para governar. Ao menos no nível federal.

O PMDB é um partido que merece profundo estudo sociológico e político, um tratado. Por que mudou tanto em tão pouco tempo da história política brasileira? É hoje totalmente transformado e cheio de contradições, desfigurado e irreconhecível daquele que começou com a defesa de exponenciais bandeiras e enfrentando a ditadura militar.

Esse partido teve seu início como principal paladino das esperanças dos brasileiros. Nasceu MDB (Movimento Democrático Brasileiro), quando o governo militar por decreto tornou extintas as siglas existentes, determinando a formação de apenas duas, a Arena (governista) e o MDB (oposicionista). Este, desempenhou bravamente seu papel desenvolvendo vigorosa resistência. Reunia expressivas lideranças e as mais variadas tendências democráticas, quem era contra o regime de então, estava no MDB. Depois veio o pluripartidarismo, o “movimento” se tornou “partido” e continuou com mais vigor sua luta pela redemocratização, defendendo eleições diretas em todos os níveis, convocação da Assembleia Constituinte e Liberdade de Imprensa e dos sindicatos de trabalhadores. Lideranças como Tancredo Neves, Ulysses Guimarães, Franco Montoro, Paulo Brossard, Pedro Simon, José Richa e outros nomes integravam o partido, que conquistou amplo apoio popular, elegeu expressivo número de governadores, prefeitos e vereadores, mesmo enfrentando casuísmos eleitorais do regime.

Com forte unidade, lançou Tancredo Neves candidato (ainda pelo sistema de eleição indireta) para conquistar o governo e poder implantar as reformas que pregava. É sabido que quem acabou assumindo foi o vice-presidente José Sarney e desde seu governo o PMDB esteva dividido e assim foi com todos os demais governos, com um grupo apoiando e outro criando dificuldades, geralmente para negociar, o que acaba atrapalhando a governabilidade, porque a falta de unidade a um partido da base aliada obriga o executivo a negociar não apenas com o líder das bancadas na Câmara e no Senado, mas também individualmente e com grupos parlamentares.

Essa postura do partido, já em 1988, levou dissidentes a saírem para fundar o PSDB.

Embora o pluripartidarismo houvesse possibilitado a formação de novos partidos para acomodar as mais variadas tendências, o PMDB continuou abrigando grupos de diferentes ideologias, sem ser propriamente um partido, mas uma frente extremamente miscigenada politicamente e ao longo do tempo perdeu sua identidade, descaracterizou-se.

Ainda no final da década de 1980, eu era deputado federal filiado ao PMDB e ocupava o cargo de Ministro da Saúde, oportunidade em que fiz pronunciamento pregando a autodissolução do partido por entender que seria a melhor alternativa. O PMDB havia cumprido com relevância sua missão, principalmente na luta pela redemocratização do país, mas se tornara uma frente multifacetada, abrigando muitas tendências que o desfiguravam. Então, sugeri que fosse feita uma festa cívica e depois disso se declarasse extinto o partido, levando os grupos e lideranças que se instalaram na sigla a procurar partidos afinados com suas ideologias. Claro que as mais expressivas lideranças peemedebistas discordaram da sugestão, o partido seguiu sua trajetória e a acabou no que hoje é, inclusive com lideranças denunciadas por corrupção. O partido que teve em Ulysses Guimarães como notável presidente da Câmara Federal tem hoje Eduardo Cunha; que teve no Senado líderes como Tancredo Neves e Paulo Brossard, tem hoje Renan Calheiros e Romero Jucá...

Esse é um exemplo dos males da política partidária brasileira. Falta coerência, definição e vontade de produzir um trabalho renovador em todos os sentidos. Enquanto isso não acontecer não há esperança de melhoria geral, o país e os brasileiros continuarão convivendo com problemas e sofrendo suas consequências. Em país que vive plenamente o estado de direito, a política é instrumento fundamental e ela é desenvolvida primordialmente a partir de partidos fortes e de lideranças comprometidas com o bem-estar nacional. Quando os políticos não correspondem, o país está em grave risco.

Luiz Carlos Borges da Silveira é médico, ex-ministro da Saúde, ex-secretário de Ciência e Tecnologia do Governo do Estado do Tocantins e ex-secretário do Desenvolvimento Econômico, Ciência e Emprego do Município de Palmas-TO

Por: Luiz Carlos Borges da Silveira

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