Meio Ambiente

Foto: Divulgação

A Amazônia poderia colocar em um futuro mercado de carbono, até 2050, devido ao desmatamento reduzido, cerca de 17 bilhões de toneladas de carbono que seriam emitidos para a atmosfera, caso persista um cenário de desmatamento pessimista.

Isso seria o equivalente a poupar quatro anos das emissões globais de poluição. As projeções são do SimAmazônia, programa de modelagem computacional desenvolvido para simular cenários na região.

Estimativas como essa, conseguidas a partir da utilização do software, estão subsidiando a formulação de novas políticas públicas para a região amazônica, com vistas à valoração dos serviços ambientais e, conseqüentemente, ao combate ao desmatamento e às emissões de carbono na atmosfera. Os resultados apontam caminhos para que o Brasil comece a vender carbono para países desenvolvidos dispostos a pagar pela não-emissão.

A partir do cálculo de milhões de dados, ambientais e econômicos, o SimAmazônia é capaz de criar modelos digitais, detalhados e complexos, para prever o comportamento ou a evolução ambiental de uma região específica. Parte das propostas desenvolvidas com base no software foi apresentada em dezembro na 13ª Conferência das Partes sobre o Clima (COP-13), na Indonésia.

“O mais interessante é que o programa passou a ser utilizado para subsidiar novas políticas públicas para a região”, disse Britaldo Silveira Soares Filho, um dos coordenadores do projeto de desenvolvimento do SimAmazônia, conduzido no âmbito do Programa Cenários, vinculado ao Experimento de Grande Escala da Biosfera-Atmosfera na Amazônia (LBA).

O Projeto Áreas Protegidas da Amazônia (Arpa), apoiado pelo governo brasileiro e por instituições como Banco Mundial e WWF-Brasil, utiliza informações geradas pelo SimAmazônia para identificar as áreas mais ameaçadas pelo desmatamento na região. O objetivo é torná-las áreas de conservação permanente, uma das saídas consideradas mais eficientes para a preservação da floresta. Os cenários são criados a partir da inserção de dados político-econômicos, além de sociais.

“Com o software é possível identificar as áreas mais ameaçadas pelo desmatamento, ou de maior pressão, e utilizar essas informações para orientar investimentos futuros”, explica Soares, que também é professor da Universidade Federal de Minas Gerais.

Segundo o geólogo, as informações serão decisivas nos rumos do Arpa, que até 2013 pretende consolidar 50 milhões de hectares em unidades de conservação, com investimento de R$ 390 milhões. Só em 2006, o projeto beneficiou quatro unidades de conservação em Rondônia, que, juntas, receberam R$ 4,3 milhões. Nos próximos anos, o Arpa planeja investir na criação de 19,5 milhões de hectares de unidades de conservação de proteção integral.

O governo do Amazonas utilizou o SimAmazônia para subsidiar o documento que levou a Bali, intitulado Iniciativa Amazonas para as mudanças climáticas globais e desenvolvimento sustentável. O texto apresentou a estruturação de um mecanismo financeiro para a remuneração dos serviços ambientais prestados pelas florestas das unidades de conservação do Amazonas como estratégia de contenção do desmatamento e mitigação das mudanças climáticas.

Tanto o documento como os estudos da Arpa reforçaram a necessidade de estruturação de “mercados verdes”. “Os resultados dos trabalhos apontam para a necessidade de valoração dos serviços ambientais prestados pelas unidades de conservação”, enfatizou Soares.

Créditos de desmatamento

A criação de um mecanismo internacional de venda de créditos de carbono, pelo qual países desenvolvidos se disponham a pagar pela não-emissão, ainda parece ser a saída mais vantajosa para o Brasil.

“O país pode começar a vender créditos, tornando os serviços mais interessantes que o desmatamento. Estariam pagando para reduzir o desmatamento”, disse Soares, ressaltando que é importante manter o debate em torno da questão.

Em condições ideais, de acordo com dados do SimAmazônia, a região poderia vender cerca 17 bilhões de toneladas de carbono que potencialmente iriam para a atmosfera, até 2050. Seria como poupar quatro anos das emissões globais de poluição e ofereceria uma alternativa para a Amazônia chegar ao mesmo ano com 4,5 milhões de km² de floresta intacta.

Nesse cenário, o SimAmazônia destaca o desafio da mudança. Estimativas recentes apontam que 89% das áreas têm custo entre US$ 2 e US$ 3 por tonelada de carbono. “O baixo custo por hectare mostra como seria muito mais vantajoso preservar a floresta no lugar de transformá-la em pastagens de baixa rentabilidade”, disse Soares.

Tragédia anunciada

Para descrever cenários futuros na Amazônia, os responsáveis pelo SimAmazônia calcularam o efeito das políticas públicas – aplicação, ausência ou parcial implementação –, aliado a outros dados. Surgiram dois cenários principais: business-as-usual (“negócios de sempre”) e “governance” (“governança”).

O primeiro indicou que a maior floresta tropical do planeta pode ser reduzida, até 2050, a pouco mais da metade de sua área original, ou 53% da floresta. Isso, basicamente, pela expansão da agricultura e da pecuária por meio de queimadas, além da extração de madeira e da construção e pavimentação de estradas. Sobrariam 3,2 milhões dos 5,4 milhões de km² de floresta encontrados atualmente nos nove países amazônicos.

A destruição e a fragmentação das matas poriam em risco a existência de uma centena de espécies de mamíferos, cerca de um quarto das 382 espécies desse tipo de animais inclusas na simulação. Mais de 40% das áreas em que vivem desapareceriam, especialmente na Amazônia Oriental, a mais sujeita à abertura de estradas e ao desmatamento decorrente. Entre os primatas, pelo menos 35 espécies perderiam de 60% a 100% de seus hábitats.

O cenário mostrou ainda que oito das 12 maiores bacias hidrográficas poderiam perder mais da metade da cobertura florestal até 2050.

Já o “Governança” apontou caminhos que poderiam impedir até a metade da destruição promovida pela expansão da fronteira agrícola. A simulação projeta uma desaceleração do desmatamento ao longo do tempo devido à progressiva implantação de áreas protegidas. No máximo 50% das matas privadas seriam derrubadas se toda a floresta recebesse proteção governamental contra invasões e depredações.

O estudo aponta que incentivos fiscais e financeiros que estimulam proprietários a manter reservas florestais em áreas privadas são essenciais para chegar ao cenário “Governança”, além de investimentos para manter a incolumidade de áreas protegidas por lei.

O Programa Cenários reúne instituições brasileiras e estrangeiras coordenadas por Britaldo Silveira Soares Filho e por Daniel Nepstad do Instituto de Pesquisa Woods Hole (Estados Unidos), fundador do Instituto de Pesquisa Ambiental da Amazônia e professor visitante da Universidade Federal do Pará.

O programa é financiado pelo LBA, pela Fundação Gordon e Betty Moore, e pelas agências norte-americanas Nasa, National Science Foundation (NSF). e United States Agency for International Development (Usaid).

A base de dados do SimAmazônia levou três anos para ser montada, com informações de fontes como o censo do Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE) e o Programa de Cálculo do Desflorestamento da Amazônia (Prodes), do Instituto Nacional de Pesquisas Espaciais (Inpe), e por mapas de aspectos físicos e viários, com as estradas vicinais da região.

Agência FAPESP

Por: Redação

Tags: Amazônia, Meio Ambiente