Opinião

Foto: Umberto Salvador Coelho

O governador Marcelo Miranda (PMDB) parece mesmo já ter se decidido pela candidata Nilmar Ruiz, dos Democratas, para o pleito de outubro.

Nesta quarta-feira, 11, falando com exclusividade ao Conexão Tocantins durante a inauguração da Casa do Estudante, Marcelo tergiversou em uma fala cheia de pontos de fuga e recursos estilísticos como a tautologia e os anacolutos que lhe são peculiares, dando provas do seu preparo quando se trata de colocar em prática pela parole um universo discursivo cheio de artimanhas ao qual foi moldado ao longo de sua trajetória política.

Ao ser indagado sobre as declarações do deputado federal João Oliveira (DEM), que disse ao jornalista Cleber Toledo na semana passada que o governador já se decidiu por Valuar Barros (DEM) em Araguaína e Nilmar em Palmas, faltando apenas oficializar (clique aqui para ver); o governador disse: “Evidente que eu respeito o deputado João Oliveira que é da base do governo e ele defende a bandeira da professora Nilmar, como eu defendo a aliança da vitória”, disse.

Nesta fala, de forma ladina, praticando a retórica do seu universo discursivo, Marcelo utiliza a tautologia para mascarar suas intenções. Vejamos. Ele diz que o deputado João Oliveira defende Nilmar e que ele (Marcelo) defende a aliança da vitória, mas a manutenção da aliança da vitória é tudo que os democratas defendem e querem para viabilizar Nilmar. O discurso deles é centrado desde o início na defesa e conservação da aliança, porque sabem que sem os partidos que a compõe a candidata não irá a lugar nenhum.

Como a fala do governador poderia e pode ser interpretada de forma dúbia, resolvemos insistir para diminuir a margem de erro da análise. Então o senhor não decidiu ainda? Obtivemos a seguinte resposta: “Olha, eu entendo que no momento certo nós vamos falar. Agora pode ter certeza, que a aliança da vitória é a que está realmente sendo discutida”.

Mais cedo, durante a coletiva à imprensa, o governador respondendo a uma indagação sobre sua decisão em relação a Palmas, disse, “eu sempre me pautei pela coerência, sempre me pautei pelo respeito a todos e todos sabem da minha boa convivência com o prefeito Raul e demais prefeitos”. Aqui o governador também dá mostra de suas intenções ao colocar o executivo de Palmas na vala comum, enquanto por outro lado, a senadora Kátia Abreu (DEM) já disse, que só decide a conjuntura pelo estado afora depois que resolver a questão de Palmas, dando absoluta prioridade, por saber do valor político da capital. Marcelo completou dizendo “agora a questão se eu decidi ou não, na hora certa nós vamos falar”, arrematou.

A convicção do governador em sua decisão parece tão inabalável que nem o pronunciamento do Secretário de Assuntos Federativos da Presidência da República, Olavo Noleto, o sensibilizou. Noleto disse ter “muito orgulho da parceria da prefeitura com o governo”. Marcelo preferiu falar das ações institucionais independentes da “cor partidária”, assim como já havia feito em entrevista coletiva concedida durante a última assinatura de convênios do PAC na sexta-feira, 6, em Brasília, quando falou da importância do evento “suprapartidário”.

Para finalizar o discurso Marcelo mandou um: “diga ao presidente Lula que aqui ele tem um companheiro e admirador”, paráfrase padrão em torno da qual orbitam pequenas variações com o mesmo dizer e já utilizada pelo governador em várias oportunidades. Antes, entretanto, ele lembrou que o Tocantins, segundo matéria publicada na veja nesta terça-feira, 10, e repercutida pelo jornal do Tocantins nesta quarta, é o campeão de execução orçamentária do PAC com 226,6 milhões de reais recebidos até maio, 76% do total de 297,5 milhões.

Se até bem pouco tempo o governador dava sinais de afinidade com o petista da capital, principalmente em cenas de inaugurações como a da TO-050 e Ponte Pedro Afonso-Tupirama – obras a que convenhamos foge da jurisdição do prefeito de Palmas – ultimamente o silêncio do governador parece ser o índice claro dos rumos dos acontecimentos. De Certeau dizia que “o poder se exerce acompanhado de um certo silêncio. É o silêncio da opressão”. Para completar, as paráfrases em torno das quais o governador tem erigido seu discurso conduz a determinadas configurações discursivas que, se ainda não acenderam o sinal vermelho já se encontram no alaranjado.

Em relação ao PT, a opção política que Marcelo parece já ter definido é perfeitamente natural, até pelas características ideológicas que o governador não consegue esconder, embora encontre admiradores entre os petistas, talvez mais pela aproximação com o presidente Lula do que por sua empatia popular.

O que não dá para entender é que esta ação do governador é uma guilhotina no pescoço do PMDB e suas perspectivas de poder para 2010. Isto porque até o cachorro da esquina sabe que a conquista de espaços do DEM ocorrerá principalmente nas fileiras peemedebistas, e num momento em que todos os partidos estão procurando se fortalecer, o PMDB deverá ter a cabeça entregue na bandeja para a senadora Kátia Abreu. Talvez o governador seja mais grato ao DEM que ao PMDB pela sua reeleição. É esperar para ver.

 

Umberto Salvador Coelho