Opinião

A França é o berço do luxo, e aqui, a recessão que atinge o mundo traz a sensação de uma lição moral.

À medida que os consumidores ricos de todo o mundo contiveram repentinamente seu apetite por bens de luxo, o setor que já foi considerado à prova de recessão sofreu um duro golpe.

Lojas de luxo nos Estados Unidos observaram com horror as vendas de final de ano cambalearem, enquanto em Tóquio, a Louis Vuitton cancelou os planos de construção de sua maior e mais reluzente loja.

Para os franceses, cada onda de notícias ruins trouxe uma grande ansiedade.

Quando a Chanel anunciou recentemente a demissão de 200 empregados temporários - pouco mais de 1% de sua força de trabalho de 16 mil pessoas - o jornal diário Le Parisien disse que a notícia era chocante.

O canal de televisão LCI descreveu o fato como o revés mais sério da companhia desde que Coco Chanel demitiu sua equipe inteira e fechou a loja quando irrompeu a guerra em 1939.

Mas há também entre os franceses, paradoxalmente, uma satisfação velada de que a era de vida luxuosa e por vezes vulgar chegou ao fim e de que um estilo de vida francês mais básico irá emergir.

Só na França a recessão é glorificada por estabelecer uma crise de valores.

Uma edição recente da revista Le Figaro trouxe um guia de 12 páginas para levar uma vida mais econômica em 2009, com previsões de que as pessoas trabalharão menos e colocarão a família (e até mesmo os

sogros) em primeiro lugar. Um especialista francês em tendências citado pela revista descreveu as mudanças dramaticamente como sendo nada menos do que "uma revolução nos valores".

Alain Nemarq, presidente da famosa joalheria Mauboussin, afirmou numa entrevista que salvar a indústria do luxo deveria ser uma importante prioridade nacional porque ela emprega 200 mil pessoas na França, é parte da herança cultural francesa, dá prestígio ao país e seduz não apenas os "poucos felizardos", mas uma grande fatia do público.

Em vez de tentar manter a máquina funcionando ao promover bolsas caras, relógios e outros bens, ele propôs algo impensável: a indústria do luxo inteira deveria cortar os preços. "Precisamos de um retorno à razão, decência, discrição, beleza e criatividade - em outras palavras, aos valores verdadeiros", disse Nemarq.

(A Maubooussin saiu na frente dando o exemplo. Vendeu seu anel com um diamante de um quilate chamado "Chance para o Amor" por cerca de US$ 14.500, quase um terço a menos do preço normal, e seu anel de diamante mais barato, de 0,15 quilates, foi colocado à venda por US$ 895, disse Nemarq).

Alguns intelectuais franceses querem ir mais longe, conclamando a morte de todo o setor de luxo como uma espécie de ritual nacional de purificação.

"Desde os gregos antigos, os bens de luxo sempre estiveram estampados com o selo da imoralidade", diz Gilles Lipovetsky, sociólogo que escreveu vários livros sobre o consumismo. "Eles representam o desperdício, o superficial, a desigualdade de riqueza. Eles não têm necessidade de existir".

O defensor político da nova moralidade econômica é um

recém-convertido: o presidente Nicolas Sarkozy, antes conhecido como o "presidente bling-bling" [em referência ao fato de ostentar a riqueza]. Ele assumiu o governo prometendo injetar um capitalismo ao estilo anglo-saxão, fazendo os franceses "trabalharem mais e ganharem mais".

Mas na semana passada em Paris, Sarkozy e o ex-primeiro ministro da Inglaterra Tony Blair foram os anfitriões de uma conferência de líderes políticos e economistas vencedores do prêmio Nobel para encontrar formas de introduzir valores morais na economia global. A antiga ordem financeira foi "pervertida" por um capitalismo "amoral" e descontrolado, disse Sarkozy, condenando o fato de que "os sinais de riqueza contam mais do que a própria riqueza".

Ele defendeu o "retorno do Estado" como regulador dos excessos do capitalismo.

Paradoxalmente, os franceses podem aceitar esse sentimento sem muita dificuldade. A identidade nacional francesa parece estar amarrada fortemente à aura do luxo - roupas elegantes, perfumes sofisticados, boa comida e bom vinho, e abundância de champanhe até para as celebrações mais insignificantes. Mas apesar de os franceses, mais do que qualquer povo europeu, apreciarem comprar produtos da melhor qualidade, eles se orgulham de manter o equilíbrio. A França continua sendo um país profundamente conservador, onde é tradicionalmente inaceitável ostentar as posses materiais. A maioria dos franceses usa cartões de débito, e não de crédito, o que significa que não tendem a gastar mais do que têm em suas contas bancárias. Conseguir um empréstimo para uma casa é um processo torturante.

Assim, muitos veem no fim da era de gastos livres e fáceis com bens de luxo - quando o luxo se tornou associado à exibição e à ostentação em todo o mundo - o potencial de restauração das virtudes clássicas francesas de contenção e modéstia. Até mesmo um pouco de sofrimento e sacrifício podem estar na ordem do dia.

"Toda essa crise é como uma grande limpeza de primavera na casa - tanto moral quanto física", disse Karl Lagerfeld, estilista da Chanel, numa entrevista. "Não há evolução criativa se não houver momentos dramáticos como esse. É o fim da ostentação. Tapetes vermelhos cobertos de brilhantes falsos estão fora. Eu chamo isso de 'nova modéstia'".

Ainda assim, Lagerfeld logo afirma que sua companhia vai bem, que as demissões deste mês foram superdimensionadas pela mídia, e que a coleção Paris-Moscou da Chanel no mês passado trouxe 17% mais vendas do que a exibição Paris-Londres em 2007.

Alinhada com o novo humor nacional - e em deferência à difícil realidade econômica - a estilista Nathalie Rykiel disse que mostrará a nova coleção Sonia Rykiel em março não com um grande espetáculo teatral para 1.500 pessoas num amplo espaço alugado, mas com dois mini-shows para 200 convidados em sua boutique no Boulevard St.-Germain.

"No fim talvez isso não custe muito menos, então isso não tem a ver com dinheiro", disse durante um almoço no Café de Flore. "É um desejo de intimidade, de retornar aos valores. Precisamos voltar para uma escala menor, uma escala que toque as pessoas. Diremos: 'Venham para a minha casa. Olhe e sinta as roupas'."

Com certeza, a redução de gastos foi sentida em toda a temporada de férias em Paris, onde os bufês foram afetados pelos cancelamentos de festas de fim de ano. Se é que houve festas, havia mais mousse de pato e bem menos foie gras. A champanhe, cujas vendas caíram 16,5% em outubro em comparação ao ano passado, foi servida em menor quantidade nas mesas francesas; dando lugar ao vinho frisante francês, sem o apelo oficial da champanhe.

Em La Grande Epicerie, o grande corredor de alimentação na loja de departamentos Le Bon Marche, o caviar francês e italiano foi vendido tanto quanto a variedade russa, mais cara; os chefes de confeitaria resistiram à tentação de fazer bolos Buche de Noel de 100 euros.

"Os produtos de luxo que primavam pelo saber-fazer - e não pela ostentação - ofereciam uma sensação de refúgio", diz Frederic Verbrugghe, diretor geral do setor de alimentos. "As vendas de Dom Perignon não sofreram, mas os grandes embrulhos não saíram. No passado, os consumidores compravam um bloco inteiro de foie gras; este ano foram apenas cinco fatias".

Muitos executivos franceses acreditam que a economia eventualmente se recuperará a longo prazo. Alguns fabricantes de vinhos lembram que a nobreza francesa parou de comprar champanhe durante a revolução no país em 1789, forçando os fabricantes a encontrarem mercado fora.

"Estamos no ramo há 300 anos", disse Dominique Heriard Dubreuil, presidente do Grupo Remy Cointreau, que produz o conhaque Remy Martin e a champanhe Piper-Heidsieck. "Fomos atingidos pelo inseto phylloxera no século 19, que destruiu nossas parreiras e nossa capacidade de produção. Enfrentamos duas guerras mundiais. Vejo essa crise como um evento desafiador, mas construtivo".

E para Lagerfeld, cortar os gastos da Chanel não faz parte de sua estratégia de "nova modéstia". Ele diz que não está sendo forçado pelos donos particulares da companhia a curvar-se ou adaptar-se por causa de restrições financeiras. "Não temos orçamento, fazemos o que queremos, e jogar dinheiro pela janela faz com que o dinheiro volte pela porta da frente", disse ele. "No fim das contas eu não quero lidar com as contas. O luxo na minha vida é não precisar pensar sobre isso".

 

The New York Times

Elaine Sciolino

Em Paris

Tradução: Eloise De Vylder

Por: Elaine Sciolino

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