Opinião

A recente divulgação do ranking internacional dos artigos científicos, que traz o Brasil na louvável 15ª posição, com 16.872 papers publicados e uma participação de quase 2% no total mundial, contrasta flagrantemente com o desempenho do País em outro ranking internacional, este diretamente ligado ao crescimento econômico: o das patentes, onde figuramos numa modesta 28ª posição, com 121 patentes obtidas em 2006. Isto nos impõe uma reflexão: em plena era do conhecimento, quando, mais do que nunca, a riqueza e o crescimento dos países se consubstancia em propriedade intelectual, por que não geramos patentes se aparentemente temos crescido bem na produção de ciência?

Para uma avaliação realista, vejamos o que aconteceu noutros países em desenvolvimento como o nosso. E aí verificamos que, enquanto a produção brasileira de artigos científicos cresceu 7,6 vezes entre 1980 e 2006, em outros emergentes cresceu muito mais no mesmo período: em Taiwan, 31 vezes; na China, 54, e na Coréia, 133 vezes. A produção coreana saltou de 175 artigos em 1980, quando já tínhamos 2.215, para 23.200 em 2006. Conclui-se, então, que a nossa produção científica não cresceu tanto quanto parecia.

Ao examinar a qualidade dos artigos, avaliada pelo índice de citações, vemos que nossa posição cai para 20º lugar, o que indica que nossos artigos têm menos impacto internacional do que a média mundial. O estudo The Scientific Impact of Nations, publicado em 2004 pela revista Nature, mostra que, entre 1993-97 e 1997-2001, as citações a artigos brasileiros aumentaram 31%, contra 64% da China e 98% da Coréia. E o crescimento dos "top 1%" (artigos mais citados) foi de 72% para o Brasil, contra 125% da China e 179% da Coréia (Folha, A3, 6/9/2004). Ou seja, a China e, especialmente, a Coréia não só aumentaram muito mais do que nós a produção de artigos mas ainda mais a sua qualidade.

A explicação desse quadro é a frequente falta de vínculo da nossa pesquisa científica com a vida real. Enquanto a ciência busca respostas, a tecnologia faz perguntas. Se não houver desenvolvimento tecnológico no País capaz de abrir um leque amplo de indagações que instiguem a comunidade científica, as perguntas acabam ficando por conta de cada pesquisador, que passa a estudar aquilo que sua curiosidade individual determina.

Ora, o uso do conhecimento na vida real se traduz no desempenho da obtenção de patentes. Como a patente tem validade local, essa avaliação tem por base a outorga pelo USPTO (sigla em inglês do escritório norte-americano de patentes), por ser o maior mercado internacional. E é neste ranking que estamos hoje num medíocre 28º lugar. Passamos de 24 patentes obtidas em 1980, para 121 em 2006, ou seja, crescemos 5 vezes. No mesmo período, a China multiplicou suas patentes nos EUA por 35, Taiwan, por 98, Índia, por 120, e a Coréia por 738. Note-se que em Taiwan (6.360) e Coréia (5.908), respectivamente quarto e quinto patenteadores em 2006 nos EUA, as patentes cresceram algumas vezes mais do que a publicação de papers, indicando que o desenvolvimento tecnológico induziu um crescimento científico acelerado. É o chamado technology push.

E voltamos ao ponto de partida deste artigo. O que significa alcançarmos a 15ª posição em artigos científicos? Muito, se esse fosse o resultado de questionamentos da vida real, ou seja, suscitados pelo desenvolvimento de inovações tecnológicas de produtos e processos no chão de fábrica. Muito pouco, se for – como parece ser – o resultado de motivações individuais, ainda que magistralmente exploradas por cientistas brilhantes.

Isso porque as nossas políticas públicas não têm criado um ambiente de real estímulo às inovações tecnológicas. A Lei do Bem (nº 11.196/2005) restringe o incentivo fiscal para inovação apenas ao Imposto de Renda sobre o lucro real das grandes empresas (6% do total). A Lei de Inovação (no 10.973/2004), em seu artigo 19, promete subvenção econômica para projetos de inovação, mobilizando para isso recursos tirados das empresas através da CIDE e de royalties sobre concessões, a pretexto de promover o desenvolvimento tecnológico. Mas, no final, menos de 10% desses recursos revertem para essa finalidade.

A experiência do mundo, principalmente dos países em desenvolvimento, nos mostra que ao estimular o desenvolvimento tecnológico estaremos acelerando, e muito, a produção de artigos científicos e melhorando a sua qualidade pelo vínculo com a demanda real. E, ao elevar a competitividade da produção, aceleraremos o crescimento do PIB, gerando emprego e renda.

Precisamos ter a coragem de reconhecer a precedência do desenvolvimento tecnológico em relação à produção científica, em termos de benefícios econômicos e sociais para o País, e centrar o foco na universalização do fomento à tecnologia nacional. Assim fez a Índia em 1995, com The Technology Development Board Act, o que passou a lhe render excelentes frutos, expressos em crescimentos do PIB, que passou de 5% para mais de 9% ao ano. Até quando devemos nos contentar com 3 a 4%?

ROBERTO NICOLSKY é professor do Instituto de Física/UFRJ e diretor-geral da Sociedade Brasileira Pró-Inovação Tecnológica (Protec). E-mail: diretoria@protec.org.br

Por: Redação

Tags: Opinião, tecnologia