Editorial

Foto: Claudio Roberto

Imagine um local onde a contemplação e alegria deveriam ser acontecimentos mais que normais, onde a população pudesse comparecer e desenvolver arte e pensamento crítico, este lugar é um centro cultural.

Em Gurupi (TO), até existe o espaço, é o Centro Cultural Mauro Cunha, como é conhecido, mas seu maior destaque acontece mesmo, quando alguma figura proeminente da cidade “parte para o andar de cima”, ou, “viaja fora do combinado” como dizem outros. Neste momento, o Centro Cultural corre à boca miúda e se torna a pauta dos debates do município.

Há aqueles que são a favor de se transformar o Centro em capela mortuária e até defendem o gesto magnânimo do prefeito para com a família do morto, geralmente figura ilustre, que “contribuiu para o progresso de Gurupi”. Mas cabe aqui uma indagação. A população mais humilde da cidade também não contribuiu para o desenvolvimento do município com sua força de trabalho espoliada? Se for para transformar o Centro Cultural em capela mortuária, que seja para todos. Divisão social até na hora morte é o cúmulo da desigualdade.

Para justificar a utilização do Centro Cultural pelas figuras “proeminentes” que jazem sem o sopro da vida, um residente da charmosa e hospitaleira Gurupi até disse em artigo opinativo que “os rituais fúnebres, os velórios, as sentinelas, são uma genuína reflexão cultural filosófica dos povos, que o homem carrega na alma, desde priscas eras”. Realmente um artigo opinativo hilário, tem vocação para a comédia o seu autor.

Mas a verdade é que, é desagradável transformar um local com vocação para alegria e contemplação em um ambiente sombrio, sem energia, para não dizer com energias negativas assentadas. Para o poeta e escritor Zacarias Martins, a população de Gurupi, ao que tudo indica, até já se acostumou com os “eventos”, pois segundo ele, o que mais acontece naquele Centro é velório. Cultura que é bom, necas.

Martins ainda reconhece o esforço de Lucirez Amaral à frente da Fundação Cultural de Gurupi, mas segundo informa, ela não tem autonomia financeira e nem política para tocar o barco, pois o prefeito de Gurupi não investe em cultura. Acreditamos em seu pronunciamento e temos convicção que realmente o prefeito João Cruz deveria ser mais sensível à questão cultural.

Segundo o escritor, alguns vereadores até já apresentaram requerimentos solicitando ao prefeito que não mais autorizasse a realização de velórios naquele local. Também solicitaram a construção de uma casa de velórios no centro de Gurupi, mais tudo ficou nas gavetas do gabinete do prefeito.

Na sexta-feira, (11), mais uma vez as atividades no Centro Cultural foram paralisadas por causa de um velório, fato que mais uma vez causou a indignação daqueles que defendem a utilização do espaço apenas para arte. O Centro Cultural, onde também funciona a Galeria de Artes Kathiê Tejeda, tem um regimento interno elaborado pela classe artística que afirma que o espaço só poderá ser utilizado para atividades culturais.

O Conexão Tocantins neste momento solidariza-se com a classe artística do município e com aqueles vereadores que já solicitaram ao prefeito a construção de um local apropriado aos velórios no centro de Gurupi. Os artistas têm dado o exemplo ao não utilizar o espaço para os velórios dos seus e o que se espera é que a população assuma também esta causa e exija do executivo municipal a construção de uma capela.