Opinião

Foto: Divulgação

Não é de hoje que veículos de comunicação se utilizam do poder de formação de opinião para fazer valer seus objetivos comerciais. Um dos homens mais influentes e polêmicos do Brasil no século XX - Assis Chateaubriand – utilizava com frequência este expediente para achacar governantes que iam à contramão dos seus interesses.

Esta semana, em Palmas, a ampla cobertura da imprensa a respeito de possíveis focos de contaminação do mosquito da dengue em uma casa em reforma, de propriedade do prefeito Raul Filho (PT) chamou a atenção. Um dos vereadores da base de sustentação do prefeito na Câmara acusou a imprensa de veicular os fatos "com interesses particulares” com o objetivo de desgastar a imagem do prefeito.

A forma sensacionalista como o fato foi veiculado realmente causou estranheza. Não se esperou sequer a confirmação se havia ou não larvas do mosquito no local e já foram logo tecendo conjecturas e fazendo julgamentos. Quer dizer que agora não se pode mais reformar uma casa mesmo em se tratando a reforma de estar em curso apenas há 90 dias? E o que dizer das reformas habitacionais que avançam ao longo de todo o ano?

Foi constrangedor ver jornalistas gravando suas passagens dentro do imóvel procurando como baratas tontas, chifres em cabeças de cavalos e ressaltando como se fosse a coisa mais absurda do mundo a sujeira dentro da casa em obra. “Dentro da residência existe muito entulho”, dizia uma, “a lona que cobre a piscina foi rasgada” dizia outro. Queriam o quê? Uma cena de hotel cinco estrelas? Há que se perguntar em qual construção ou reforma não se encontrará entulhos. Provavelmente apenas naquelas do jardim da fantasia.

A lona que cobre a piscina pode ter sido rasgada até mesmo pelo vento tão comum nesta época do ano. Ademais os fiscais de saúde comprovaram que o veneno jogado na piscina contra a larva do mosquito Aedes Aegipty ainda estava ativo e que por ali elas não apareceram.

Para completar o desdobramento da cobertura classificada como eleitoreira, entrou em campo a oposição ao prefeito para afirmar que a dengue aumentou 356,71% na atual gestão. Esqueceu-se de dizer que este percentual se trata de casos notificados que não o eram em priscas épocas, e que o Tocantins foi um dos 12 estados em que houve redução dos casos da doença em 2008. Estatísticas positivas puxadas principalmente pela capital, Palmas, onde a quantidade de pessoas infectadas caiu substancialmente em relação ao primeiro trimestre de 2007. Os casos notificados no ano passado foram 6.171, com 3.771 casos confirmados. Este ano até final do período chuvoso, considerada a época mais crítica, haviam sido notificados 2.983 casos e confirmados 528.

Diante dos dados expostos, vê-se que a cobertura, além de sensacionalista foi pouco criteriosa, não observando a relevância e apuração detalhada da informação. Depois de todo o alarde bastou uma frase dos fiscais da saúde que compareceram ao local, “não foram encontradas larvas”, para que a denúncia caísse no descrédito. Mas aí o estrago já estava feito.

Louvável, entretanto, foi a atitude do dono da residência que de forma transparente abriu a porta do imóvel, permitindo que todos pudessem vasculhar cada centímetro, não escondendo absolutamente nada.

Durante a cobertura uma curiosidade chamou atenção, a funcionária pública que elevou-se para observar a casa do vizinho e chamou a imprensa tem o sobrenome “Abreu”. Com toda a queda de braço que vem ocorrendo entre petistas e a senadora Kátia Abreu, principalmente pelo apoio do governador à candidatura para a Prefeitura de Palmas, a ilação de ligação foi inevitável, provavelmente apenas uma infeliz coincidência. É esperar para ver.