Opinião

Lula que ama Sarney, que ama Renan, que ama Collor, que ama Dilma, que não ama ninguém. Lula elegeu-se presidente da República, Sarney elegeu-se coronel do Congresso Nacional, Renan elegeu-se todo-poderoso do Senado Federal, Collor elegeu-se tutor das obras do PAC e Dilma, se Deus quiser, não se elegerá a nada e não entrará para História. Faz lembrar os célebres versos de Carlos Drummond de Andrade. Não por acaso, a poesia, cuja comparação me é imediata, chama-se “Quadrilha”, título bastante pertinente e adequado para qualquer linha de texto onde constem o nome de dois ou mais políticos brasileiros.

É lugar comum dizer que há algo errado com a nossa forma de fazer Política. Já é clichê dizer que a Política brasileira mostra-se absoluta em sua face mais vergonhosa e terrível. Há duas décadas, dizia-se que estávamos à beira do precipício. Não resta a menor dúvida de que despencamos. Estamos hoje no fundo de um poço sombrio onde qualquer acepção para as palavras cidadania, dignidade, trabalho e ética enfrenta inimigos poderosos, quais sejam o conformismo, os interesses pessoais e imediatos e, principalmente, o colo quente e confortável da impunidade. Nosso modelo esgotou-se. Não há como seguir sem mudanças severas e imediatas em nosso cenário político. Mas diga-me, caro leitor, para qual brasileiro isso é uma novidade?!

O escândalo da semana é a relação promíscua da construtora Camargo Côrrea com diversos partidos políticos. Na semana passada, o assunto era um número assustador que emanou das entranhas do Senado Federal: a Casa possui 180 diretorias, com altos salários e pouquíssimo (quase nenhum) trabalho. Há duas semanas, descobriu-se que um alto funcionário do mesmo Senado Federal, no cargo há mais de uma década, era dono de uma mansão milionária, não declarada e completamente incompatível com sua renda. Há um mês, foi a vez de pinçar a história de um deputado e seu megalomaníaco castelo. E assim os dias passam ao sabor de mensalões, dólares na cueca, nepotismo, prende-solta-prende-solta de banqueiro bandido, vultuosos desvios de dinheiro público, farra dos cartões corporativos, churrascadas, cachaçadas e charutadas presidenciais bancadas com nossos impostos e toda essa sacanagem que criou raízes profundas no solo político brasileiro.

Não bastassem todas essas capas de jornais e revistas compondo essa paisagem de piada pronta, há ainda aqueles momentos onde somos expostos ao humor negro de nossas “ôtoridades”. Insatisfeitos com a dramática situação do sistema carcerário, onde ladrão sai pelo ladrão, o Supremo Tribunal Federal encontrou uma solução jocosa: mandou soltar os presos. Agora, por decisão majoritária dos ministros do STF, um bandido só pode ser mantido na cadeia após transcorridos todos os seus possíveis recursos e apelações e de haver seu julgamento em última instância. Considerando a vagareza da Justiça no Brasil, o criminoso pode levar décadas para, de fato, ir parar atrás das grades. E nós temos de rir pra não chorar, pois com um Poder Judiciário como o nosso, nem precisamos mais de inimigos, quiçá de palhaços nos circos. Basta vestir uma toga e assegurada estará a gargalhada da plateia.

E agora, o que fazer? Reforma Política? Reforma Constitucional? Mudanças no sistema eleitoral? Jogar uma bomba atômica em Brasília numa quarta-feira? Balelas. O que falta nos políticos brasileiros é vergonha na cara. Os corredores palacianos da capital federal há muito deixaram de ser palcos de verdadeiros heróis e pilares da sustentabilidade democrática. Os “heróis morreram de overdose” e os palácios se tornaram grandes centros de negociatas entre sujos e mal lavados. E que não se engane o desavisado leitor de que um estalar de dedos ou uma dezena de caras pintadas podem resolver essa querela. Não, infelizmente não podem. Muito mais que um aval baseado em termos legais, os políticos brasileiros tem a seu favor o maior dos trunfos: nossa estima, adorada, “salve-salve” ignorância.

Quando eu tinha 10 anos de idade e me perguntavam o que eu queria ser quando crescesse, imediatamente respondia: Político. Passei pela adolescência com essa ideia. Me tornei um adulto com essa proposta. Não quero ver sucumbir esse meu ideal de vida diante da triste realidade política brasileira. Há um esgoto a céu aberto, pútrido e fétido, borbulhando na Praça dos Três Poderes. Nossos políticos, ao longo da história, permitiram-se a troca dos pronomes de tratamento de Vossas Excelências para “Suas Excrecências”. E nós seguimos apertando as descargas e evitando olhar e sentir o cheiro nauseabundo dos “monstros” que produzimos no intestino das urnas.

Helder Caldeira

Articulista Político

heldercaldeira@folha.com.br

 

 

Por: Helder Caldeira

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