Opinião

Caro leitor, você ainda tem alguma dúvida de que essa bandalheira que assalta o Senado Federal será apenas mais uma maracutaia insolúvel incrementando as estatísticas da impunidade no Brasil? Há cada dia, um novo escândalo estampa as cercanias palacianas de Brasília e a absoluta ausência de investigações sérias e reais punições chancelam a pior face da democracia no país: a imagem da política impunível. A lamentável sensação que abate a opinião pública é perceber que nenhum dos 81 senadores da República parece estar preocupado com seu pundonor, com o zelo por sua própria reputação.

Seus pares enfiam a mão, descaradamente, no suado dinheiro do povo, promovem toda sorte de ilegalidades e tomam os cidadãos como um imbecil curral eleitoral e fica tudo por isso mesmo. São 81 políticos dizendo “amém” todos os dias para a bandidagem, assinando a autorização para que cada eleitor seja roubado indiscriminadamente. Mas há uma novidade tirando o sono dessa “molecada” engravatada: o que no passado era instalado confortavelmente embaixo do tapete, hoje vem à tona na velocidade da internet. Práticas rotineiras sempre disfarçadas em falsos discursos moralistas, hoje sucumbem ao poder imensurável dos internautas e suas máquinas maravilhosas de comunicação. Revela-se o sinal dos tempos à classe política brasileira.

A matemática política vigente no Senado Federal é simples: como os mandatos são de 8 anos e temos eleições federais e estaduais de 4 em 4, o senador que está no meio de sua legislatura tende a candidatar-se ao governo de seu Estado. Se perder as eleições, tem sua cadeira garantida em Brasília por mais 4 anos e ainda colocou o nome em evidência entre seu eleitorado. Já o senador que está em fim de mandato, busca a reeleição. É nesse astuto malabarismo que se desenha a composição do Senado Federal e acaba por criar figuras quase vitalícias nos corredores do Congresso. A propósito, uma medida profilática seria transformar os mandatos dos senadores em períodos de 4 anos apenas. Quando nada, forçaria-os à uma maior representatividade e responsabilidade.

Assim sendo, por que o eleitor tem de votar em nomes para Senado há cada 4 anos? Também é simples: a Casa é equitativa e cada Estado dispõe igualmente de 3 senadores para representá-lo. No entanto, não elegemos esses 3 nomes de uma só vez. Em um pleito, elege-se apenas 1 senador e, quatro anos depois, elegem-se outros 2. Dessa forma, há cada eleição, disputa-se 1/3 ou 2/3 das vagas, que são, respectivamente, 27 ou 54 cadeiras. Nas próximas eleições, em 2010, estarão em jogo 54 vagas para o Senado Federal e que serão disputadas quase à totalidade por candidatos à reeleição, afinal, ninguém quer perder a “boquinha”.

Por paradoxal que possa parecer, o fato novo que surpreende os senadores da República é justamente a forte reação da opinião pública ante à crise institucional em que está atolado o Senado. Nomes catedráticos já sentem na pele a rejeição de suas bases e estão prevendo um duro embate no próximo ano. Garantir a reeleição por mais 8 anos será uma guerra ensimesmada, onde cada senador terá contra si os embustes e a procrastinação de sua história neste ano de 2009. Por mais que as eleições sejam apenas de 4 em 4 anos, os avanços tecnológicos e acesso instantâneo e em massa à informação estão permitindo “um julgamento minuto a minuto”, como bem refletiu o senador Cristovam Buarque. Ao contrário do que sempre acontecia no passado, agora esses julgamentos são cumulativos e irão pesar decisivamente nas eleições de 2010. Tanto é que, alguns parlamentares já reconhecem os buracos no barco e sabem que o naufrágio será inevitável.

Alguns nomes merecem o degredo. Não cabem mais no Senado Federal mentes carcomidas, coronéis nordestinos ou lideranças religiosas. Uma faxina é premente. Que sejam enxotados do Poder Legislativo. Que o Brasil, em 2010, venha a rechaçar o bandoleiro de Alagoas, a maracutaia de Santa Catarina, o charlatão homofóbico do Rio de Janeiro, o “quem-dá-mais” de Roraima, a alcatéia do Maranhão, a deseducadora do Mato Grosso, o apaniguado de Minas Gerais, o “pau-oco” do Espírito Santo, o amásio do Tocantins e o sequaz de Sergipe. Isso sem falar na bigodeira. Que se raspe com navalha cega todos os vastos bigodes do Senado Federal. A quem a carapuça possa servir, vista-a.

Uma coisa é certa: o Estado que reeleger qualquer um dos dois (ou ambos) senadores que lá estão, é porque a população realmente não tem vergonha na cara. Fechar o Senado Federal certamente não é o melhor caminho. O grande voto de protesto deve ecoar das urnas de outubro de 2010, quando o povo brasileiro terá a oportunidade de jogar ao mar 54 piratas pilantras e colocar essa nau desgovernada nas mãos de novos timoneiros, mais céleres e mais responsáveis com as atribuições de suas funções públicas e com os reais compromissos com seus Estados.

A chance de ocupar 2/3 da câmara alta do Congresso Nacional com uma juventude política pode ser única no próximo ano. Jovens senadores, nomes novos, sem os vícios dessa cambada, podem representar uma lufada de ar fresco e limpo no Senado Federal, tão poluído por essa cáfila assaltante dos cofres públicos. E essa generalização negativa veste cada vez mais e melhor os parlamentares da Casa. Diante de uma escandalosa crise, suas reações iníquas e protecionistas não atendem mais às demandas da sociedade. Em janeiro de 2011 podemos ter 54 senadores náufragos, boiando no lamaçal nauseabundo que eles próprios criaram. Eu não vou jogar bóias para salvá-los. Você vai?!

P.S.: Para não perder o bonde da história, é preciso ressaltar: em terras onde Jornalistas não precisam de diploma, Presidente da República analfabeto é Rei! E segue a balbúrdia...

(Helder Caldeira)

Articulista Político, Palestrante e Conferencista

Rio de Janeiro – RJ – heldercaldeira@folha.com.br

 

Por: Helder Caldeira

Tags: Opinião, Senado, Tocantins