Opinião

Foto: Divulgação Aliança DEM é PSDB é deletéria Aliança DEM é PSDB é deletéria

Como acontece todos os anos, encerrada a quarta-feira de cinzas inicia-se efetivamente o ano no Brasil. No Tocantins não é diferente e no que se refere à política – o Estado respira política como nenhum outro no Brasil –, ainda mais em ano eleitoral, a intensidade das articulações aumenta a partir desta data e a temperatura começa a se elevar nos discursos, definindo rumos que serão tomados.

Analisando o atual quadro no Tocantins, vemos que começa a se definir uma possível polarização na disputa, mantendo de um lado, partidos de viés progressistas, principalmente no que se refere à defesa das políticas sociais para os menos favorecidos e políticas ambientais menos degradantes. E, de outro, partidos conservadores, ligados a movimentos como União Democrática Ruralista (UDR) e aos latifundiários, como é o caso do Democratas (DEM) da senadora Kátia Abreu, ou mesmo o PSDB do ex-governador Siqueira Campos, que no auge da sua política nacional neoliberalizante, em 1997, cortou recursos voltados às frentes de trabalho emergenciais do nordeste que padecia com a seca, levando a mortalidade infantil naquele ano a explodir naquela região por absoluta falta do que comer.

Este grupo de viés conservador, entretanto, anda esvaziado de poder político. A senadora Kátia Abreu, que foi carregada ao atual posto pela força da extinta coligação Aliança da Vitória, eleita principalmente pela força dos deputados da coligação que envidaram hercúleos esforços para tal, hoje anda bastante fragilizada no Estado e se segura na força da Confederação Nacional da Agricultura (CNA). Entidade que passou a presidir a partir de 2009, aproveitando-se da maré política favorável e que tem um orçamento anual milionário.

A senadora não consegue sequer manter agregada a base de prefeitos do DEM no Estado, dando provas do seu enfraquecimento político. Entre os vários prefeitos do seu partido que flertam com o governo de coalizão do governador Carlos Henrique Gaguim (PMDB), o principal é Valuar Barros, que administra o segundo maior colégio eleitoral do Estado, Araguaina.

Por outro lado, Siqueira, como já dissemos em outra oportunidade não é mais o mesmo e sua outrora poderosa coligação União do Tocantins, hoje não passa de meia dúzia de gatos pingados, sabujos do siqueirismo. Em que pese o fato de não poder se subestimar o ex-governador, a verdade é que ele, hoje, detém a metade da intenção de votos que tinha na eleição passada quando foi derrotado pelo ex-governador Marcelo Miranda (PMDB), cassado no ano passado por abuso do poder político.

Siqueira se mantém como sempre um exemplo de determinação a ser seguida na busca por seus objetivos. Determinação tal, que às vezes leva o envelhecido líder a fazer uma leitura equivocada de suas possibilidades e do momento histórico. Bate o pé diante da senadora que almeja a caneta do Palácio Araguaia e diz que não lhe interessa concorrer a outro cargo que não seja o de governador. Para tanto já faz seu périplo pelos municípios do Estado aplicando seu proselitismo político.

Apesar de estar revestido com pele de cordeiro no que diz respeito à sua impetuosidade que o levou ao estigma do autoritarismo, Siqueira não reformulou a essência do seu discurso desenvolvimentista, muito menos traz qualquer nuança de modernidade em sua fala no que diz respeito à uma evolução da consciência social. Modernidade para ele é desenvolvimentismo, portanto, uma idéia ainda mais atrasada do que a do ex-governador Marcelo Miranda que defendeu esta bandeira, tratando modernidade enquanto modernização do aparato físico do Estado.

Modernidade é muito mais. É liberdade sindical, educação de qualidade, desenvolvimento da ciência e cultura, matriz de produção baseada em princípios econológicos, respeito às diferenças em todos os seus aspectos e proteção ao mais fraco. Isto não se vê no discurso do velho Siqueira. Mas se vê o discurso cínico e salvacionista.

No último sábado, 13, ele participou de uma reunião com lideranças e militância da União do Tocantins em Novo Acordo. O ex-governador falou sobre metas para seu governo e entre elas a valorização da polícia, que em pretérito não muito distante ele mesmo oprimiu. Se referiu também aos comissionados dizendo que não pretende demitir nenhum servidor. Mas não falou de planos de cargos, salários e promoções para os efetivos. Por fim, disse que só se interessa pelo cargo de governador, “não por ambição pessoal ou riqueza, mas para ‘salvar’ o povo do Tocantins”, segundo reportagem de um site da capital que acompanha a movimentação do ex-governador.

Em síntese, as características elencadas dizem o bastante do grupo político que tentará se viabilizar para, em outubro, bater os governistas no Estado, ligados à base política do presidente Lula. O grupo apesar das adversidades e fragilidade tem jogado bem no tabuleiro do xadrez político. Se o ex-governador Siqueira Campos vem revestido de cordeiro, Kátia emite seu canto de sereia em direção às hostes do PMDB. A intenção incongruente visa uma aliança PSDB, DEM, PMDB. O tão propalado chapão. Mas isto não faz o menor sentido se pensarmos nas costuras nacionais que PT e PMDB vem fazendo, muito menos faz sentido pelo fato do PMDB e seus principais líderes manterem um histórico de combate ao siquerismo. Kátia estaria imaginando dar linha em Siqueira para depois cortá-lo reeditando a aliança de 2006? Quem sabe!!

A manobra da senadora parece também um jogo de cena visando causar estragos nos infestos, no nível da desconfiança semeada em seara alheia. Seus adversários, porém, não são tão ingênuos e já perceberam que a proposta da senadora pode também gerar desconfiança do seu hoje aliado mais próximo, Siqueira Campos, e dão corda no assunto. Se não vejamos. Na campanha passada, a senadora, aliada ao peemedebista Marcelo Miranda, bradava aos quatro cantos do Estado intimando o ex-senador Eduardo Siqueira Campos a descer da garupa do pai – ela concorria a uma vaga ao senado justamente com Eduardo – e isto deixou feridas que pode-se ter certeza, ainda não cicatrizaram.

O ambiente da aliança entre Siqueira e Kátia é deletério, as desconfianças são recíprocas onde se tenta juntar no mesmo saco, gatos e cães. Por outro lado, na coalizão governista, as conversações vão se adiantando e o que se espera é que as vaidades pessoais sejam colocadas de lado. Um ou outro problema pontual tem aparecido, como o caso do descontentamento do deputado federal e ex-governador Moisés Avelino, mas isto cabe ao governador Gaguim, como líder, pacificar. O certo é que superados os problemas pontuais, a aliança dos partidos da coalizão governista é praticamente imbatível em outubro. E Siqueira e Kátia sabem disto. É esperar para ver.