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Grupos debatem como evitar que o abuso de álcool continue trazendo problemas para a comunidade. Resultado será apresentado durante continuidade do seminário, no dia 27.

Durante o primeiro dia do seminário para debater o uso abusivo de álcool entre indígenas da etnia karajá, realizado na cidade de São Félix do Araguaia (MT), os próprios indígenas apontaram as prováveis causas do problema e elaboraram uma série de sugestões para que o problema seja minimizado.

Trabalhando em grupo, os índios se empenharam em responder cinco questões apresentadas pela Fundação Nacional de Saúde (Funasa) relativas ao problema e apresentar sugestões. Entre as soluções inicialmente apresentadas constam a criação de uma polícia indígena destinada a proteger os integrantes das aldeias de pessoas violentas devido à embriaguez, incentivos à prática de esportes, criação de centros de atividades longe das cidades e punição aos índios que levarem bebida para comercialização nas terras indígenas durante festas e comemorações tradicionais.

Os dados coletados serão compilados e apresentados na continuidade do seminário, no dia 27. “Precisamos cuidar principalmente das crianças, que são o nosso futuro”, disse Iraro Karajá, cacique e vereador pela cidade de Lagoa da Confusão (TO).

Antes do trabalho em grupo, a enfermeira do Distrito Sanitário Especial Indígena (DSEI) Araguaia, apresentou um levantamento feito nas aldeias karajá nos estados do Tocantins, Mato Grosso e Goiás, contendo dados relativos a abuso de álcool e outras drogas e suas consequências, como suicídios, violência entre parentes e degradação física e moral dos indivíduos. Segundo a enfermeira Juliana Neiva, o abuso de álcool muitas vezes é sintomático não do alcoolismo em si, mas de questões relacionadas à saúde mental da pessoa.

Juliana considerou como uma vitória próxima a instalação de um Centro de Apoio Psicossocial em São Felix do Araguaia, a cidade mais próxima de muitas aldeias, tanto pela facilidade para prover o tratamento quanto para a maior eficiência no tratamento de casos pontuais, hoje feitos em Goiânia. “Os índios em tratamento ficam até 28 dias em clínicas, mas seu entrosamento com outros internos é difícil, assim como conseguir vagas. A proximidade de um CAPs em São Félix facilitará o trabalho dos agentes e pode trazer melhores resultados, visto que após algum tempo os que retornam dos tratamentos voltam a abusar do álcool, muitas vezes como consequência de outros problemas”, explicou.

Na abertura do evento, o procurador da República, Álvaro Manzano, explicou que o seminário foi solicitado pelos próprios índios, após um assassinato ocorrido na aldeia Santa Isabel do Morro, às margens do Rio Araguaia, na Ilha do Bananal. Manzano salientou que o primeiro passo é o reconhecimento pelas comunidades que o abuso de álcool é um problema.

Catalogado pelo Cadastro Internacional de Doenças (CID) como mal que precisa de permanente tratamento, o alcoolismo afeta não apenas o doente, mas familiares e pessoas próximas. “Não viemos aqui para dizer aos índios o que fazer para lidar com esse problema. Uma vez reconhecido o mal que o abuso de álcool causa, eles mesmos vão encontrar as alternativas para minimizar o problema”, disse.

João Karajá, liderança da Aldeia Santa Isabel, notou que os causadores dos problemas, ou seja, os índios que abusam do álcool, não estavam participando do evento, mas que entre os participantes havia professores, agentes de saúde e caciques interessados em minimizar as consequências do álcool entre os índios. “Há pessoas que se mudam de aldeia quando a situação fica insuportável”, disse.

Procurador é contra proibição

Considerados cidadãos brasileiros com todos os direitos e deveres desde a promulgação da Constituição de 1988, os índios têm o direito de comprar bebida alcoólica, substância lícita e de acesso a qualquer pessoa maior de 18 anos. As situações problemas devem ser tratadas, com iniciativas como o seminário, mas a proibição da venda de álcool aos índios é uma opção altamente discriminatória e não deve ser cogitada. “É necessário que os índios assumam o protagonismo de suas vidas, o que inclui a sustentabilidade das aldeias e também a capacidade de lidar com problemas como o abuso de álcool. O que estamos fazendo é uma forma de contribuir para isso, sem discriminar”, explicou o procurador Álvaro Manzano.

Além das lideranças karajá, representaram as seguintes instituições no seminário: Márcio Santos - antropólogo do MPF/TO; Vera Bogea - técnica do DSEI Araguaia (Funasa); Edivânia Queiroz – Apoit; Wesley Barros - SEDUC TO; Lilian Brant - Funai (TO); Joaquim Correa Neto - coordenador regional da Funasa (TO)

Fonte: Assessoria de Imprensa MPF