Opinião

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Eis a questão. Entre os dias 18 a 27 de setembro de 2015, um evento inédito em âmbito mundial, ocorrerá em Palmas-TO, os I Jogos Mundiais dos Povos Indígenas. A capital do Estado do Tocantins venceu a proposta para realizar este tão importante evento internacional, através da Secretaria Extraordinária dos Jogos Mundiais Indígenas, em parceria com o Ministério do Esporte. A iniciativa partiu do Comitê Intertribal Memória e Ciência Indígena.

A previsão é da participação de mais de dois mil indígenas de 24 etnias brasileiras e representantes de povos indígenas de 30 países, de vários continentes, tais como, América do Norte (Canadá, EUA, México), América Central (Guatemala, Nicarágua, Costa Rica e Panamá), América do Sul (Colômbia, Venezuela, Equador, Peru, Bolívia, Chile, Argentina, Paraguai e Guiana Francesa) e até da Europa e da Ásia (Noruega, Rússia, Japão, China e Filipinas), do Continente africano (África do Sul), entre outros.

Está havendo uma grande mobilização por parte da prefeitura municipal para a montagem deste evento esportivo, uma estrutura especial que contará com acomodações e instalações, uma aldeia montada para alojamento das etnias, refeitório, oca digital, praça de alimentação com comidas típicas, campo de beisebol, raia olímpica na extensão do lago de Palmas, no leito do ribeirão Taquaruçu, uma grande arena, museu do índio, feira de artesanato, além da construção de um Centro de Iniciação ao Esporte (legado das Olimpíadas) e Centro de Excelência de Futebol (legado da Copa do Mundo), além de salas de apoio técnico e destinadas à imprensa. Tudo isto está sendo amplamente divulgado pela mídia e reforçado com vários vídeos publicados no Youtube.

No dia 16 de abril, foi lançado um selo especial alusivo aos Jogos Mundiais dos Povos Indígenas pela Empresa dos Correios em um evento bem badalado. O selo que é de autoria de Carlos Terena, irmão do representante Intertribal Marcos Terena traz uma representação das principais famílias linguísticas dos povos indígenas brasileiros: Tupi, Macro-Jê e Aruak. O significado das cores verde, amarelo e vermelho remetem às matas, ao artesanato e à mãe terra.

Entre os dias 20 de abril e 1º de maio, está ocorrendo na sede da Organização das Nações Unidas (ONU), em Nova Iorque (EUA), o Fórum Permanente sobre as Questões Indígenas, visando o debate sobre os Direitos dos Povos Indígenas. Uma delegação dos Jogos Mundiais dos Povos Indígenas, composta pelo prefeito de Palmas, Carlos Amastha, o secretário extraordinário Hector Franco, o ministro do Esporte George Hilton, representantes do Comitê Intertribal memória e Ciência Indígena (ITC) Marcos Terena e Wilton Littlechild, participam do Fórum com o objetivo promover e divulgar o evento esportivo indígena em Palmas-TO.

Isto posto, vem algumas perguntas intrigantes: Palmas e o Brasil estão preparados para realizar este grandioso evento? Amigos, não estou falando da infraestrutura, da organização, da beleza das imagens, dos I Jogos Mundiais Indígenas, estou me referindo à questões de relações interpessoais, ou melhor dizendo, sobre o olhar dos palmenses, tocantinenses e dos brasileiros lançados aos indígenas representantes de tantas e tão diversas etnias participantes.

Serão vistos como seres exóticos, com maus costumes, adeptos de cultura menor ou menos evoluída? Ou serão respeitados como legítimos representantes de povos indígenas e originários e que merecem respeito, honra e aos quais estão assegurados direitos que outrora lhes foram roubados?

Senão vejamos. Justamente nestes momentos preliminares, de preparação para este evento esportivo mundial, estamos presenciando um governo que reduz e leva à informalidade a demarcação de terras indígenas, com o apoio do Congresso Nacional e do próprio STF, impondo um retrocesso aos direitos indígenas.

No mês de abril, mais de 1500 lideranças indígenas de todo o Brasil estiveram em Brasília, pintados e empunhando arcos e chocalhos, em protesto contra os poderes da República, reivindicando os seus direitos. Mas o que esperar deste Congresso Nacional? 250 deputados e 16 senadores são integrantes da bancada ruralista e que querem aprovar a PEC 215, que segundo especialistas, caso aprovada, irá emperrar a  já lenta demarcação de terras indígenas. No encontro com o vice-presidente da República Michel Temer, afirmou desconhecer os processos de demarcação de terras indígenas que estão emperrados há décadas. Como é possível isto? Ele mesmo que já foi presidente do Congresso e ocupa a vice-presidência?

A Fundação Nacional do Índio (Funai) ano após ano está sendo enfraquecida. A situação no Estado do Tocantins também é preocupante, onde 25% dos 14 mil indígenas ainda não têm território demarcado.  Segundo a Funai e conforme dados veiculados pela mídia local, este número de indígenas são do  povo Karajá, Xambioá, Javaé, Xerente, Krahô-Kanela, Apinajé, Pankararú e Avá-Canoeiro, distribuídos em 82 aldeias.

Se isto não bastasse, o preconceito e discriminação contra os indígenas é algo assustador. Um exemplo claro disto foi o recente episódio ocorrido no Restaurante Universitário (RU) da Universidade Federal do Tocantins (UFT), onde indígenas foram barrados e impedidos de entrar por uma nutricionista, pelo simples fato de estarem caracterizados, alegando que teriam que colocar vestes da sociedade branca e que, da forma como estavam caraterizados, significava falta de higiene. Isto gerou revolta e interferência de vários alunos, professores, servidores e inclusive da reitoria da UFT, que proporciona políticas específicas de inclusão dos povos indígenas e cotas específicas de ingresso na universidade.

Mas este que é o meu receio. Esta nutricionista, detentora de curso superior é um exemplo negativo de centenas, quem sabe de milhares de brasileiros, que não conhecem, e por esta razão, desprezam, ridicularizam e discriminam os indígenas.

O meu receio é que a sociedade palmense e tocantinense está recebendo informações e sendo impactada por mensagens midiáticas sobre os I Jogos Mundiais dos Povos Indígenas, mas não está sendo preparada para entender a diversidade cultural indígena. Urgente e necessário é mostrar à sociedade a grande contribuição da criatividade indígena para um país cada vez mais mergulhado numa ideologia exploradora e destrutiva. Imaginem, está previsto para os próximos anos, a construção de 91 Usinas Hidrelétricas na Amazônia, que irão impactar centenas de povos indígenas da região. O que é isto? Desenvolvimento? 

Os povos indígenas teimam em sobreviver e manter suas culturas, mesmo enfrentando o avanço cada vez mais truculento sobre seus territórios e saberes tradicionais. Há necessidade urgente de entender que os povos indígenas necessitam de canais de comunicação e interlocução com toda a sociedade brasileira, e que se criem espaços onde sejam revelados os conhecimentos, a beleza e a força de suas culturas.

Afinal, a diversidade cultural é a maior riqueza de um país e que ainda não é assumida pelo nosso, apesar de ser signatário da Convenção Internacional de Proteção e Promoção da Diversidade das Manifestações Culturais, documento da Unesco, desde 2006.

Que estes I Jogos Mundiais dos Povos Indígenas possam promover isto e não apenas servir como espetáculo para inglês ver, como diz o ditado, beneficiando econômica e politicamente apenas alguns grupos capitalistas. 

*Wolfgang Teske é catarinense de Blumenau-SC, jornalista, educador e teólogo, pós-graduado em Docência do Ensino Superior e Mestre em Ciências do Ambiente/Cultura e Meio Ambiente. Reside em Palmas-TO, desde 1992, onde implantou o Complexo Educacional da Universidade Luterana do Brasil, sendo o seu primeiro diretor. Foi diretor de Relações Empresariais e Comunitárias da Escola Técnica Federal de Palmas, hoje IFTO, na sua implantação. Atualmente, é professor e pesquisador da Universidade Federal do Tocantins. Autor dos livros A Roda de São Gonçalo; Cultura Quilombola; co-autor do Fotolivro Roda de São Gonçalo e diretor de produção do Filme A Promessa. É Cidadão Palmense e Membro da Academia Palmense de Letras - cadeira nº 17. Wolfgang Teske ainda escreve semanalmente em seu blog Alfarrábio Pensar.

Por: Wolfgang Teske

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