Opinião

Foto: Divulgação  Ciro Antonio Rosolem, Vice-presidente de estudos do CCAS Ciro Antonio Rosolem, Vice-presidente de estudos do CCAS

 Segundo a maioria dos dicionários: Agricultura (origem: Latin) – a arte de cultivar o solo. Entretanto, desde há aproximadamente 10.000 anos, quando começou uma agricultura mais ou menos organizada na Mesopotâmia, se sabe que agricultura, além de arte, é ciência. Na verdade hoje é bem mais que isso. Quando se fala em produção de alimentos, matérias primas e energia, não se pode falar em agricultura somente.

Em 1957 John H. Davis e Ray A. Goldberg, em Harvard, usaram pela primeira vez o termo Agribusiness (Agronegócio). Isso implica em conceito muito mais amplo que agricultura, envolvendo todo o sistema produtivo, com aspectos científicos, técnicos, econômicos e sociológicos, até o consumidor final. Trata-se então de um negócio.

Ora, negócios, para prosperar, precisam conquistar seus consumidores. É necessária a “criação” de um produto diferenciado. O marketing entra na estória e na história. Assim, já é antigo o conceito de se atribuir “valores” a produtos e serviços, inclusive agrícolas, com o objetivo de conquistar uma fatia do mercado, agregar valor, o conceito de “o meu é melhor”. Assim, existe o queijo Maasdam e o Parmesão, o vinho Chianti e o Vale dos Vinhedos, o café do Cerrado, a cachaça de Salinas e muitas outras denominações características.

Da mesma forma se fala em agricultura orgânica ou biológica (sem produtos sintéticos e sem transgênicos), em agricultura biodinâmica (orgânica baseada em relações espiritual-ética com o solo, plantas e animais), em agricultura natural (busca reestabelecer o estado natural de produção), agricultura regenerativa (produção de alimentos saudáveis), permacultura (aplica os princípios da natureza), agricultura empresarial (praticada em larga escala), entre outras.

O quê tudo isso tem em comum? Cada uma delas tem um conjunto próprio de regras, seguem determinados princípios delimitados por grupos interessados e até por legislação oficial, tudo com o objetivo final de diferenciar o produto, conquistar um mercado, agregar valor. Lógico que cada denominação, cada grupo se auto-definirá como melhor produtor, o mais respeitoso, realizador de um produto de melhor qualidade. Entretanto, quem fiscaliza e garante essa qualidade? Qualidade é um termo extremamente amplo.

A exigência de aumentos na produtividade e fornecimento de alimentos, matérias primas e energia baratos, levou ao uso de produtos e técnicas que permitem o melhor uso dos recursos naturais, conservando a vegetação natural e permitindo maior acesso dos pobres a uma alimentação saudável. Existem leis que regulamentam isso. O uso de todos esses produtos e técnicas é fiscalizado no Brasil, por, no mínimo, três ministérios, e mais algumas agências reguladoras.

Para complicar um pouco mais, há ainda os aspectos de sustentabilidade ambiental, de justiça social, além de alguns outros. Notem que são coisas diferentes. O fato de existirem regras que definem um tipo de atividade, a simples existência destas regras, na maioria das vezes não implica em boa qualidade alimentar ou produto saudável. Orgânico, ou biodinâmico, tanto quanto empresarial, pode ou não ser sustentável ou saudável. A associação de sustentável, ou saudável, ou ecológico, tem sido uma ferramenta de marketing poderosa na colocação dos produtos, agregando valor e definindo grupos de consumidores.

Assim, temos a liberdade de escolha ao adquirir nossos alimentos, sejam produzidos por meios ditos alternativos ou ditos tradicionais. Entretanto é fundamental a consciência de que a associação de um tipo de produção não garante saúde ou qualidade. São coisas diferentes.

Ciro Antonio Rosolem, Vice-Presidente de Estudos do Conselho Científico para Agricultura Sustentável (CCAS) e Professor Titular da Faculdade de Ciências Agrícolas da Universidade Estadual Paulista “Júlio de Mesquita Filho” (FCA/Unesp Botucatu).

Por: Redação

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