Polí­tica

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O ministro do Planejamento, Romero Jucá, disse na tarde desta segunda-feira, 23 de maio, que vai se licenciar do cargo a partir de amanhã (24) até o Ministério Público Federal se manifestar sobre as denúncias contra ele. 

"Vamos aguardar a manifestação do Ministério Público com toda a tranquilidade, porque estou consciente que não cometi nenhuma irregularidade e muito menos qualquer ato contra a apuração da Lava Jato", disse em entrevista. 

Jucá concedeu entrevista, após publicação de reportagem na Folha de S.Paulo, com conversas gravadas entre ele e o ex-presidente da Transpetro Sérgio Machado. Segundo o jornal, eles estariam discutindo formas para impedir o avanço da Operação Lava Jato sobre o PMDB, partido do ministro.

Jucá confirmou a conversa com o ex-presidente da Transpetro. Segundo ele, o também ex-senador Sérgio Machado foi à casa dele na hora do café da manhã para conversar sobre  várias questões.

Durante a entrevista, Jucá enfatizou não ter nada a temer e que não deve a ninguém. Segundo ele, se tivesse “telhado de vidro” não teria assumido a presidência da PMDB, durante o embate com o PT no afastamento da presidente Dilma Rousseff.

“Eu estive com o presidente Michel Temer pela manhã e ele reafirmou - eu também reafirmo -  nosso apoio à Operação Lava Jato. As investigações têm que ser feitas e a punição a quem quer que seja, e que tenha algum tipo de responsabilidade”, disse. “Não perco um minuto do meu dia de preocupação com a Operação Lava Jato”, destacou.

Interferência

Segundo Jucá, não há a mínima chance de interferência do Executivo sobre qualquer tipo de investigação. “Até porque ela é procedida de dentro do Poder Judiciário. Tanto na Justiça Federal do Paraná, quanto no Supremo Tribunal Federal, que são poderes independentes”, afirmou.

Ele destacou o apoio dado à recondução do procurador-geral da República, Rodrigo Janot, mesmo quando havia “resistências no Senado Federal”. Jucá disse que Janot faz um excelente trabalho e o Ministério Público deve ter autonomia para investigar “quem quiser e quem precisar de investigação”.

O ministro defendeu que as investigações sejam céleres e sem proteger “quem quer que seja”. Ele disse que convocou a entrevista coletiva para repelir qualquer interpretação dada pelo jornal, no que diz respeito aos diálogos com Sérgio Machado.

Segundo ele, os diálogos fazem parte de uma conversa extensa e não podem ser avaliados como frases soltas divulgadas pela reportagem. “As conversas que fiz com o senador Sérgio Machado são de domínio público. Tenho dito o que disse permanentemente em entrevistas e em debates”, declarou.

De acordo com a reportagem, em um dos trechos da gravação, Jucá disse que “tem que mudar o governo para poder estancar essa sangria”. Ao ser questionado sobre o trecho, ele disse que estava se referindo ao cenário da economia do País, e não a uma paralisação da Lava Jato.

O ministro disse que tem uma posição clara e cristalina sobre o assunto. Garantiu que deixou de apoiar a presidente Dilma por conta da questão econômica. Defendeu o afastamento da presidenta e a mudança de governo, porque entendeu que existia uma paralisação política e econômica devido à Operação Lava Jato.

"O governo tinha perdido as condições de governar. O eixo do governo era a preocupação com a Operação Lava Jato e as ações que dela decorriam. Seria impossível governar dessa forma,” disse.

Reportagem

Folha de S.Paulo divulgou nesta segunda-feira (23) trechos de gravações obtidas pelo jornal que mostram conversas entre o ministro do Planejamento, Romero Jucá (PMDB-RR), e o ex-presidente da Transpetro Sérgio Machado. Nas gravações, segundo o jornal, o ministro sugere que seria preciso mudar o governo para “estancar” uma “sangria”. Segundo as informações do jornal, o ministro estaria se referindo à Operação Lava Jato, que investiga fraudes e irregularidades em contratos da Petrobras.

Segundo a reportagem publicada pela Folha, os diálogos ocorreram em março deste ano. As datas não foram divulgadas e o jornal diz que as conversas ocorreram semanas antes da votação do processo de impeachment da presidente Dilma Rousseff na Câmara dos Deputados. De acordo com o texto, Machado teria procurado líderes do PMDB por temer que as apurações sobre ele, que estão no Supremo Tribunal Federal (STF), fossem enviadas para o juiz federal Sérgio Moro, em Curitiba, responsável pela Operação Lava Jato na primeira instância.

Nos trechos publicados, Machado diz que está preocupado com as possíveis delações premiadas que podem ser feitas. “Queiroz [Galvão] não sei se vai fazer ou não. A Camargo [Corrêa] vai fazer ou não. Eu estou muito preocupado porque eu acho que... O Janot [procurador-geral da República] está a fim de pegar vocês. E acha que eu sou o caminho”.

Jucá responde que Machado precisava ver com seu advogado “como é que a gente pode ajudar” e cita que é preciso haver uma resposta política e mudança no governo. “Tem que mudar o governo pra poder estancar essa sangria”, disse o ministro, segundo o jornal.

No diálogo publicado, Machado diz que a “solução mais fácil” era ter o então vice-presidente Michel Temer na presidência e que seria preciso fazer um acordo. “É um acordo, botar o Michel, num grande acordo nacional” e Jucá responde: “Com o Supremo, com tudo”. Logo em seguida Machado diz: “Com tudo, aí parava tudo” e o ministro concorda: “É. Delimitava onde está, pronto”.

Ainda segundo o jornal, Machado imagina que o envio do caso para Moro poderia ser uma estratégia para que ele faça uma delação premiada. A matéria diz ainda que ele teria feito uma ameaça velada e pedido uma estrutura para dar proteção. “Como montar uma estrutura para evitar que eu ‘desça’? Se eu ‘descer...”. Em outro trecho, o ex-presidente da Transpetro diz estar preocupado com ele mesmo e com “vocês” e que uma saída tem que ser encontrada.

De acordo com a Folha, Machado disse ainda que novas delações na Operação Lava Jato não deixariam “pedra sobre pedra”. O jornal diz que Jucá concorda com Machado de que o caso dele não pode ficar com Moro.

Jucá orienta ainda que Machado se reúna com o presidente do Senado, Renan Calheiros, e também com José Sarney.

Nas gravações divulgadas pelo jornal, o ministro afirmou que teria mantido conversas com ministros do Supremo Tribunal Federal (STF). Não foram citados nomes e, segundo o jornal, Jucá disse que são poucos os ministros da Corte aos quais ele não tem acesso. Machado diz que seria necessário ter alguém com ligação com o ministro Teori Zavascki, relator da Lava Jato no STF. Jucá diz que não tem uma pessoa e que Zavascki é “um cara fechado”.

O Supremo Tribunal Federal ainda não divulgou declarações a respeito das declarações divulgadas na reportagem. Segundo a Folha de S. Paulo, as gravações feitas somam mais de uma hora e estão com a Procuradoria-Geral da República (PGR). (Com informações EBC)

Por: Redação

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