Opinião

São quase dez e meia  da noite de um domingo.  Meu celular toca insistentemente de um número desconhecido. Recuso-me atendê-lo.  Mas, pelas quantidades de ligações, retornei a ligação e do outro lado da linha, um médico, amigo de infância, completamente indignado, me diz que está de plantão no setor de emergência do Hospital Regional de Porto Nacional/TO.

Com a voz indignada ele relata com detalhes os momentos dramáticos que passou com sua equipe para reanimar uma paciente grave, e revela as péssimas condições de trabalho da equipe médica, no setor de emergência.   

De acordo com o médico, ao dar entrada no hospital às 21h20, a paciente estava praticamente sem sinais  vitais, e que a mesma foi transferida de outro município em uma ambulância precária, sem suporte ventilatório (não estava entubada). “Na emergência não havia suporte ventilatório, tivemos que limpar a boca da paciente com gases para passar o tubo, pois o aspirador para limpar as vias aéreas está estragado”, disse com revolta.

“Ali os profissionais estão correndo risco de morte porque se falar com algum familiar sobre a precariedade no setor de emergência ele pode se revoltar e fazer besteira. Não temos segurança nenhuma no hospital. Em outra ocasião já tivemos casos de um paciente ser morto dentro da enfermaria após bandidos invadirem o hospital”, confessou-me, posteriormente uma assistente social.

Ao telefone, o médico continuou a falar como foi o seu esforço sobre-humano e da sua equipe para tentar reanimar a paciente, e fez outra denúncia grave; “O desfibrilador também não funciona juntamente com o oxímetro de pulso, aquele monitor que mostra os sinais vitais da pessoa. Absurdamente a equipe médica está atendendo o setor de emergência sem os equipamentos necessários para manter uma pessoa viva” ressaltou.

Em seguida, me confessou: “Às 22h20min  a paciente de 43 anos teve duas paradas cardíacas e veio a óbito”.

Perguntei-lhe qual sentimento que o tomava naquele momento, e ele me disse: “ Marcio Greick, eu escolhi uma profissão que luta pela vida. Meu maior desgosto é a falta de tudo e do descaso do Estado para com a saúde pública e o desrespeito   para com nossos  profissionais”.

Sem palavras, fiquei me perguntando: Meu Deus, até quando?  Quem realmente são os responsáveis pelo caos na saúde do estado?

Envolta da minha mesa, o jornal de maior circulação do estado  traz a seguinte manchete: “Deputados custaram mais de R$ 52 milhões em 2015”.  Os 24 deputados estaduais e os oito federais tocantinenses custaram R$ 52,7 milhões aos cofres públicos. Nesse valor estão salário, auxílio-moradia, verba indenizatória, e verba de gabinete pagos de fevereiro a dezembro. 

E para minha maior indignação o texto conclui: “Parlamentares ouvidos defendem  e justificam os gastos como fundamentais para o exercício das funções. 

Imaginei aquele médico aflito que havia perdido uma paciente por falta de equipamentos necessários para o exercício de sua função: salvar vidas.

*Marcio Greick é jornalista pós graduando em Ensino de Comunicação/Jornalismo: Temas contemporâneos