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Foto: Divulgação

Doença endêmica em 88 países, a Leishmanione Visceral Canina sempre foi assunto polêmico no Brasil, único país do mundo a utilizar o sacrifício dos animais como forma de combate. Este ano, a história, que afeta diretamente a saúde pública, tomou um novo rumo. Os Ministérios da Saúde e Agricultura liberaram o medicamento Milteforan, da empresa Virbac Saúde Animal, para tratamento da doença. Mas o Conselho Regional de Medicina Veterinária e Zootecnia do Tocantins (CRMV-TO) faz um alerta para a população sobre o correto diagnóstico, tratamento e acompanhamento regular dos animais, o que deve ocorrer com exames clínicos e laboratoriais, solicitados por médico veterinário.

Segundo o médico veterinário Ivan Veríssimo, a leishmaniose visceral canina é uma doença totalmente tratável e curável clinicamente em alguns casos, mas como a grande maioria de doenças causadas por protozoários (ex: Doença de Chagas nos seres humanos), o portador geralmente não obtém a cura parasitológica. O tratamento garante uma redução da carga parasitaria, dificultando que o animal continue sendo um reservatório ativo. “Sou totalmente favorável ao tratamento porque a eutanásia dos cães não resolvia o problema de saúde pública. O cão nunca foi o vilão. Existem outros animais que também são reservatórios da doença, como gatos, morcegos e gambás”, explicou, acrescentando ainda que o animal tratado precisará passar por frequentes reavaliações, de três a seis meses, para certificar que a carga parasitária da leishmaniose continua baixa.

Apesar de ser uma esperança para os cães brasileiros, o tratamento com MilteforanTM deve ser encarado como uma ferramenta para auxiliar no programa de controle desta zoonose, e que medidas que impeçam o contato do vetor (flebotomíneo) com o reservatório (cão) da doença ainda devem ser priorizadas, principalmente em áreas endêmicas, evitando assim reinfecções.

Vale destacar também que o custo com o tratamento com o Milteforan é relativamente alto, dificultando o tratamento daqueles pets de classes com menor poder aquisitivo. “Eu acho um medicamento caro. O frasco sai em torno de R$ 800,00 a R$ 1.300,00, dependendo do porte do animal, da variação na dosagem terapêutica, influenciando a quantidade de produto que deve ser comprado. A doença tem uma prevalência maior na periferia e na atual situação em que o Brasil se encontra, acho muito difícil o Governo custear este tratamento para os mais carentes. Isso não foi explicado pelos ministérios”, disse Veríssimo.

O CRMV TO ainda lembra que um fator importante para restringir a doença é o uso de repelentes à base de piretróides, telagem em canis, portas e janelas, além da limpeza de quintais e terrenos, a fim de alterar as condições do meio que propiciem o estabelecimento de criadouros do vetor da doença, o mosquito palha. “Entendemos que somente através do tratamento dos cães de forma correta, com conhecimento técnico de um médico veterinário e com um controle efetivo do mosquito é que iremos combater a leishmaniose”, explicou a presidente do Conselho, Railda Marques.

Entenda

Também conhecida como calazar, a contaminação da leishmaniose em seres humanos e animais ocorre através da picada da fêmea do mosquito Lutzomyia longipalpis, mais conhecido como mosquito-palha ou birigui. No ser humano, os sintomas são: febre prolongada, perda de peso, falta de apetite e aumento do fígado e baço. Se não tratada a tempo, a leishmaniose visceral tem alto índice de mortalidade em pacientes imunodeficientes portadores de doenças crônicas. Nos cães, aparecem lesões de pele, perda de peso, descamações, crescimento exagerado das unhas e dificuldade de locomoção. No estágio avançado, o mal atinge fígado, baço e rins, levando o pet ao óbito.