Opinião

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O vexame e humilhação que a Seleção da Alemanha impôs ao Brasil, nos jogos das semifinais, no inesquecível dia 08 de julho de 2014, não ficou apenas no placar histórico do 7x1. A seleção brasileira de futebol e todos os jogadores perderam muito mais, pois a derrota ocorreu dentro e fora do campo, antes e após a Copa do Mundo, a Copa das Copas.

Não foi só a desorganização tática e técnica da seleção brasileira que trouxe prejuízos à imagem de nosso País, tristeza aos milhares de brasileiros e torcedores que cantavam e se emocionavam ao cantar o hino antes dos jogos, com toda a empolgação possível, mas a falta de percepção do sofrimento de muitos brasileiros, principalmente das crianças pobres, doentes e necessitadas.

O meia da seleção alemã, Mezut Özil fez um gol de placa antes e depois da Copa da Fifa, e com esta marca, dá um exemplo aos jogadores brasileiros de como se joga dentro e fora do campo.

Mas afinal, talvez você pergunte: "que gol foi este, tão pouco comentado e noticiado e que sequer teve espaço nos programas especiais da cobertura do maior evento esportivo do mundo?" Respondo. Özil doou o dinheiro da premiação recebida pelo título, o tetracampeonato, para financiar as cirurgias de 23 crianças brasileiras doentes e que não tem condições de arcarem com as despesas dos procedimentos. O mesmo jogador já havia bancado as operações de 11 delas antes do mundial, e decidiu elevar o número para igualar a quantidade de jogadores no elenco da seleção, ou seja 23. Ele mesmo deixou publicado em seu blog o seguinte: "Queridos fãs, esse é o meu agradecimento pessoal pela hospitalidade do povo brasileiro".

Para se ter uma ideia concreta, segundo publicação no jornal britânico Express, o dinheiro doado ultrapassa US$ 400 mil (dólares), cerca de R$ 800 mil (reais).

E não foi só ele. Todos os jogadores da seleção alemã deram uma lição de solidariedade, atenção e sensibilidade. Toda a estrutura construída do centro de treinamento e alojamentos montados especificamente para a Copa do Mundo, em Santa Cruz Cabrália, ficará para a cidade. Foram doados R$ 30 mil reais que serão utilizados para a compra de um carro para a etnia pataxó, além de financiarem um projeto para que, até a próxima Copa, os alunos de uma escola estudem em tempo integral.

A atitude dos alemães foi completamente oposta da dos invasores portugueses há 514 anos. Àqueles não respeitaram a cultura e sequer aceitaram compartilhar, muito pelo contrário, a ação era explorar, subjugar e dominar. Enquanto estes, agora, praticaram a solidariedade, deram lições de respeito à diversidade.

A relação amistosa e cordial com os pataxós foi marcante, ao ponto do cacique José Valério Matos, o Zeca Pataxó, filho do pagé fazer a seguinte afirmação: "Mostraram ter admiração e respeito à nossa cultura". Isso porque, já no primeiro dia, no centro de treinamento os pataxós de Coroa Vermelha, foram convidados a mostrar a sua cultura. Dançaram e tiraram fotos ao lado dos craques.

Enquanto a mídia brasileira focava no choro e nas lágrimas de David Luiz, Neymar e demais jogadores, os alemães focavam no choro das crianças mais necessitadas e nos nossos irmãos indígenas tão discriminados.

E o que fizeram os nossos "craques"? O que fizeram com o dinheiro do prêmio de 4º lugar? É bom lembrar que o prêmio da Fifa para a seleção brasileira, pela quarta colocação foi de US$ 20 milhões de (dólares), ou seja, R$ 44, 444 milhões de (reais). Da mesma forma, é bom que se lembre que os jogadores da seleção brasileira são os craques mais bem pagos do mundo. Imaginem só, o Neymar ganha mais de 5 milhões de reais por mês, o que representa um ganho superior a 60 milhões por ano, Hulk, dois milhões mensais e por aí vai, sendo que o que tem o menor salário é o jogador do Atlético Mineiro, Jô, que recebe R$ 150.000,00 por mês, o que não é pouco dinheiro.

Volto a perguntar: "O que fizeram com o prêmio?" Impuseram tanta tristeza aos torcedores brasileiros, principalmente às crianças, que estavam tão esperançosas com a conquista do hexa. Como compensação por tantas lágrimas derramadas, teria sido uma demonstração de carinho e solidariedade, se imitassem os jogadores alemães, distribuindo os seus prêmios imerecidos pelo vexame, aos mais necessitados. Quantas cirurgias poderiam ser realizadas e crianças em sofrimento socorridas com este valor.

De fato, o Brasil tem muito a aprender, para que não continue perdendo dentro e fora do campo com tantos gols de placa.

A Seleção da Alemanha mereceu o título. Parabéns.

*Wolfgang Teske é catarinense de Blumenau-SC, jornalista, educador e teólogo, pós-graduado em Docência do Ensino Superior e Mestre em Ciências do Ambiente/Cultura e Meio Ambiente. Reside em Palmas-TO, desde 1992, onde implantou o Complexo Educacional da Universidade Luterana do Brasil, sendo o seu primeiro diretor. Foi diretor de Relações Empresariais e Comunitárias da Escola Técnica Federal de Palmas, hoje IFTO, na sua implantação. Atualmente, é professor e pesquisador da Universidade Federal do Tocantins. Autor dos livros A Roda de São Gonçalo; Cultura Quilombola; co-autor do Fotolivro Roda de São Gonçalo e diretor de produção do Filme A Promessa. É Cidadão Palmense e Membro da Academia Palmense de Letras - cadeira nº 17. Wolfgang Teske ainda escreve semanalmente em seu blog Alfarrábio Pensar.

Por: Wolfgang Teske

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