Opinião

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A movimentação política-eleitoral nesta época é algo que impressiona. Não pelas discussões ideológicas e pautas de interesse coletivo, mas, unicamente, para ir em busca de votos dos eleitores que são, conforme estabelecido pela legislação brasileira, obrigados a votar ou justificar sua ausência no dia da eleição.

A busca do voto no Tocantins é um vale tudo, principalmente, levando-se em conta a baixa escolaridade do eleitor. Conforme dados do TSE, 80.059 votantes, 8%, declararam ser analfabetos e 14% (145.886) apenas leem e escrevem. O Tocantins tem 996.887 eleitores e apenas 7% tem Ensino Superior completo. Isto me leva ao seguinte raciocínio: primeiro, a enganação, o falseamento da verdade, a falta de pudor, respeito e ética com o eleitor de baixa escolaridade é uma prática corriqueira e não é difícil, e, segundo, uma boa parte dos 8%s que tem escolaridade mais elevada estão a serviço dos dominadores, corruptos e alguns canalhas que querem se perpetuar no pode, tornando-se, assim, cúmplices do processo e esquema. 

Bem, como mudar esta situação, é o grande desafio.

Cabe, inicialmente, uma análise do que vem ocorrendo durante a campanha eleitoral por parte dos candidatos. Como gostam de montar e acompanhar cavalgadas nas Festas Pecuárias, que são momentos marcantes e importantes, principalmente, no interior do Estado, pois ali se exibem com roupas de peão boiadeiro, sempre acompanhados de prefeitos locais, outras "autoridades" e muitos puxa-sacos. 

O atual governador, candidato a reeleição, se apresenta como o "novo", contudo adota as mesmas práticas antigas e iguais. Tanto ele, como outros candidatos que adotam a mesma prática, montados e desfilando pelas ruas, ficam numa situação bem confortável, longe do povo, sendo ora aplaudidos por muitos eleitores, que acham tudo tão bonito e fascinante, ora vaiados por aqueles que já enxergam mais longe.

Fico a me perguntar, como é possível o atual governador Sandoval Cardoso se propor a reeleição, sendo que o seu governo continua com os mesmos problemas que herdou do anterior e deixou alguns ainda em pior situação? 

Senão vejamos: Como pode o lixo hospitalar nos maiores hospitais, tal como o Hospital Geral de Palmas, Hospital Dona Regina, Hospital Infantil ficar sem recolhimento durante semanas, por falta de pagamento da empresa responsável? Os hospitais suspenderem cirurgias eletivas e necessárias por falta de material e insumos? Suspensão dos serviços da UTI Aérea também por falta de pagamento da empresa responsável. Atraso enorme no pagamento das horas extras dos profissionais da saúde. Agora, novamente está na pauta a terceirização da administração do Hospital de Araguaína entre outros, após tantos problemas enfrentados nestes últimos três anos com a prática? 

Não há outra explicação para tudo isto. Falta de gestão na área da saúde. Não é falta de dinheiro não. Não é falta de programas adequados. Sabem por que? Não é difícil de descobrir. Basta analisar o currículo das pessoas que gerem o setor, pois muitas delas, que ocupam cargos de gestão, não são concursados, além de não terem qualificação necessária para tal. Chegaram até estes cargos, muitas vezes comissionados, por serem meramente amigos do chefe maior, de deputados ou prefeitos que negociaram troca de favores e comprometimento com a eleição. Portanto, apenas comprova que não estão preocupados nem com a atual, muito menos com as futuras gerações, mas unicamente com a próxima eleição.

Os problemas não se restringem à saúde, mas em diversas áreas. O sistema prisional está um caos e juntamente com a segurança pública já virou um problema crônico. 

Mesmo assim, candidatos comprometidos com o atual governo, e que buscam a sua reeleição ou eleição, afirmam que tudo está normal, que não houve desvios já comprovados no Igeprev, que não há corrupção e que tudo isto é provocado pela oposição.

Santa paciência. Só me resta evocar as palavras e propostas do educador e filósofo Paulo Freire, patrono da Educação Brasileira, ao escrever sobre a Teoria e Prática da Libertação. Freire, ao criar um método pedagógico de alfabetização, colocou em prática a libertação de camponeses analfabetos, diante da necessidade de atuar sobre a realidade social para transformá-la. O resultado foi notável, pois a participação das massas alfabetizadas modificava notavelmente o esquema das relações de poder. 

Já naquela época, dos anos 60 do século passado, os políticos não se interessavam pelas massas, senão na possibilidade de estas serem manipuladas no jogo eleitoral. Paulo Freire trabalhava para que houvesse a real conscientização do povo a respeito de sua situação. É bom lembrar que a conscientização não é apenas tomar consciência dos fatos, mas ela vem acompanhada com AÇÃO. No momento em que existe conscientização, o cidadão assume papel de sujeito que faz e refaz o mundo.

Gostaria muito que o eleitor tocantinense percebesse as jogadas maléficas preparadas para laçar o seu voto e que soubesse analisar o passado de cada candidato. Caso isto ocorra, certamente o quadro político do Tocantins será modificado, e o eleitor não mais aplaudirá os candidatos montados nas cavalgadas, do contrário, será como diz a frase que surgiu no início do século 19, com a invasão de Napoleão Bonaparte na Península Ibérica: "Tudo como Dantes no quartel de Abrantes".

*Wolfgang Teske é catarinense de Blumenau-SC, jornalista, educador e teólogo, pós-graduado em Docência do Ensino Superior e Mestre em Ciências do Ambiente/Cultura e Meio Ambiente. Reside em Palmas-TO, desde 1992, onde implantou o Complexo Educacional da Universidade Luterana do Brasil, sendo o seu primeiro diretor. Foi diretor de Relações Empresariais e Comunitárias da Escola Técnica Federal de Palmas, hoje IFTO, na sua implantação. Atualmente, é professor e pesquisador da Universidade Federal do Tocantins. Autor dos livros A Roda de São Gonçalo; Cultura Quilombola; co-autor do Fotolivro Roda de São Gonçalo e diretor de produção do Filme A Promessa. É Cidadão Palmense e Membro da Academia Palmense de Letras - cadeira nº 17. Wolfgang Teske ainda escreve semanalmente em seu blog Alfarrábio Pensar.

Por: Wolfgang Teske

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