Opinião

Estamos a menos de um ano da eleição presidencial e o cenário político é de incerteza e indefinição, movimentado apenas por notícias de escândalos, investigações, indiciamentos e condenações. Os políticos se mostram acautelados, talvez esperando o temporal passar.

A política está vivendo momento que poderia ser ‘divisor de águas’: antes e depois da Lava Jato, sem dúvida o processo que mais contundentemente atingiu o ambiente e por isto sistematicamente sofre ataques e sofismas por parte daqueles que o temem. Todavia, até nisso há incerteza, daí o desânimo que alcança também a população, que se não acredita nos que aí estão, pouca perspectiva confiável enxerga no horizonte eleitoral para 2018.

Em termos de nomes, aparecem os mesmos de sempre. Geraldo Alckmin atônito dentro de um partido sem rumo, os tucanos brigam entre si, ameaçam desembarcar do governo mas não querem perder os Ministérios que ocupam; Marina Silva, segundo últimos informes, disposta a abdicar da eleição presidencial para optar por candidatura com mais chance de vitória, provavelmente ao Senado; o ex-presidente Luiz Inácio Lula da Silva, obstinado por um terceiro mandato que amenizaria os efeitos dos processos sofridos e neutralizaria outros em potencial.

Os nomes novos, quanto a uma provável disputa,foram postos na cena eleitoral por circunstâncias: o prefeito de São Paulo, João Dória, cujo crescimento na opinião pública assustou caciques de seu partido e por isso acabou sendo bombardeado de saída por demonstrar velada ambição; o deputado federal Jair Bolsonaro, com seguidores que comungam das mesmas ideias e propostas vê seu nome crescer; mais recentemente o ministro da Fazenda, Henrique Meirelles, que reluta em se declarar, teve o nome citado, devido em parte ao momento da economia.

Bolsonaro e Lula merecem rápida análise individual. Todas as últimas pesquisas os colocam como nomes preferidos, com o ex-presidente na liderança em variados cenários.

Bolsonaro tem preferência entre o eleitorado que, como a maioria da sociedade,está preocupado com a situação do país, principalmente a insegurança, aumento da criminalidade, a licenciosidade crescente e a subversão da moral e dos bons costumes. A população chega a pensar em apoiar medidas radicais defendidas pelo deputado. Quanto a Lula, atingido por processos que investigam a corrupção, inclusive em seu governo, continua imune junto à opinião de eleitores ouvidos nas pesquisas. Ocorre que no início das investigações da Lava Jato Lula estava mal colocado na preferência e com alta rejeição, devido à corrupção envolvendo ele próprio e companheiros de partido. Porém, com o avanço das operações da Lava Jato e de outras paralelas, muitos outros políticos, parlamentares, gestores públicos e dirigentes partidários foram denunciados, o que ajudou Lula na leitura do eleitorado que opta pelo ex-presidente por entender que ‘todos são corruptos’; também levam em consideração os dois governos do petista, que tiveram reflexo positivo, notadamente sobre as classes mais populares beneficiadas por programas assistencialistasque geraramalto passivo que até hoje afeta o equilíbrio fiscal e financeiro do país.

O resumo disso tudo é que a situação atual representa perigo latente. É caminho propício para o surgimento de um candidato populista que se apresente como o ideal, o ‘salvador’ e apoiado em pregação oportunista conquistará o eleitorado descrente e desesperançado que busca alguma alternativa. Aparentemente não há um nome com esse perfil, mas pode aparecer, não precisa de muito tempo, nem de partido consolidado ou expressão política nacional, pois uma campanha avassaladora com pregação quase apocalíptica supera essas carências. Vale lembrar Fernando Collor, na época conhecido basicamente no Nordeste, que se candidatou por um partido criado especialmente para acomodá-lo.

É oportuno observar que nessa eleição (1989) todos os partidos apresentaram candidatos dentre as maiores lideranças de seus quadros: Ulysses Guimarães (PMDB), Leonel Brizola (PDT), Aureliano Chaves (PFL), Paulo Maluf (PDS), Mário Covas (PSDB), Afif Domingos (PL) e Lula (PT).

Apresentando-se como novo, diferente dos demais, discurso ousado, ataque aos ‘marajás’ e um pouco de carisma Fernando Collor (PRN) acabou conquistando os eleitores frustrados com a política e com os políticos. Todavia, é bom lembrar também que a experiência mostra que candidato com tal perfil dificilmente se converte em solução.

A conclusão é que, parece, a situação política do Brasil não se redefinirá já a partir do próximo ano eleitoral. Seria ideal que a sociedade tomasse consciência disso. Quem primeiro pode promover mudanças é a população, o povo que vota. Mudar pela participação e engajamento, deixar de ter vergonha da política. Participar, discutir, pressionar, cobrar e ...votar bem, porque mudança para melhor implica em Congresso sério e comprometido com o povo, com o país. O parlamento está devendo muito à sociedade brasileira, o Congresso labora em benefício próprio, mais interessado em criar dificuldades (ao governo) para vender facilidades (em troca de nomeações, cargos e verbas), como se vê agora na votação das reformas. E, observe-se bem, para a depuração política ser completa, profunda e duradoura o Judiciário precisa igualmente contribuir positivamente, pois ultimamente tem dado mostras de inexplicáveis condescendências, muitas vezes tão paradoxais que geram acirradas divergências em seu próprio meio.

Todavia, é confortante recordar que o Brasil já viveu outras crises e situações políticas delicadas e as superou. Creio que superará mais este momento, porém será fundamental que os brasileiros do bem tomem posição e ocupem seus espaços, especialmente políticos, para consolidar a democracia e a política em sua essência como ferramenta indispensável na promoção do desenvolvimento social. Se as pessoas de bons princípios se omitirem e se alienarem os oportunistas e aproveitadores continuarão tomando conta dos lugares.

*Luiz Carlos Borges da Silveira é médico, ex-ministro da Saúde, ex-secretário de Ciência e Tecnologia do Governo do Estado do Tocantins e ex-secretário do Desenvolvimento Econômico, Ciência e Emprego do Município de Palmas-TO 

Por: Luiz Carlos Borges da Silveira

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