Polí­cia

Foto: Divulgação Para o advogado Edson Alecrin, o médico planejou a morte de Danielle Para o advogado Edson Alecrin, o médico planejou a morte de Danielle

No início desta semana, a Secretaria da Segurança Pública do Tocantins informou que o laudo de exame necroscópico realizado em Danielle Christina Lustosa Grohs foi concluído e apontou que a morte da professora ocorreu em decorrência de asfixia por estrangulamento. O advogado da família, que acompanhava Danielle no processo de separação, Edson Alecrim informou nesta quinta-feira, 18, que o pedido da defesa à Justiça é que o médico Álvaro Ferreira Dias, suspeito pelo crime, seja enquadrado no artigo 121, parágrafo 2º, Incisos do 1º ao 5º, do Código Penal, por homicídio qualificado, por motivo torpe, crime hediondo.

“Foi um crime bárbaro o que ocorreu com a Danielle. Ela não merecia esse tipo de tratamento. O que a família quer é a condenação do Álvaro por pelo menos 30 anos. A família quer que o Judiciário cumpra sua função, que a Justiça condene o assassino e que ele permaneça preso no decorrer do processo”, conta Alecrim.

Danielle era professora concursada do município de Palmas, tinha 47 anos, e foi encontrada morta na própria casa, no dia 18 de dezembro de 2017. O advogado da família conta que a vítima conviveu por 19 anos com o médico e confirma que havia uma ordem de restrição para que Álvaro mantivesse uma distância de 500 metros de Danielle. “Desde 2016 ela tinha essa medida protetiva. Já havia sido agredida fisicamente pelo ex-marido, além das agressões verbais, que eram contínuas na vida do casal”, revela Alecrim.

Motivação do crime

O advogado conta ainda que estudou com Danielle na Faculdade Objetivo, em Palmas, e que desde essa época eram bons conhecidos. Ele detalha que a professora já relatava, nos trabalhos em grupos na faculdade, que tinha uma vida conjugal conturbada. Edson Alecrim garante que tanto para ele, quanto para os policiais militares que atenderam as ocorrências de violência doméstica na casa de Danielle, não há dúvidas sobre a autoria do crime.

“Para mim a causa do crime foi divisão de bens. Ele [Álvaro] havia procurado a Danielle várias vezes, pressionando para que ela fizesse com ele um ato de união estável. Ela disse que acabou fazendo esse documento com ele ainda em dezembro, mesmo com a ordem restritiva e apesar dos fatos ocorridos no passado”. O advogado revela que não sabe quais foram os argumentos usados pelo médico para convencer Danielle a assinar o documento e revela que em 2017 Álvaro Dias havia formulado acordo semelhante com a ex-namorada, Marla Cristina Barbosa Santos, filha da advogada de defesa de Álvaro, que foi presa nesta quarta-feira, 17, e liberada nesta quinta, em Palmas, após prestar depoimento à polícia.

Álvaro e Danielle nunca se casaram oficialmente e quando a professora pediu a separação surgiu entre o casal a necessidade da partilha de bens. Edson Alecrim explica que neste momento o médico teria afirmado a Danielle que não dividiria nada com ela. “Ambos tem juntos um patrimônio de R$ 4 milhões, conforme consta no processo. Embora eles vivessem em uma união estável, não havia documento comprovando a relação. Após separados e com a ordem restritiva, o médico conseguiu convencer Danielle a ir ao cartório e documentar a união estável”, afirma o advogado.

O crime foi planejado

Para o advogado, o médico planejou a morte de Danielle. “A casa em que o casal morava fica em um grande lote que, além da residência principal, possui mais duas unidades habitacionais que Danielle cedeu para duas famílias da igreja que frequentava, que estavam morando no local. O médico entrou em luta corporal com um dos moradores, chegou a fazer ameaças, e as pessoas que moravam nas casas deixaram o local uma semana antes do crime, após serem intimidadas por Álvaro. Danielle ficou sozinha na casa e no local já não havia testemunhas”, conta Alecrim.

O advogado revela ainda que no sábado, 16/12/17, apesar da ordem restritiva, o médico esteve na casa da professora, agrediu Danielle, que ligou para Alecrim. “Orientei que ela fosse à Delegacia, ao IML e fizesse o exame de corpo de delito. Em função dessa agressão, a polícia foi até a residência e deu ordem de prisão ao médico, que resistiu à prisão, atacou um dos policiais, e deixou a casa preso e gritando que voltaria para matar Danielle. Os policiais testemunharam e um dos militares até registrou uma ocorrência contra o médico”.

Após o ocorrido, Danielle voltou para casa e no domingo enviou uma mensagem para o advogado, informando que se arrependia de ter assinado a união estável com Álvaro e que queria ir ao cartório na segunda-feira seguinte revogar o documento. O advogado e a professora então marcaram de ir ao cartório no dia 18/12 às 9h. Entre domingo (17/12) e segunda-feira (18/12), Danielle deixou de visualizar seu Whatsapp e não atendeu mais aos telefonemas da mãe ou do advogado.

“Falei com Danielle pela última vez na noite do domingo. Mandei mensagens na segunda-feira e fui para a porta da casa dela, mas ela não atendia”, diz Alecrim. O advogado informou ainda que deduziu que a professora havia então saído para trabalhar em uma escola em Buritirana, onde lecionava, e ficou aguardando que ela retornasse suas ligações. Por volta das 16 horas o advogado estranhou que Danielle não tivesse entrado em contato nem com ele, nem com a mãe dela e resolveu acionar a polícia. “A mãe de Danielle também acionou a Delegacia da Mulher, pois desde a meia noite de domingo não havia conseguido manter qualquer contato com a filha. Ela disse que Danielle havia enviado uma última mensagem dizendo ‘mamãe eu sempre vou te amar’. A mãe dela informou na delegacia que sabia que a filha jamais enviaria tal mensagem sem estar enfrentando uma situação de perigo”, revela Alecrim.

Cena do crime

O advogado conta que quando entrou na casa de Danielle, na tarde de 18/12, com a polícia, a porta da frente estava fechada e a porta da cozinha estava aberta. Danielle já estava sem vida, na cama, de bruços. A professora tinha 10 cachorros, que ficaram presos no quarto com ela. “Por essa razão, quando batemos no portão os cachorros não latiram, porque estavam no quarto com Danielle. Então quem matou a Danielle deixou os cachorros presos com ela”, explica Alecrim.

A professora estava com o rosto afundado, como se tivesse sido jogada contra a parede. O advogado relata, com profunda tristeza, que Danielle foi morta com requintes de crueldade, após uso de força bruta. Edson Alecrim ainda chama a atenção do Judiciário sobre casos semelhantes ao de Danielle. “É muito difícil você ver uma pessoa querida, conhecida de tanto tempo, terminar desta forma. É preciso que as mulheres denunciem, que não se submetam a períodos tão longos de agressão por parte de seus companheiros, para que esses finais trágicos sejam evitados. A justiça precisa ser mais rígida. Não havia motivos, com todos os antecedentes do Álvaro, para que ele fosse solto depois da agressão que cometeu contra Danielle”, defende o advogado.

Dois vizinhos da professora testemunharam a presença do médico no local do crime, no dia da morte de Danielle. Um deles o viu deixar a casa às 7h da manhã e outro ouviu o barulho do portão eletrônico da casa às 7h da manhã. “O que a família, os amigos, todos que amam e admiram Danielle querem é que o autor deste crime seja submetido à pena máxima. Ele foi solto sem fiança, apenas porque tinha endereço fixo, emprego estável e era médico, ou seja, o juiz considerou que por essas razões ele era uma pessoa de reputação ilibada. Se ele tivesse permanecido preso, provavelmente isso não teria acontecido”, finaliza Alecrim.