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Apesar de a Fundação Nacional de Saúde (Funasa) não divulgar dados exatos sobre suicídios nas comunidades indígenas Guarani Kaiowá e Nanhandeva, no Mato Grosso do Sul, especialistas consideram que a situação na região é alarmante e exige soluções para um enfretamento mais eficaz do problema. Extra-oficialmente, falam em uma média anual de 50 casos na região. Os estudiosos do tema estão reunidos em Brasília na 1ª Conferência Internacional de Saúde Mental Indígena, que começou dia (22) e vai até amanhã quinta-feira (25).

A principal dificuldade, segundo os especialistas, é a diversidade dos fatores que estimulam os suicídios entre os índios. Desentendimentos familiares, disputas de poder e de terra nas comunidades, feitiços, desilusões amorosas, alcoolismo e poucas perspectivas de crescimento social são algumas das causas mais citadas.

Segundo o consultor da Unesco no Brasil Fábio Mura, existe um conflito entre o controle tradicional exercido pelas famílias e as aspirações dos jovens indígenas. "Diante de tantas contestações, muitos deles têm caminhado para tentativas ou concretizações de atos suicidas, explicou Mura.

Como a cultura indígena associa o suicídio a agentes externos, Mura também considera necessária uma preocupação com a purificação espiritual do ambiente após um suicídio. Caso contrário, outras pessoas da família podem ser influenciadas. O trabalho seria feito por rezadores especializados, com legitimidade reconhecida pelos índios.

O alto consumo de álcool nas aldeias, aponta o consultor, pode promover efeitos distintos sobre a intenção dos índios em se suicidar. Tanto pode inibir e adiar um ato ou servir para dar a coragem necessária para concretizá-lo, analisou Mura.

Outro aspecto que agrava as tensões é a forte restrição territorial das reservas de Mato Grosso do Sul, que provoca concentração das populações indígenas na região. "Na Reserva de Dourados, por exemplo, com 3.560 hectares, vivem aproximadamente 11 mil indígenas. Do ponto de vista tradicional, uma comunidade de 200 índios aliados entre si deveria viver em um espaço de dez mil hectares", disse Fábio Mura.

O psicólogo da Funasa Walter Martins, que nasceu em uma aldeia Kaiowá e atende cinco comunidades indígenas no Mato Grosso do Sul, compara a reserva atual a uma grande favela. Com a experiência de quem já teve três primas adolescentes que se suicidaram, ele considera a falta investimentos sociais na comunidade, voltados especialmente para a formação dos jovens, um fator que estimula os suicídios.

Martins defende a adoção de projetos de preparação profissional nas aldeias. Os jovens não tem a expectativa de um futuro melhor. Meus amigos dizem que não conseguem nada na cidade porque não puderam estudar na aldeia. Eles se vêem num beco sem saída, afirmou.

Para Fábio Mura, da Unesco, os programas de saúde mental para indígenas a serem desenvolvidos pelo Governo Federal devem fortalecer o caráter multidisciplinar das equipes, com a presença de médicos, enfermeiros, curandeiros e rezadores. É preciso vencer o preconceito ocidental e a desconfiança indígena, com métodos interligados aceitáveis por ambas as partes, defendeu Mura.

Segundo a Funasa, a população indígena brasileira é estimada em mais de 400 mil pessoas, que pertencem a cerca de 215 povos e falam 180 línguas identificadas.

Suicídio pode ser combatido com respeito às culturas locais 

O Poder Público precisa adotar políticas de saúde indígena mais adequadas às culturas diferenciadas de cada comunidade para combater o suicídio entre os índios. A avaliação é da antropóloga Regina Erthal, consultora da Organização das Nações Unidas para a Educação, Ciência e Cultura (Unesco

O suicídio entre os índios deve ser visto de maneira mais cuidadosa. Hoje temos equipes da Funasa com grande rotatividade de pessoal e sem formação necessária para enfrentar a complexidade do problema, avaliou Erthal. Durante o seminário, ela apresentou um levantamento sobre o suicídio nas aldeias do Alto Rio Solimões, no Amazonas, que comprovou que o problema atinge principalmente os jovens.

Segundo a antropóloga, 103 índios da comunidade Tikuna, no Alto Rio Solimões, suicidaram-se entre 2000 e 2005. Desse total, 54 (mais de 50%) tinham entre 15 e 19 anos. Na região, próxima à fronteira do Brasil com o Peru e a Colômbia, vivem cerca de 28 mil índios em 143 aldeias espalhadas por 214 mil quilômetros quadrados. As principais terras indígenas foram demarcadas a partir de 1993.

De acordo com Erthal, os suicídios na região devem-se a conflitos familiares e às diferenças políticas na comunidade. Fatores econômicos e a escassez de recursos naturais também contribuem para intensificar problema. O quadro é agravado ainda pela depredação da floresta e pelas disputas de terras, disse Erthal. Para ela, a fiscalização mais rigorosa contra a exploração ilegal de madeira e de minérios também representa um meio de reduzir os índices.

O coordenador do programa de saúde mental da Fundação Nacional de Saúde (Funasa), Carlos Coloma, admitiu que a burocracia governamental dificulta algumas ações necessárias. Ele, no entanto, garantiu haver disposição para enfrentar a questão. Estamos agindo para identificar as causas e adotar soluções amplas, pois é preciso evitar o risco do problema do suicídio se tornar incontrolável em outras etnias, afirmou Coloma.

Da redação com informações Agência Brasil