Opinião

A doutora Aracy aborda, neste e nos artigos anteriores, temas importantes que envolvem a atividade médica, sempre com a marca da seriedade, da competência e da coragem de falar o que é preciso (HR)

Centros de pesquisa em todo o mundo têm desenvolvido métodos de tratamento que permitem alcançar altos índices de cura dos tumores em adultos e crianças. Médicos brasileiros têm-se destacado na comunidade científica internacional pelos excelentes resultados das vacinas contra o melanoma e outros tumores malignos. Diversos hospitais públicos do País oferecem aos pacientes atendimento gratuito e de ótima qualidade, tanto para consultas e exames quanto para a realização de cirurgias, quimioterapia e radioterapia para o câncer.

Todavia existe um grande descompasso entre o progresso da ciência, noticiado diariamente pela imprensa, e a conscientização da nossa população quanto à importância de prevenir e diagnosticar precocemente o câncer. Em pleno século 21, uma legião de brasileiros sequer aceita falar abertamente sobre o assunto. Vítimas do preconceito, muitos apenas sussurram, referindo-se aos tumores malignos como "doença ruim" ou "coisa grave".

Ter acesso à informação sobre as descobertas científicas realmente não é o bastante para evitar o câncer ou outras doenças. É necessário mudar o estilo de vida e incorporar hábitos saudáveis. Mas, infelizmente, isso não tem acontecido por aqui com a frequência desejável.

Numa pesquisa efetuada pelo Instituto Nacional do Câncer (INCA) em 17 capitais e no Distrito Federal entre 2002 e 2005, foram encontrados dados alarmantes. Em São Luís, 12,7% das pessoas entrevistadas tomavam diariamente grande quantidade de bebida alcoólica, capaz de aumentar o risco de câncer de boca, laringe, esôfago e estômago. Em Porto Alegre, 13% dos adolescentes e adultos fumantes consumiam um maço de cigarros ou mais por dia, ficando altamente suscetíveis ao câncer de boca, pulmão, laringe, estômago e bexiga. Também os hábitos alimentares, que podem influenciar o surgimento do câncer do aparelho digestivo, foram analisados pelos pesquisadores. Constatou-se que 30,8% dos entrevistados em Recife e 49,3% em Campo Grande não costumavam retirar a gordura visível das carnes vermelhas antes de comê-las. Pior: no Rio de Janeiro, 33,5% dos entrevistados estavam acima do peso ideal e 12,9% eram obesos.

Chama a atenção a falta da rotina de exames para prevenção de tumores no nosso País. Segundo o Painel de Indicadores do SUS, até 2006 por volta de 34% das brasileiras acima de 40 anos não haviam feito regularmente o exame clínico para prevenção do câncer de mama, com índices críticos em alguns Estados: 62% das maranhenses e alagoanas jamais tiveram as mamas examinadas por um médico. Perfil semelhante foi observado em relação à mamografia: 49,7% das brasileiras nunca haviam se submetido ao exame. Tocantins, Maranhão e Paraíba superaram a média nacional: deixaram 74% das mulheres em idade de risco para câncer de mama à margem deste método diagnóstico. Observou-se, ainda, que 61,8% das maranhenses e 54,2% das alagoanas com 25 anos de idade ou mais nunca haviam realizado a prevenção do câncer uterino.

Mesmo no Estado mais rico da Federação o panorama ainda está longe do ideal. Levantamento da Fundação SEADE feito em 2006 revelou que 12,7% dos habitantes da região metropolitana de São Paulo nunca haviam ido ao dentista, e outros 26,1% tinham feito a última consulta odontológica há três anos ou mais. Isso dificulta muito a identificação das lesões suspeitas de câncer de boca nessas pessoas.

Se, de um lado, há falhas na detecção precoce do câncer porque muita gente não procura o médico ou cirurgião dentista por medo ou falta de informação adequada, de outro também há deficiências graves na própria estrutura das redes pública e privada de saúde. Para chegar a um centro de referência no tratamento do câncer é preciso antes passar pelo atendimento dos postos de saúde ou clínicas que prestam serviços aos convênios médicos. Aí começa a aflição de muitos cidadãos.

Quem depende exclusivamente do SUS enfrenta a rotina de filas para agendar consultas e exames com especialistas nos postos de saúde. No Estado de São Paulo, por exemplo, cerca de 18,4% dos pacientes aguardam entre um e dois meses por um atendimento, enquanto 3,7% esperam durante 3 a 5 meses. Na região de Registro, justamente uma das mais carentes do Estado, o porcentual de pessoas que aguardam 3 meses ou mais pela consulta é também o maior. Quando finalmente chega a data do atendimento, pode vir a decepção com os aparelhos médicos quebrados ou a falta de material cirúrgico para realização de biópsias dos tumores.

Diante disso, os contribuintes não têm outro caminho a não ser apelar aos políticos locais para conseguir algum alívio para seu problema, o que geralmente se resume ao transporte em ambulância até o hospital de uma cidade maior. Aliás, o principal investimento no setor de Saúde em milhares de municípios brasileiros não é a melhoria da qualidade da rede pública local, mas sim a compra de ambulâncias, vans e micro-ônibus para despejar os doentes em outras cidades. Algumas administrações públicas de saúde viraram meras agências de turismo mórbido.

Já os brasileiros que têm planos privados de saúde fazem contorcionismo para acomodar as mensalidades dos planos no seu orçamento, porém têm o desgosto de sofrer discriminação pelos próprios serviços contratados. Se é consulta particular, há vaga para agora; se é de convênio, só para daqui a um mês. Também é frequente a negativa para autorização de exames caros e cirurgias complexas relacionadas ao câncer. Isso é particularmente comum para quem assinou contrato com as operadoras antes de 1999, muitas vezes obrigando os usuários a recorrerem às ações na Justiça para ter direito ao atendimento.

Em meio a tudo isso, o Instituto Nacional de Câncer (INCA) estima que em 2008 tenham sido registrados mais de 67.000 casos novos de câncer entre os homens e 66.000 entre as mulheres em todo o Brasil. Para reverter essa situação é urgente que as autoridades e os profissionais de saúde ampliem e facilitem o acesso dos cidadãos aos serviços de prevenção e tratamento do câncer. A população também tem a responsabilidade de pôr em prática as recomendações para evitar o aparecimento dos tumores. Sem medo e com muito amor à vida.

 

Aracy P. S. Balbani

Médica otorrinolaringologista. CRM-SP 81.725.

Por: Aracy P. S. Balbani

Tags: Câncer, Opinião, Otorrinolaringologia