Esporte

Foto: Divulgação

Desinteresse pelos estudos, baixo rendimento na escola, e, por tabela, a um passo do envolvimento com as drogas. Eles tinham todas as condições para não darem certo, mas a vida mostrou o contrário. Nikolas Matheus Neto Guerra, 16 anos, natural de Palmas, hoje integrante do Jabaquara (time do Pelé), em São Paulo; e Cosme da Silva Sousa, 13 anos, morador no Setor Irmã Dulce, sul da Capital, são alguns exemplos do que o esporte pode fazer na vida de uma pessoa. Por trás da história de cada um desses meninos está o projeto de inclusão social “Escolinha de Futebol do 1º BPM”, da Polícia Militar do Tocantins. Foi lá onde tudo começou.

“Na escola ele dava muito trabalho e eu sempre era chamada pela direção. Ele não gostava muito de estudar. Foi depois do projeto da Escolinha que a vida dele começou a mudar. Parabenizo o projeto pela sua importância e também por tirar tantas crianças do mundo das drogas”, diz Maria Aparecida Neto, 34 anos, mãe de Nikolas, moradora do Setor Taquari, em Palmas.

Por telefone, de São Paulo, o próprio Nikolas confirma a versão da mãe, mas diz que hoje tudo está diferente. “Depois que eu entrei para a Escolinha aprendi a ter mais responsabilidade, respeito, educação. O projeto me afastou do mundo das drogas.

Quero ser jogador profissional, ajudar minha família e fazer também uma faculdade”, diz o adolescente, que saiu de casa aos 13 anos rumo ao seu sonho, em São Paulo. Passou um ano no Santos e há dois integra a equipe do Jabaquara. Na Escolinha do 1º BPM foram 4 anos. “Foi difícil sair de casa, a maior barreira é a saudade, o mais difícil é isso, mas a gente tem que lutar pelos nossos sonhos”, desabafa Nikolas, atacante na categoria juvenil sub-17, hoje no 1º ano do ensino médio e que tem Ronaldinho Gaúcho como ídolo.

O outro garoto, o meia atacante Cosme da Silva Sousa, está há 4 anos na Escolinha do 1º BPM. A história dele, com as exceções à parte, é bem parecida com a do Nikolas. “Bagunceiro na escola”, como ele mesmo diz, Cosme fala que depois do futebol a coisa começou a mudar. “Depois da Escolinha a minha vida foi mudando, eu fui me interessando mais pelos estudos; aqui (no projeto) os professores dão ótimas aulas, a gente faz novas amizades e eu gosto muito”, comenta o garoto, estudante do 7º ano da rede estadual em Palmas.

Mas a grande virada na vida de Cosme pode estar mais próxima do que ele imagina. Se for aprovado na última etapa de avaliação, marcada para dezembro deste ano, ele pode ir de malas prontas para o Centro de Treinamento do São Paulo Futebol Clube, em São Paulo. Sobre as expectativas do último teste ele é direto: “vou chegar lá e fazer o que eu sei, que é jogar”, diz. Sobre sair de casa tão cedo, ele mostra-se tranquilo. “A saudade vai bater muito forte, mas a gente vai ter que superar”, adianta.

O projeto

O projeto foi fundado em fevereiro de 2005, com 28 alunos. Hoje são mais de 400 crianças e jovens atendidos, entre cinco e 17 anos, tanto na sede do 1º BPM (com futebol de campo) quanto na 906 sul, com futsal. A coordenação fica por conta do 1º sargento Manoel Messias Luiz Tavares, um dos fundadores da Escolinha. Assistente Social por formação e pós-graduado em Saúde Pública, ele fala do projeto com paixão. “Apesar de todas as dificuldades, temos tido resultados muito positivos. Temos exemplos de jovens com problemas familiares, uso de drogas, de mau comportamento e rendimento na escola; e o nosso trabalho é mostrar para essas crianças e jovens que o caminho pode ser diferente. Nosso trabalho não tem o objetivo de formar craques, mas de formar cidadãos”, ressalta o sargento Messias. Além dele, o projeto conta com três professores militares.

Para participar

Não existe um período definido no ano para receber novos alunos. O projeto está aberto aos interessados o ano inteiro. As inscrições são gratuitas, o aluno não paga mensalidades, apenas compra o seu uniforme, ao custo de R$ 35,00. Os pais ou responsáveis interessados devem procurar a sede do 1º BPM em Palmas (telefone: (63) 3218-2746), com os seguintes documentos do futuro aluno: cópia da Carteira de Identidade ou da Certidão de Nascimento; Declaração emitida pela escola comprovando a matrícula e frequência; Comprovante de Residência, Atestado Médico comprovando que o aluno está apto às atividades e uma foto 3x4.

As aulas têm duração de 1 hora e meia, acontecem às segundas e quartas-feiras (da categoria sub-8 à sub-13), e às terças e quintas-feiras (da sub-14 à sub-17), pela manhã e tarde. Detalhe: o projeto não atende a meninas. Questionado sobre essa “exclusividade masculina”, o sargento Messias diz que isso faz parte da história e do desenvolvimento do próprio projeto. Em 2007, foi criada a Associação Desportiva Theotônio Segurado (ASDETS) para facilitar parcerias e conseguir recursos para manutenção do Escolinha. A PMTO apoia o projeto nas competições dentro e fora do Estado.

“A Polícia Militar tem um grande orgulho em desenvolver esse projeto, que vem mudando, ao longo dos últimos anos, a vida de muitas crianças e jovens tocantinenses. Eu sempre ressalto que a educação é o melhor caminho a trilhar, e o esporte, a disciplina, são fundamentais no processo de formação desses meninos. Estão todos de parabéns”, diz o comandante geral da PMTO, coronel Marielton Francisco dos Santos.

Uma parceira considerada importante pela coordenação do projeto é a A.W.ELLER (Assessoria Esportiva de Caça Talentos de Futebol), de Minas Gerais. A empresa prepara talentos para times profissionais no Brasil. Atualmente, o projeto tocantinense tem cerca de 14 de seus atletas atuando em Araguari (MG). A parceria com a empresa mineira foi feita em dezembro de 2010.

O projeto já encaminhou vários jogadores para times de futebol do cenário nacional, a exemplo do São Paulo, Atlético Mineiro; dois se apresentarão em breve, segundo o sargento Messias, ao Ceará, em Fortaleza; e outro que acaba de ser aprovado para o Goiás, com partida marcada já para agosto próximo.

No último sábado, 28 de maio, a Escolinha de Futebol do 1º BPM foi a grande campeã da 1ª Copa de Base de Futebol Sete Society de Palmas. O projeto esteve presente com as categorias sub-8, sub-10, sub-12, sub-14 e sub-16, todas disputando a final da competição. Foi campeão nas categorias sub-08, sub-14 e sub-16; e vice-campeão na sub-10 e sub-12. Já no último mês de abril, as categorias sub-13 e sub-16 foram campeãs da Copa Interestadual Tocantins Araguaia de Categoria de Base, realizada em Araguaína.

As histórias de vida do Cosme e do Nikolas podem ser vistas como reflexo do enredo de um projeto que sobrevive, principalmente, da força dos sonhos de seus seguidores. Centenas de meninos que, se não se tornarem craques, ou mesmo destaques em clubes de futebol, serão – como acreditam os idealizadores e quem passa a conhecer o projeto – cidadãos prontos para as jogadas que a vida reserva para cada um deles.

Fonte: Ascom PM