Opinião

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A geometria da política desenha quadros tão fantásticos que desafiam a explicação dos melhores artistas. E é claro, arte, não tem explicação. Na contramão da lógica, as retas ilusoriamente infinitas, não passam de linhas breves. Por sua vez, os traçados mais longos, são como ondas, turbulentamente curvas. A dinâmica das ondas e a trajetória política de homens públicos são semelhantes. Num instante se é crista, no outro, arrebentação.

A cada quatro anos, o sol nasce e se põe com políticos cumprindo um ritual de descida rumo à planície, na expectativa do que lhes reserva o futuro, enquanto outros, conduzidos pela vontade do povo, ou sub judice (por força de liminar), assinam o termo de posse. Mais que uma assinatura, a tinta que se esvai sobre o papel é um ritual de esperança para a população e, ao mesmo tempo, um esboço dos primeiros traços de um novo quadro que daqui a quatro anos, será avaliado por olhares, severamente mais críticos. É o eleitor atento, em constante evolução.

Entre os prefeitos que agora tomam posse, um dos exemplos emblemáticos, é o de Moisés Avelino, que há 30 anos teve como seu ponto de partida, a Prefeitura Municipal de Paraíso do Tocantins. Depois de percorrer retas e curvas, por todo esse tempo e completar um círculo e retornar ao ponto de onde partiu, a dinâmica da política diz para ele que nada será como antes, quando conquistou o título de 4º melhor Prefeito do Brasil.

Há 30 anos, a internet e a telefonia móvel eram sonhos tão distantes quanto ainda o é, o teletransporte. Ainda não havia sido instituída a reeleição, não se falava em Lei de Responsabilidade Fiscal, nem havia o Sistema de Gestão de Convênios e Contratos de Repasse (Siconv), propiciando uma administração pública austera e mais moderna.

Muitos avanços alcançados há menos de dez anos, ao exemplo da Súmula Vinculante nº. 13 (contra o nepotismo), recentemente editada pelo Supremo Tribunal Federal, não é à toa. É resultado da evolução de uma sociedade cansada de políticos mal intencionados e despreparados. A Lei da Ficha Limpa, que tanto incomoda gestores acostumados à impunidade, reflete o nível de consciência de um povo, quanto ao seu real poder e capacidade de indignação.

Entretanto, nem mesmo a existência de ferramentas de fiscalização, como o Portal da Transparência que tenta inibir o apetite voraz de corruptos e corruptores insistentes na malversação do dinheiro público e no enriquecimento ilícito, é capaz de barrar a violação do dever ético, denominado de corrupção.

Na última eleição, por exemplo, uma promotora de justiça deu voz de prisão a candidato suspeito de comprar votos, em Palmeiras do Tocantins, e mesmo sub judice este, foi empossado.

Se na contramão dessa prática, Avelino resistiu a todo um contexto de exigências e prevaleceu na preferência popular, algo prediz que as práticas adotadas por ele, foram coerentes com a vontade popular, e estavam à frente de seu tempo, 30 anos atrás; que o espírito de renúncia o consagrou, depois de tantas retas e curvas, até completar o círculo que o recomenda recomeçar os traçados do próprio quadro, do mesmo ponto de partida.

Naturalmente que, em se tratando de política, o quadro que se pinta agora, não difere tanto dos quadros do passado. A aquarela tem nuances que vão do reconhecimento às múltiplas traições. Mas essa, é outra história que nesse recomeço, não parece assustar o artista que já estabeleceu como desafio, “mostrar ao povo que é possível fazer mais, com o pouco que se tem”, usando como receita, “critério, planejamento, seriedade e transparência”.

Tenham todos os artífices desse novo quadro, uma ótima inspiração, lembrando que, ao final de quatro anos, a obra será julgada, por ampla contemplação. Aliás, nem precisa ser um quadro, já que os primeiros rabiscos são escritos em um livro. Basta a lembrança de todos, que esse livro será lido, hoje, amanhã e depois.

*Gilvan Nolêto é jornalista, perito da Polícia Técnico-Científica, Especialista em Polícia Comunitária e natural de Tocantinópolis. gilvannoleto@yahoo.com.br Twitter: @gilvannoleto