Opinião

Foto: Divulgação O escritor Célio Pezza, 64 anos, iniciou a carreira de escritor em 1999 O escritor Célio Pezza, 64 anos, iniciou a carreira de escritor em 1999

Nos artigos anteriores vimos o mal como algo que acompanha o ser humano desde o seu nascimento. Para entender um pouco os motivos da origem do mal, temos que entrar em teologia e filosofia e vamos começar pelo Paradoxo de Epicuro, filósofo ateniense que viveu há 300 anos A.C. Ele dizia o seguinte: “Se Deus fosse onipotente, onisciente e bom, então o Mal não existiria, pois para Deus e o Mal existirem, é necessário que Deus não tenha uma destas características, ou seja: Se Deus quer impedir o mal e não pode, é impotente; se pode impedir o mal e não quer, então é cruel; se pode e quer impedir o mal, mas não sabe como fazê-lo, então não é onisciente; neste caso, continua a questão de onde então provém o Mal?”

Não faltaram argumentos religiosos a este paradoxo, entre eles o de afirmar que os desígnios de Deus são inquestionáveis, e que o sofrimento e a dor seriam necessários para que o homem ao final ascendesse aos céus. Outros usaram as figuras de que o mal não existe. Ele seria somente a ausência do bem, assim como a escuridão é a ausência da luz, ou o frio é a ausência do calor. O grande problema é que o homem está analisando um assunto muito profundo sob a ótica humana e com pouco conhecimento. É uma tarefa inútil. Melhor seria reconhecer que o mal existe, pois sem ele o bem não existiria. Existe a dualidade em tudo que conhecemos e uma coisa não vive sem a outra. Na própria bíblia, existe um trecho citado em Isaías, 45-7, onde está escrito: “Eu formo a luz, e crio as trevas; faço a paz, e crio o mal; Eu, o Senhor, faço todas estas cousas.”

Continuando, uma teoria mais plausível diz que o mal não está oculto. Ele existe e é algo natural. Temos que entender isto quer sejamos crentes ou ateus. A partir daí, vamos entender que todos nós temos responsabilidades pela disseminação da maldade no mundo. Isto é uma realidade. Um ser humano tem seu livre arbítrio e tomará suas decisões ao longo da vida. É fácil uma pessoa culpar as outras pela maldade, mas difícil é essa mesma pessoa olhar para si e analisar a contribuição que deu para os homens se tornarem maus. A lei do Talião de “olho por olho, dente por dente” é a representação institucional do princípio reativo.

Está tão arraigada na humanidade que é quase impossível escapar dela. A única forma de se acabar com um conflito é deixá-lo de lado. Esquecer e perdoar na verdadeira acepção da palavra. Daí a importância de um perdão pleno, incondicional e irrestrito. É a lei do Amor, contrário a lei do Talião. Esta é a lei que propõe uma mudança radical no comportamento humano. Ela não funciona de fora para dentro e sim de dentro para fora. É por isso que o Direito nunca vai promover a paz na sociedade. Somente a Ética, de dentro para fora é que pode funcionar.

Nesta nova fase da humanidade, a Ética passa a ser muito mais importante. O caminho para a paz começa com um pequeno passo na direção do perdão ou, no mínimo, da não vingança. É uma prova de inteligência. É um exercício ético que permite trazer paz e harmonia para a sociedade. O primeiro passo na arte de viver é criar uma linha de demarcação entre a ignorância e o conhecimento. O primeiro princípio a ser trazido de volta é a inocência. 

Abandone o seu conhecimento, esqueça suas crenças e nasça novamente. Volte a ser uma criança, volte a ser inocente. Isto é totalmente diferente de ser ignorante. Infelizmente, no mundo atual, a inocência é confundida com ignorância. Caminhemos juntos, pois é inevitável. Neste momento, estamos todos em um único mundo e, juntos, somos uma rede fantástica de interconexões. Somente com uma mudança de consciência, vamos resgatar a percepção de que somos um só corpo vivo e que da nossa cooperação amistosa e justa, todos poderão viver dignamente.

Não há um inimigo! Devemos perceber que somos o Bem e o Mal, a Luz e a Sombra em todo seu potencial. Precisamos conhecer os maiores venenos do mundo: ignorância, medo, raiva e ganância. Ignorância quando sem conhecer, nos deixamos guiar por outros e mesmo quando não cremos, fingimos crer por conveniência ou medo. Temos medo do que não conhecemos. Temos medo da morte, medo de pecar, medo de decidir por nós mesmos. O medo está ligado à ignorância.  Também a raiva está ligada a ignorância, pois quando entendemos um pouco mais sobre toda esta interligação, ela diminui. 

Quanto à ganância, ela nos remete a constantes conflitos. O dinheiro, que era para ser um meio aperfeiçoado de trocas, se transformou num objetivo único e passou a ser um fim. O mal não é o dinheiro em si, mas o amor e a obsessão ao dinheiro, com todas as suas implicações. Se a paz não começar dentro de mim, não começará; se eu não ouvir os gritos dos inocentes, esta matança nunca diminuirá; se eu não buscar o conhecimento, continuarei na ignorância; se eu não ouvir a minha voz interior, continuarei surdo, por mais que ouça as vozes alheias. Existem momentos críticos que são propícios a uma mudança de consciência. Nós estamos vivendo um destes momentos e agora é hora do despertar da humanidade. Volto a dizer: Não há um inimigo. Não se iludam. Não há. Vamos escutar o grito dos inocentes e nos preparar para entrar em outro mundo, uma Nova Terra com mais conhecimento e paz. 

Célio Pezza é colunista, escritor e autor de diversos livros, entre eles: As Sete Portas, Ariane, A Palavra Perdida e o seu mais recente A Tumba do Apóstolo. Saiba mais em www.facebook.com/celio.pezza.

Clique aqui para conferir O grito dos inocentes Parte I, Parte II e Parte III. 

Por: Célio Pezza

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