Opinião

Foto: Paula Neiva Matéria sobre a morte de Lily Marinho foi previamente realizada, aguardando apenas o anúncio oficial Matéria sobre a morte de Lily Marinho foi previamente realizada, aguardando apenas o anúncio oficial

Outro dia me ligou um jovem repórter de um conceituado jornal carioca pedindo uma declaração sobre a vida e a obra de uma grande amiga atriz, internada para uma pequena cirurgia no quadril. Me assustei por imediato, pensando tê-la perdido. Havia falado com ela na noite anterior, já internada para realização do procedimento cirúrgico e passava bem. O jornalista pediu desculpas e me informou que tratava-se de um procedimento padrão quando personas e celebridades são hospitalizadas, afinal, “nós temos de estar sempre preparados para qualquer notícia”, disse ele. É mole?!

Essa prática funesta ficou evidente nesta semana por ocasião do falecimento de Lily Marinho, viúva do empresário carioca e criador das Organizações Globo, Roberto Marinho. Segundo boletim oficial da Clínica São Vicente, Lily faleceu às 20 horas e 05 minutos da última quarta-feira, 05 de janeiro de 2011. Minutos depois, entrava no ar o Jornal Nacional, comunicando a morte e já com uma matéria pronta sobre a trajetória da socialite. Dentre outras coisas, uma tomada da renomada jornalista Sandra Moreyra dando o texto na praia de Copacabana, céu azul, sol forte e areia lotada a servir-lhe de cenário. Considerando que a quarta-feira foi chuvosa aqui no Rio de Janeiro e que dona Lily veio a óbito depois das 8 da noite, fica claro que tratava-se de matéria agoura e previamente realizada, aguardando só o anúncio da morte da socialite para colocá-la no ar.

É até compreensível que as grandes emissoras do país, dado o franco embate pela liderança na audiência medida pelo Ibope e a velocidade da comunicação horizontal na era digital, tenham a necessidade de ter material jornalístico concluído – ou quase – a ser levado ao ar quando o fato se consuma. No entanto, quando se trata da morte de alguém, tal medida é, no mínimo, deselegante. Isso para não dizer ofensiva e carregada de mau agouro.

Só para termos a dimensão do efeito desse tipo de prática macabra, o que deve passar pela cabeça do ex-vice-presidente José Alencar, internado desde o dia 22 de dezembro, lutando bravamente pela vida após sua 17ª cirurgia? É certo que a maioria absoluta dos veículos de comunicação já tem vasto material jornalístico e biográfico sobre o político e empresário só aguardando o momento de seu último suspiro. O mesmo acontece com o humorista Chico Anysio, que desde 02 de dezembro encontra-se internado na UTI do Hospital Samaritano após uma gravíssima hemorragia pulmonar. Será que o homem que nos ensinou a gargalhar com sua infinita criatividade está achando alguma graça em saber que no forno dos telejornais já existem reportagens fúnebres sobre sua vida e obra?

Pode parecer simples, mas essa é uma discussão profunda sobre ética e profissionalismo nos meios de comunicação. É mais que justa a homenagem póstuma às figuras que desfilaram por nossa história recente e que, ao seu tempo e circunstância, deram seu trabalho e suas contribuições, como no caso de dona Lily Marinho. No entanto, é necessário buscar um ponto de equilíbrio, menos ofensivo aos moribundos e seus familiares e com um pouco mais de respeito à inteligência e a percepção do público consumidor de notícias, cada dia mais atento aos pequenos detalhes que ilustram o famigerado padrão de qualidade.

Quanto ao jornalista que me pediu uma declaração sobre minha amiga adoentada, limitei-me a dizer o seguinte: “Dizem que os artistas faturam mais depois que morrem do que em vida. Espero que ela receba um bom aumento de salário após essa espera sôfrega por seu falecimento!” Ora, o que ele esperava que eu dissesse? O clássico “foi uma perda irreparável para a arte no Brasil”? E o que eu diria à minha amiga ao visitá-la no hospital? “Olha, dei uma declaração emocionada sobre sua morte e espero que não fique chateada”? Fala sério, né?! Será que vale tudo pela audiência? Será que a exploração do Ibope da morte não deveria ficar restrito às tramas novelísticas que vivem matando Totós e Dianas para ganhar uns pontinhos a mais? Ou podemos dizer que Freud já explicou tudo e que o povo gosta mesmo é de ver sangue e lágrimas?

Helder Caldeira

Escritor, Colunista Político, Palestrante e Conferencista

www.magnumpalestras.com.brheldercaldeira@estadao.com.br