Estado

Foto: Divulgação

O Instituto Tocantinense Presidente Antônio Carlos (Itpac) de Porto Nacional deve abrir processo administrativo para apurar possível ato agressivo praticado por estudante de medicina da unidade, contra professoras e militantes do Movimento dos Trabalhadores Rurais Sem Terra (MST/Tocantins), em palestra no último dia 23, nas dependências da instituição. 

De acordo com o MST, realizava-se à noite um evento feminista na unidade, promovido pela Universidade Federal do Tocantins (UFT), organizado e coordenado pela professora Gleys Ially Ramos dos Santos e no decorrer da palestra, no momento em que a liderança do MST, Zenilda Ferraz, falava sobre o tema "Resistência Camponesa, Criminalização dos Movimentos Sociais e o Papel das Mulheres na Linha de Frente", o estudante teria proferido palavrões contra toda a equipe que organizara o evento. "Uma ação que expõe claramente postura e sentimento de criminalização refletida e reproduzida no seio da sociedade conservadora de Porto Nacional, que considera a cidade e o município como propriedade privada, onde tudo deve ser conduzido de acordo com seus interesses", manifestou o MST em sua nota, na qual repudia a atitude do estudante que, segundo o movimento, foi "agressiva de preconceito e discriminação social e sexual". 

Durante a palestra, Zenilda abordou episódio em que autoridades locais teriam espancado e prendido quatro militantes do MST, no Assentamento Retiro em que o suposto pai do estudante (médico - Túlio Gomes Franco), está em demanda judicial com os Sem Terra, informou o movimento.  O MST afirma que continua na luta pelo direito à terra e contra todo e qualquer tipo de postura que enseje preconceito e criminalização contra qualquer pessoa em detrimento de raça, cor, orientação sexual, condição financeira, entre outros. 

Em entrevista ao Conexão Tocantins na manhã desta segunda-feira, 27, o diretor-presidente do Itpac, Nicolau Esteves, disse ainda não ter conhecimento do que aconteceu, mas que possivelmente será aberto um processo administrativo para apurar a responsabilidade. "De forma nenhuma a instituição vai apoiar qualquer discriminação. Se tomou atitude discriminatória, foi um fato isolado. Não admitimos nenhum tipo de discriminação e esse é o pensamento da instituição, tanto que cedeu o espaço", afirmou. 

Ainda de acordo com Nicolau Esteves, as unidades do Itpac tem ações bem independentes e que nunca foi registrado caso semelhante nas dependências das unidades. No referido caso, Nicolau disse que as pessoas tem o direito de expressar suas opiniões, mas sem ofensas. "As pessoas tem o direito de expressar sua opinião, mas não pode ser ofensivo, não admitimos. Vamos apurar direitinho e após deve ser tomado algum tipo de medida", disse.

Professora e militante

Nas redes sociais, a estudante Dandara Maria Barbosa e a professora Janaina Capistrano (Doutora em Ciências Sociais), ambas participantes da palestra na Itpac Porto, manifestaram-se sobre o que aconteceu no evento. Segundo Dandara, quase houve agressão física. "Fomos agredidas verbalmente (chegou a quase ter agressão física), com todas as palavras sexistas, classista e com expressão de ódio ao movimento de luta MST, por um estudante de medicina, faculdade particular". 

Ainda de acordo com Dandara, o estudante dizia que não aceitava um evento social que debatia mulheres no MST, por ele achar que a faculdade é particular, e o movimento só "rouba terras". "Com todos os equívocos de criminalização ao movimento. Gerou toda uma confusão e o que me deixou perplexa é ver que seus colegas de sala estavam rindo e ajudando ele na situação", disse. 

A professora Janaina também relatou o que aconteceu e, segundo ela, foram chamadas até de "vagabundas". Janaina informa que houve o pedido de identificação do estudante, para que as devidas providências fossem tomadas, no entanto, a tentativa foi sem êxito. "A professora, entretanto, nos comunicou que não tinha acesso a essa informação, com isso, e rodeado de outros homens ao fundo da sala o covarde se sentiu protegido para, mais uma vez, nos agredir nos chamando de “vagabundas” diante de todos os presentes". 

Janaina desabafou: "Serão médicos sem alma e sem compreensão das questões sociais que afligem a humanidade, parecendo não compreender que o eixo ético da medicina é a defesa da vida". 

Ao Conexão Tocantins, Dandara disse que o Itpac Porto ainda não se posicionou, mas que serão tomadas todas as medidas cabíveis.