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Opinião

Thiago Barbosa Soares é analista do discurso, escritor e professor da UFT.

Thiago Barbosa Soares é analista do discurso, escritor e professor da UFT. Foto: Divulgação

Foto: Divulgação Thiago Barbosa Soares é analista do discurso, escritor e professor da UFT. Thiago Barbosa Soares é analista do discurso, escritor e professor da UFT.

Tratar do que “aquece o coração” é sempre uma tarefa surpreendentemente difícil. O que fazer em situações nas quais a dureza requer um atenuante ou mesmo uma maneira encorajadora de lidar? Não se sabe, com certeza, como os sentimentos podem ser alterados para que o melhor que se encontra dentro possa emergir como uma força propulsora de mudança ou pelo menos uma reação positiva diante das adversidades vividas por praticamente todos. O sorriso pode ser o alento que faz a diferença.

Todavia, antes de qualquer tipo de incursão acerca do sorriso e seus benefícios, tanto para quem o dá quanto para quem o recebe, é necessário, senão pedagógico, diferenciá-lo do riso. Esse é uma expressão cômica de uma situação, de um entendimento destoante, ou seja, rir é uma ação espontânea cuja intencionalidade encontra-se desligada, ou como diriam os psicanalistas, é uma ação de origem inconsciente (que se encontra em nível distinto da consciência). Ao contrário, sorrir, por mais cultural que possa parecer, e de fato o é, pode representar uma validação extremamente significativa. Até existem, em língua portuguesa brasileira, expressões como “sorriso amarelo”, para dizer que alguém não está lá muito satisfeito com algo, “sorriso de canto de boca” (ou “de lado”), expressão sutil, irônica, desdenhosa ou maliciosa, “sorriso de orelha a orelha”, para exprimir sinceridade, que demonstra extrema felicidade ou satisfação, entre outras.

Claro, como comportamento cultural, possui suas conotações antropológicas, porém, em todas as sociedades, antigas e recentes, o sorriso sempre é uma aproximação. Justamente por ser uma aproximação, sorrir pressupõe possibilidades de intenção. Sorrir marca uma relação entre a autenticidade interior e a densidade das relações interpessoais. Nesse direcionamento, o sorriso cumpre uma variada série de papéis importantes, entre esses consta o papel do encorajamento. O sorriso que o pai ou a mãe dá ao seu bebê impulsiona a devolutiva de um sorriso tão autêntico quanto o primeiro. O sorriso que o tutor expressa ao seu pet, quando lhe considera um familiar, faz com esse demonstre, a sua maneira, um outro sorriso. Independente das variedades de tipos de sorrisos possíveis, largos ou muito mais expressivos etc., praticamente todos entendem, quase sem reflexão, o que este ato quer efetivamente dizer. 

O sorriso do bem, feito pelo herói ou por personagem com proximidade arquetípica desse, é marcante. Gandalf, de “O senhor dos anéis”, em inúmeras situações altamente desafiadoras, sorriu para seus companheiros em sinal de encorajamento. All Might, de “My hero academia”, constrói sua identidade por meio do sorriso diante das adversidades que enfrenta. Goku, de “Dragon Ball”, desde criança até sua fase adulta, exprime seu mais legítimo desejo de lutar e de ficar mais forte por meio do sorriso. Esses sorrisos não apenas configuram cenas cuja dramaticidade é levada ao grau máximo de entusiasmo, representam mais: são “armaduras” da psique dessas personagens.

A proteção fornecida pelo sorriso não apenas afeta quem o dá, quem o recebe é, em muitos casos, afetado. Ora, nada pode ser mais representativo da força tranquila, portanto, da própria necessidade humana do que o sorriso. É desnecessário dizer que o sorriso faz bem à saúde, porque sua exibição formata o ambiente. Os níveis de saúde, físico, mental e espiritual, parecem ser conjugados pelo ato de sorrir. Sorrir pode demonstrar a própria corrente vibratória interior, de maneira pujante, isto é, uma vontade materializada em um breve levantar de lábios; sorrir, como quem precisa de força ou como quem está animado, pode fazer com que quem recebe o sorriso seja revigorado; sorrir, ainda que não pareça, possui um custo significativo: ser quem é preciso ser para que outros também possam ser contagiados pelo sorriso encorajador, uma necessidade profundamente humana.

*Thiago Barbosa Soares é analista do discurso, escritor e professor da Universidade Federal do Tocantins (UFT).