A digitalização acelerada da sociedade brasileira trouxe ganhos inegáveis. Serviços ficaram mais acessíveis, informações circulam com rapidez e a comunicação se tornou instantânea. Ao mesmo tempo, esse novo ambiente criou riscos que ainda não foram plenamente assimilados pela população: o crescimento dos golpes digitais e a expansão da desinformação como fenômeno cotidiano.
Esses dois problemas caminham juntos. Golpes dependem de engano, confiança excessiva e informações distorcidas. A desinformação, por sua vez, cria o terreno ideal para que fraudes prosperem, confundindo, distraindo e enfraquecendo a capacidade crítica das pessoas. O resultado é um ambiente digital onde erros custam caro, seja financeiramente, socialmente ou emocionalmente.
Estudos recentes mostram a dimensão do problema. Pesquisas nacionais indicam que a maior parte dos brasileiros já acreditou em alguma informação falsa ao menos uma vez. Notícias enganosas sobre saúde, economia, segurança, benefícios sociais e oportunidades financeiras circulam com facilidade, especialmente em redes sociais e aplicativos de mensagem. Esse fluxo constante de conteúdo reduz a confiança geral na informação e torna mais difícil distinguir o que é verdadeiro do que é manipulado.
Ao mesmo tempo, os crimes digitais cresceram em volume e sofisticação. Golpistas exploram dados vazados, perfis falsos, mensagens personalizadas e falsas comunicações oficiais. O estelionato digital já figura entre os crimes que mais avançam no país, atingindo pessoas de todas as idades e perfis. A falsa sensação de familiaridade com o ambiente on-line, muitas vezes, substitui a cautela.
A desinformação amplia esse risco ao criar ruído permanente. Mensagens alarmistas, promessas irreais e conteúdos fora de contexto são desenhados para provocar reação rápida, não reflexão. Quando decisões são tomadas sob pressão emocional, a chance de erro aumenta. Nesse cenário, golpes deixam de parecer exceção e passam a fazer parte da rotina digital.
Os impactos vão além do prejuízo financeiro. A circulação de informações falsas afeta escolhas pessoais, compromete debates públicos, enfraquece campanhas de interesse coletivo e alimenta a desconfiança generalizada. A longo prazo, isso corrói laços sociais e dificulta a construção de consensos mínimos necessários para a vida em sociedade.
Diante desse quadro, a resposta não está apenas em tecnologia ou repressão. Organismos internacionais e especialistas apontam que a conscientização é um dos pilares centrais para enfrentar esses desafios. Educação digital, clareza na comunicação, estímulo ao pensamento crítico e fortalecimento de fontes confiáveis são medidas essenciais para reduzir vulnerabilidades.
Alguns cuidados práticos ajudam a diminuir riscos no dia a dia. Desconfiar de mensagens urgentes ou ofertas milagrosas, verificar se a informação está disponível em canais oficiais, evitar o compartilhamento automático de conteúdos e proteger dados pessoais com autenticação em duas etapas são atitudes simples, mas eficazes. No caso da desinformação, checar a fonte, observar o tom do conteúdo e buscar confirmações independentes antes de repassar informações fazem diferença real.
A sociedade brasileira vive um momento de transição digital profunda. Golpes e desinformação não são desvios pontuais, mas sintomas de um ambiente ainda em adaptação. Enfrentá-los exige responsabilidade coletiva, informação qualificada e disposição para rever hábitos.
A CNSP entende que contribuir para esse debate é parte do compromisso com o interesse público. Promover informação clara, estimular a atenção crítica e reforçar a importância da prevenção digital são ações que fortalecem a sociedade como um todo. Em um País cada vez mais conectado, consciência e cuidado se tornam ferramentas essenciais de proteção.
*Antonio Tuccilio é presidente da Confederação Nacional dos Servidores Públicos.

