O início de 2026 encontra as famílias brasileiras pressionadas por três fatores centrais: inadimplência elevada, juros ainda altos e renda que cresce abaixo das despesas obrigatórias. O cenário afeta diretamente decisões de consumo e investimento. Diante do crédito mais caro e restrito, consumidores passaram a rever planos e buscar alternativas para viabilizar projetos de médio e longo prazo.
Levantamento da Serasa aponta que mais de 71 milhões de brasileiros encerraram 2025 com algum tipo de dívida em atraso, o equivalente a cerca de 43% da população adulta. O volume de inadimplentes limita o acesso ao crédito e encarece as operações disponíveis no sistema financeiro, criando um efeito em cascata sobre o orçamento das famílias logo nos primeiros meses do ano.
Leonardo Baldez, economista e educador financeiro, avalia que esse número se consolidou como um dos principais termômetros do risco financeiro doméstico no país. “A inadimplência deixou de ser um evento pontual e passou a fazer parte da rotina de milhões de famílias. Quando quase metade da população adulta tem restrição, o impacto não é apenas individual, é estrutural”, afirma.
Juros ainda altos pressionam decisões
Ao lado da inadimplência, o custo do dinheiro segue como um fator decisivo. Mesmo com projeções do Boletim Focus indicando possibilidade de cortes graduais da Taxa Selic ao longo de 2026, o patamar de juros permanece elevado para padrões históricos.
Na prática, financiamentos imobiliários e de veículos continuam exigindo prestações longas e comprometimento relevante da renda mensal.
Baldez observa que o comportamento do consumidor mudou diante desse contexto. “O brasileiro passou a olhar com mais cautela para contratos longos indexados a juros. A percepção de risco aumentou, principalmente entre quem já teve dificuldade para honrar parcelas no passado”, explica.
Renda cresce menos que despesas
O terceiro número que entra nessa equação é a renda. Dados do IBGE mostram que, embora o rendimento médio tenha apresentado recuperação real em 2025, o avanço foi parcialmente neutralizado pela alta de gastos fixos, como moradia, educação, saúde e alimentação. O resultado é um orçamento mais apertado, com menor margem para imprevistos.
Para Leonardo, essa combinação exige mudança de estratégia. “Quando a renda não acompanha o custo de vida e o crédito está caro, insistir no modelo tradicional de financiamento aumenta o risco de desequilíbrio financeiro”, diz. Segundo ele, o planejamento passou a ser tão relevante quanto o próprio objetivo de consumo.
Consórcio ganha espaço como alternativa
É nesse ambiente que o consórcio volta ao radar das famílias. Sem cobrança de juros, mas com taxas administrativas diluídas ao longo do prazo, a modalidade tem sido vista como uma forma de proteger o orçamento contra oscilações do crédito.
Dados da Associação Brasileira de Administradoras de Consórcios (Abac) indicam crescimento no volume de cotas ativas ao longo de 2025, especialmente nos segmentos imobiliário e de veículos leves.
Na avaliação de Baldez, o consórcio se encaixa melhor em um cenário de incerteza. “Ele obriga a disciplina financeira e reduz a exposição aos juros. Para quem consegue planejar e não depende da aquisição imediata, funciona como um instrumento de proteção patrimonial”, afirma.
Planejamento como resposta ao cenário
Com inadimplência elevada, juros ainda restritivos e renda pressionada, 2026 deve consolidar um perfil de consumidor mais cauteloso e estratégico. A decisão entre financiar ou esperar passa a considerar não apenas o desejo de compra, mas o impacto no orçamento ao longo dos anos.
“Não é um ano para decisões impulsivas. É um período em que planejamento e previsibilidade fazem diferença”, conclui Baldez. Segundo ele, modalidades como o consórcio não são solução universal, mas ganham relevância em um ambiente em que proteger a renda e reduzir riscos se tornaram prioridades centrais para as famílias brasileiras.
Sobre Leonardo Baldez:
Leonardo Baldez Augusto é economista, educador financeiro e consultor empresarial. Formado pela Universidade Federal de Uberlândia (UFU) e pós-graduado em Finanças e Estratégias Empresariais pela Faculdade de Gestão e Negócios (FAGEN) da UFU. Com uma trajetória marcada pelo perfil empreendedor, atua transformando estratégias financeiras em resultados através de consultoria empresarial especializada e educação financeira
Coordenou o programa de assessoria de crédito da Fiemg (Federação das Indústrias do Estado de Minas Gerais) até 2009, sendo durante todos os anos consecutivos o maior resultado de aprovação e liberação do Estado de Minas Gerais.
Foi responsável pelo posto avançado do BDMG (Banco de Desenvolvimento de Minas Gerais), BNDES (Banco Nacional de Desenvolvimento Econômico e Social), Finep (Financiadora de Estudos e Projetos do Governo Federal), criador do programa de crédito orientado em parceria com o Banco do Brasil (Sala Ouro) e da Caixa Econômica Federal (Sala Azul).
Com sete anos de experiência na assessoria de crédito orientando a milhares de empreendedores, fundou em 2009 o ISF Crédito Orientado (Instituto de Solução Financeira), uma entidade nacional de orientação de crédito a micro, pequenas e médias empresas.
