No Brasil de hoje, o “teto de vidro” nunca foi tão visível. A expressão, que traduz tanto a barreira invisível quanto a fragilidade de quem já chegou ao topo, se aplica com perfeição ao momento político e institucional. Autoridades que se apresentam como guardiãs da moralidade, da democracia e da ordem jurídica têm sido alvo de críticas por decisões seletivas, mudanças de entendimento conforme o caso e proximidade excessiva com o poder político e econômico.
Seria um erro imaginar que essa fragilidade é exclusividade do topo do Judiciário, do Executivo, do Legislativo, ou de quem mais quer que seja. Nas empresas e nos relacionamentos o fenômeno se repete em escala diferente, mas com lógica semelhante.
Há empresários e gestores que discursam sobre ética e meritocracia, mas sonegam impostos, exploram funcionários ou favorecem amigos em contratos. O pequeno comerciante que reclama da corrupção em Brasília, mas vende sem nota fiscal para “escapar do imposto”, também vive sob um teto de vidro. A incoerência não é monopólio dos poderosos.
No mercado financeiro, o fenômeno adota outra aparência, mas mantém a mesma lógica. Instituições que se apresentam como modelos de governança e ética vez ou outra estão envolvidas em escândalos de manipulação de taxas de juros, uso de informações privilegiadas e falsificação de balanços para inflar os resultados.
Nos relacionamentos pessoais, o cenário é parecido. Pessoas que exigem lealdade absoluta dos parceiros mantêm conversas escondidas, flertes em redes sociais, segredos no celular... roubam... furtam. Pais que cobram honestidade dos filhos mentem dentro de casa, escondem gastos, traem confiança.
Assim, tudo parece sólido até o momento em que ocorre um desentendimento “contratual” ou uma única descoberta, seja ela uma mensagem, um print, um áudio, isso torna suficiente para estilhaçar o teto da confiança.
A diferença entre quem ocupa o topo das instituições e o cidadão comum não está na ausência de falhas, mas no tamanho do estrago quando o vidro se quebra. No primeiro caso, o dano é institucional, pois abala a confiança na justiça, na política, na economia e na própria democracia. No segundo, o dano é pessoal, vez que destrói relações, famílias, negócios, reputações. Em ambos, porém, a origem costuma ser a mesma. Qual? O abismo entre o discurso e a prática.
O nosso Brasil virou um país em que todos apontam o teto de vidro alheio, mas quase ninguém olha para seu próprio umbigo. Ou melhor, para o próprio teto. Criticar excessos das cúpulas dos poderes e das instituições é legítimo, necessário e saudável para a sociedade. Mas a crítica perde força quando vem de quem, na vida cotidiana, também faz da incoerência um hábito.
Talvez o passo mais importante não seja negar que temos teto de vidro, e sim reconhecer isso. Assumir nossas fragilidades, agir com mais transparência e coerência e entender que, em um país revestido de vidro onde alguns se escondem atrás da bíblia, quem vive atirando pedras cedo ou tarde será “castigado” ou vai se cortar.
Que atire a primeira pedra quem tem teto de tungstênio!
*Claiton Cavalcante é contador, membro da Academia Mato-Grossense de Ciências Contábeis e membro do Instituto dos Contadores do Brasil

