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Opinião

 Maria Augusta Ribeiro é especialista em comportamento digital e netnografia.

Maria Augusta Ribeiro é especialista em comportamento digital e netnografia. Foto:

Foto:  Maria Augusta Ribeiro é especialista em comportamento digital e netnografia. Maria Augusta Ribeiro é especialista em comportamento digital e netnografia.

Ao longo de mais de duas décadas acompanhando o comportamento digital das pessoas, observo com atenção como o hábito de consumir informação ruim se tornou parte do dia a dia de milhões de brasileiros e de usuários ao redor do mundo. 

Cada clique, cada compartilhamento e cada comentário que realizamos contribui para um ciclo que fortalece os algoritmos das plataformas. Dessa forma, o que começa como uma simples curiosidade pode se transformar em combustível poderoso para conteúdos que não foram verificados, que distorcem a realidade ou que simplesmente não merecem nossa atenção.

Quando paramos para refletir sobre o processo, percebemos que o algoritmo das redes sociais funciona com base no engajamento. Quanto mais interagimos com uma publicação, maior a chance de ela ser exibida para outros usuários. Assim, ao compartilharmos uma notícia que parece interessante, mas que não checamos a fundo, estamos alimentando esse mecanismo. 

Além disso, o volume de informações disponíveis cresce de forma exponencial. Muitas vezes, optamos por textos curtos, vídeos rápidos ou posts de influenciadores que oferecem visões superficiais, sem mergulhar em análises mais completas ou em fontes confiáveis e atualizadas. Esse padrão reforça o consumo de informação ruim, pois prioriza a velocidade em detrimento da qualidade.

Um aspecto que merece destaque é o papel das fake news nesse ecossistema. Elas circulam com rapidez porque despertam emoções fortes, como surpresa ou indignação, o que aumenta o tempo de permanência na plataforma. 

Por outro lado, as informações não aprofundadas, criam uma ilusão de conhecimento. Em vez de buscar reportagens completas de veículos estabelecidos, recorre-se a resumos prontos ou a opiniões isoladas que não contextualizam os fatos. Dessa maneira, o usuário acaba contribuindo para que o algoritmo priorize conteúdos semelhantes, formando bolhas onde a variedade de perspectivas diminui.

Além disso, o uso de inteligência artificial para gerar mentiras representa um novo capítulo nesse cenário. Ferramentas generativas permitem criar textos, imagens e até vídeos que imitam a realidade com precisão impressionante. 

Em 2023, as pesquisadoras Elizabeth Saad, da USP, e Márcio Carneiro dos Santos, da Universidade Federal do Maranhão, publicaram um estudo que analisou o potencial de modelos como o GPT para produzir notícias falsas. O trabalho revela como essas tecnologias facilitam a disseminação de narrativas fabricadas, tornando mais difícil distinguir o verdadeiro do falso. 

Por outro lado, o algoritmo não age sozinho. Ele responde às nossas ações. 

Quando curtimos ou repassamos um post de um canal desatualizado ou de uma conta que mistura fatos com opiniões sem base, estamos sinalizando que aquele tipo de conteúdo merece mais visibilidade. Assim, o sistema aprende e replica o padrão, exibindo material semelhante para amigos e seguidores. Essa dinâmica se intensifica com a inteligência artificial, que permite a produção em massa de conteúdos personalizados, adaptados para maximizar o engajamento. 

Dessa forma, o consumo de informação ruim não é apenas uma questão individual. Ele afeta a sociedade como um todo, pois influencia debates públicos, decisões  e até percepções sobre temas complexos, como saúde e economia. No meu trabalho de netnografia, que envolve a observação atenta das interações online, noto que muitas pessoas admitem compartilhar conteúdos por impulso, sem pausar para questionar a origem. Esse comportamento, somado à facilidade de gerar mentiras com ferramentas de inteligência artificial, cria um ambiente onde a verdade compete em desvantagem.

Muitos rolam o feed de forma automática, clicando em material chamativo sem ler o texto completo, aceitando resumos gerados por chatbots ou repetindo frases de vídeos curtos que prometem revelações rápidas. 

Outros confiam em grupos de WhatsApp ou em perfis de influenciadores que misturam entretenimento com supostas notícias, sem verificar a data ou a origem do material. Essa prática cotidiana, muitas vezes realizada no intervalo do almoço ou antes de dormir, alimenta diretamente os algoritmos com sinais de aprovação para conteúdos superficiais ou fabricados.

Por isso, ao final de cada leitura ou visualização, vale a pena adotar uma prática simples e eficaz. Verifique a fonte original, consulte sites de checagem reconhecidos e busque pelo menos duas versões independentes do mesmo fato. Dessa maneira, interrompemos o ciclo que alimenta o algoritmo com material duvidoso e contribuímos para um ambiente digital mais equilibrado e confiável.

*Maria Augusta Ribeiro é especialista em comportamento digital e Netnografia no Belicosa.com.br.