O presidente dos EUA, Donald Trump desembarcou na China nesta quarta-feira, 13, para uma viagem considerada histórica. Em meio à mais intensa guerra comercial entre os dois países, marcada por tarifas que chegaram perto de 150%, o presidente dos Estados Unidos tenta agora abrir espaço para novos acordos. A comitiva americana contará com 16 executivos de grandes empresas, incluindo gigantes da tecnologia como Apple, X e Meta.
A viagem de Donald Trump à China talvez represente um dos momentos mais relevantes da atual reorganização econômica global. Muito além de uma agenda diplomática, o encontro entre Trump e Xi Jinping sinaliza uma tentativa de reconstrução pragmática das relações econômicas entre as duas maiores potências do planeta.
Após anos de guerra comercial, restrições tecnológicas, sanções cruzadas e discursos de desacoplamento econômico (“decoupling”), os Estados Unidos parecem reconhecer uma realidade difícil de ignorar: a China não apenas resistiu à pressão americana, como consolidou sua posição como uma das engrenagens centrais da economia global.
“A composição da delegação americana evidencia isso. A presença de executivos e representantes de gigantes como NVIDIA, Apple, Tesla, BlackRock, Mastercard e Boeing demonstra que o centro da viagem não é apenas político — é profundamente econômico, corporativo e financeiro”, explica Carlos Akira Sato, cofundador da Fenynx Digital Assets e especialista em Mercados Regulados, Governança e Inovação.
Durante anos, o discurso político americano foi baseado na ideia de contenção da ascensão chinesa. Entretanto, as maiores empresas americanas continuam altamente dependentes do mercado chinês, seja como centro produtivo, consumidor estratégico, fornecedor industrial ou plataforma de expansão global.
“A China deixou de ser apenas “a fábrica do mundo”. Hoje, Pequim opera como potência tecnológica, financeira, industrial e geopolítica, influenciando cadeias globais de suprimentos, infraestrutura digital, energia, inteligência artificial, pagamentos e mercados financeiros”, acrescenta o especialista.
De acordo com Akira, os efeitos dessa viagem tendem a ser observados imediatamente nos mercados financeiros globais, especialmente nas ações das grandes empresas americanas expostas à China.
“Nos últimos anos, investidores passaram a precificar o chamado “China Risk” nas bolsas americanas. Empresas excessivamente dependentes do mercado chinês passaram a sofrer volatilidade sempre que surgiam novas tarifas, restrições tecnológicas, ameaças regulatórias ou tensões geopolíticas envolvendo Taiwan e semicondutores”.
Por isso, qualquer sinal de distensão entre Washington e Pequim tende a produzir efeitos relevantes sobre o valuation dessas companhias. “A NVIDIA talvez seja o exemplo mais evidente. Parte relevante da expansão global da companhia depende da continuidade das vendas de chips, infraestrutura de inteligência artificial e semicondutores para o mercado asiático. Um ambiente menos hostil entre EUA e China pode reduzir o risco regulatório percebido pelos investidores e fortalecer expectativas de crescimento de receita”, afirma o especialista.
O mesmo vale para empresas como Apple e Tesla. A Apple possui profunda dependência da cadeia produtiva chinesa, enquanto a Tesla transformou a China em um dos pilares de sua expansão global. Qualquer sinal de estabilização nas relações bilaterais tende a beneficiar a percepção de previsibilidade operacional dessas empresas.
No setor financeiro, BlackRock, Mastercard e outras instituições enxergam uma oportunidade ainda maior, a de ampliar presença em um mercado historicamente parcialmente fechado ao capital estrangeiro. “Isso pode gerar uma leitura positiva nos mercados, sobretudo diante da perspectiva de expansão de receitas em serviços financeiros, pagamentos digitais e gestão de ativos”, conclui Akira.

