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Opinião

Thiago Barbosa Soares é analista do discurso, escritor e professor da UFT.

Thiago Barbosa Soares é analista do discurso, escritor e professor da UFT. Foto: Divulgação

Foto: Divulgação Thiago Barbosa Soares é analista do discurso, escritor e professor da UFT. Thiago Barbosa Soares é analista do discurso, escritor e professor da UFT.

Revisitar autores antigos clássico é, em boa medida, entender como determinados comportamentos eram percebidos. Essa é uma simplificação poderosa porque realmente explica tamanha necessidade de voltar ao passado para compreender o presente. Nesse direcionamento, quando alguém lê “Ética a Nicômaco”, de Aristóteles, depare-se com uma série de aconselhamentos dados por um pai filósofo, que viveu no século IV a.C., a seu filho. Nessa obra, é possível identificar, por exemplo, o objetivo da vida, os caminhos para tal e até certas provações que devem ser experimentadas com vistas o alcance de tal intento.

É sobre a honra que interessa a este artigo. Já pelo início de seu manuscrito, Aristóteles afirma: “A consideração dos tipos principais de vida mostra que as pessoas de grande refinamento e índole ativa identificam a felicidade com a honra; pois a honra é, em suma, a finalidade da vida política” (Aristóteles, 2008, p. 21). Contudo, a honra está ligada ao próprio sistema coletivo ao qual alguém que a recebe vincula-se. Em termos relativamente práticos, não é de seu possuidor efetivamente. O filósofo grego explica que a honra, “No entanto, afigura-se demasiado superficial para ser aquela que buscamos, visto que depende mais de quem a confere que de quem a recebe” (Aristóteles, 2008, p. 21). Com isso dito e entendido, a honra não deve fazer parte do próprio objetivo da vida, que no interior da obra em questão é a felicidade.

A recomendação aristotélica é forte, impactante e até trágica, se interpretada às últimas consequências, porém, faz todo o sentido, principalmente em uma sociedade das proporções das cidades-estados gregas do século IV a.C. Se antigamente a honra poderia ser deixada em segundo plano na busca de uma vida cujo bem-estar interno e externo representava a felicidade como manifestação de virtudes, hoje a reputação ocupa um lugar bastante significativo em praticamente todas as sociedades contemporâneas, como uma substituta controladora daquela. Os mecanismos de verificação da reputação são bastante diversos; há expedientes de controle de pagamentos de dívidas; há ficha criminal e várias instâncias; há registros em sistemas governamentais, entre outros. Portanto, não faltam mecanismos de rastreamento e sondagem da reputação. Todavia, a diferença entre honra e reputação parece sobrevir do fato de que a primeira é atribuída pelo coletivo, a segunda é um histórico cobrado pela sociedade.

A diferença filosófica entre honra e reputação revela, assim, uma profunda transformação nos mecanismos de regulação social. Enquanto a honra aristotélica emergia do reconhecimento público de virtudes excepcionais, como coragem, justiça, sabedoria prática, concedida espontaneamente por uma comunidade que admirava a excelência moral, a reputação contemporânea opera sob lógica inversa: não premia o que se fez de extraordinário, antes pune ou recompensa o cumprimento de normas padronizadas. Exemplos disso abundam no cotidiano. Sistemas de pontuação de crédito, como o Serasa Score ou o FICO, transformam hábitos de consumo e pagamento em índices numéricos que decidem o acesso a bens básicos como moradia, transporte ou educação. Atrasou uma fatura? Sua reputação financeira despenca. Não há qualquer juízo sobre seu caráter ou suas virtudes, apenas o registro frio de um comportamento que desviou do esperado. No âmbito penal, a certidão de antecedentes criminais não distingue entre um homicida e alguém que furtou um alimento por fome: ambos carregam a mancha indelével de um “desvio”, ainda que imperfeita e judicialmente revista.

Mais patente ainda é o caso de plataformas de avaliação como Uber, Airbnb ou Mercado Livre. Motoristas, anfitriões e vendedores são continuamente avaliados por clientes anônimos, e suas notas definem se poderão continuar trabalhando ou serão excluídos do sistema. Um comentário negativo, por vezes falso ou caprichoso, pode destruir anos de reputação construída. O Estado, por sua vez, não apenas observa esses mecanismos como os incorpora ativamente: programas de “crédito social” em diversas cidades brasileiras, como o “Nota Fiscal Paulista” ou o “Cadastro Positivo”, recompensam comportamentos alinhados à formalidade e penalizam os que escapam ao controle fiscal, mesmo que indiretamente. Na China, o sistema de crédito social estatal é apenas a versão mais explícita e centralizada de uma tendência global: transformar a conduta cotidiana em dados que alimentam algoritmos de permissão e exclusão.

A honra, portanto, jamais serviu como mecanismo de controle. Ela era um bônus, um plus simbólico concedido àqueles cujas ações transcendiam o dever comum. Ninguém era “desonrado” por não receber honrarias; simplesmente não se destacava. Já a reputação, como entendida hoje, inverte a equação: parte-se da presunção de que todos são reputados apenas enquanto não falham. Qualquer deslize, qualquer atraso, qualquer divergência com o padrão esperado o histórico é manchado, o acesso é restringido, a vida é dificultada. Disfarçada de transparência e eficiência, a reputação converte-se no mais eficaz dispositivo de controle social já articulado pelo Estado contemporâneo. Trata-se, em última instância, de um crédito social perverso: não aquele que empodera o cidadão, mas o que o condiciona, vigia e disciplina, desajado aos ideais de liberdade, e profundamente indesejável em qualquer democracia que se pretenda justa.

Referência: ARISTÓTELES. Ética a Nicômaco. Tradução de Pietro Nassetti. 3. ed. São Paulo: Martin Claret, 2008.

*Thiago Barbosa Soaresé analista do discurso, escritor e professor da Universidade Federal do Tocantins (UFT).