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Cotidiano

Foto: Designed by Magnific (www.magnific.com) - Freepik

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No imaginário de muitos pais, os perigos aos quais os filhos estão expostos ainda estão associados à rua, ao desconhecido ou ao contato físico direto. Mas, hoje, grande parte do aliciamento e da exploração sexual de crianças e adolescentes acontece dentro de casa, por meio de celulares, jogos online e redes sociais.

O tema ganha destaque em maio, mês da campanha nacional de combate ao abuso e à exploração sexual infantil. E os números recentes mostram que a violência sexual contra crianças facilitada pela tecnologia já se tornou um problema de grandes proporções no Brasil.

Um relatório divulgado pelo UNICEF em parceria com a ECPAT International e a Interpol revelou que uma em cada cinco crianças e adolescentes brasileiros entre 12 e 17 anos sofreu algum tipo de violência sexual facilitada pela tecnologia em apenas um ano. Isso representa cerca de três milhões de vítimas no país. 

Segundo o estudo, redes sociais, plataformas de mensagens, chats e jogos online, como o Roblox, aparecem entre os principais ambientes utilizados por criminosos para aliciamento, manipulação emocional e compartilhamento de conteúdos de exploração sexual. 

“Hoje, muitos abusadores não precisam mais se aproximar fisicamente da criança. Eles constroem vínculos emocionais pela internet, ganham confiança aos poucos e usam carência afetiva, solidão e necessidade de pertencimento como portas de entrada”, diz a psiquiatra Danielle Admoni, especialista pela ABP (Associação Brasileira de Psiquiatria) e supervisora na residência de psiquiatria da Universidade Federal de São Paulo (Unifesp/EPM).

Esse processo de aliciamento também é conhecido como “grooming” e acontece de forma gradual. Criminosos frequentemente fingem ter idade próxima à da vítima e até compartilhar dos mesmos problemas e preocupações da criança. Oferecem acolhimento, atenção e presentes digitais, como moedas de jogos ou plataformas digitais e, aos poucos, passam a solicitar fotos, vídeos íntimos, dados de cartão de crédito dos pais ou até encontros presenciais.

O problema é que, muitas vezes, essa abordagem não é percebido pelas famílias.

“Muitos responsáveis monitoram apenas o tempo de tela, mas deixam de observar o conteúdo consumido e as relações que crianças e adolescentes constroem online”, afirma Danielle Admoni.

Entre os sinais de alerta que podem indicar que algo errado está acontecendo estão:

  • mudança brusca de comportamento; 
  • isolamento repentino; 
  • uso excessivo e secreto do celular; 
  • ansiedade após mensagens; 
  • medo de mostrar conversas; 
  • presentes inexplicáveis em jogos online; 
  • sexualização precoce; 
  • contato frequente com desconhecidos. 

Outro dado que preocupa é o silêncio das vítimas. Segundo o levantamento do UNICEF, 34% das crianças e adolescentes que sofreram violência sexual facilitada pela tecnologia não contaram o ocorrido para ninguém. 

Além dos impactos imediatos, especialistas alertam para consequências emocionais de longo prazo, como ansiedade, depressão, transtorno de estresse pós-traumático, dificuldade de relacionamento e risco aumentado de automutilação e ideação suicida.

A SaferNet Brasil também vem registrando crescimento nas denúncias relacionadas à exploração sexual infantil online. Em 2025, 64% das denúncias recebidas pela entidade envolviam abuso e exploração sexual de crianças e adolescentes na internet. 

Para combater esse problema, o caminho passa menos pela vigilância extrema e mais pela construção de diálogo e confiança. “A criança precisa sentir que pode pedir ajuda sem medo de punição ou julgamento. O silêncio ainda é um dos maiores aliados desse tipo de violência”, diz Danielle Admoni.

Como aumentar a proteção:

  • conversar regularmente sobre segurança digital; 
  • ensinar que segredos online não devem existir; 
  • acompanhar jogos, aplicativos e redes utilizados; 
  • orientar sobre envio de fotos e dados pessoais; 
  • criar ambiente seguro para que a criança relate situações desconfortáveis.