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Opinião

Thiago Barbosa Soares é analista do discurso, escritor e professor da UFT.

Thiago Barbosa Soares é analista do discurso, escritor e professor da UFT. Foto:

Foto: Thiago Barbosa Soares é analista do discurso, escritor e professor da UFT. Thiago Barbosa Soares é analista do discurso, escritor e professor da UFT.

Os tempos mudaram do final do século XX para cá e não é mais novidade que uma nova estética territorializa nichos e o mercado cultural. O sociólogo polonês Zigmund Bauman diria, usando sua analogia explicativa, que o tempo “concreto” cedeu lugar ao tempo “líquido”, simplificando um processo que ultrapassa a mera camada econômica e deposita quase todas as responsabilidades no capitalismo contemporâneo. Uma vez que a estética também é filha do tempo, o conjunto de valores que lhe conferem certa estabilidade apreciativa, por um determinado tempo, refere-se ao modelo social concreto vigente ou mesmo pretendido.

Um caso exemplar de representação estética do funcionamento social pode ser observado no início do cinema, no final do século XIX, em que as primeiras obras eram justamente sobre o trabalho nas grandes fábricas, legadas pela revolução industrial. Nesse direcionamento, a condução estética, com suas limitações, volta-se principalmente para o valor do trabalho moderno e, posteriormente, para sua mecanização. Na literatura, emblema de desfrute das reflexões humanas, pode-se perceber um movimento estético similar. No romantismo, prevalente no século XIX, o valor determinativo de inúmeras obras brasileiras era justamente a identidade nacional, já que nesse período o país deixava sua condição de colônia portuguesa para se tornar nação autônoma e, por tal razão, a busca de consolidação da unidade nacional era um valor desenvolvido em obras diversas.

O filósofo marxista Adorno já alertava acerca do declínio musical em meados do século XX, ao explicar que os valores nacionalistas dos Estados Unidos da América distorciam a estética universal, tanto das composições quanto das vozes, uma vez que a determinação por um apelo ao grande público era formidável na nação mais poderosa do mundo. Todavia, as mudanças na configuração dos artefatos culturais foram se dando de maneira cada vez mais rápida até o ponto em que tudo o que Adorno tinha proferido sobre uma nova composição musical fosse esquecido pela maioria e/ou fosse reintegrado ao processo de síntese, em sentido hegeliano. Dessa maneira, pode-se afirmar que algo da ordem do já ocorrido acontece mais uma vez.

Na contemporaneidade, emerge um estilo musical relativamente inovador, a saber: a geek music, ou melhor, a música nerd. Esse estilo, inspirado em animes, mangás e jogos de vídeo game, fundamenta uma nova modificação estética cuja base parece estar contida na reformulação de valores já pouco validados no circuito coletivo. Canções que narram, ao estilo falado do rap, a história de personagens icônicos, com seus feitos heroicos, na luta contra o mal, fortalece uma perspectiva segundo a qual o mundo não é um lindo arco-íris, regado ao perfume do lírio branco, mas uma luta constante na qual as adversidades precisam ser vencidas. 

Novos arranjos são criados, um estilo moderno de canção que traveste vozes ainda pouco trabalhadas em técnicas tradicionais de canto surge como um grito silencioso dos excluídos do sistema de valores vigentes. Eis a música nerd como um movimento, que acontece em praticamente todos os continentes, ao lado de um vasto repertório de novas modificações estéticas dos artefatos culturais e seus valores embutidos.

Assim, a estética geek, sua aparente fragmentação e nichificação, longe de ser mero escapismo, revela-se como uma cartografia sensível dos valores de uma geração que se formou na interface entre o digital e o analógico. Seus códigos, visuais, sonoros, narrativos, constroem uma linguagem comum baseada na resiliência, no trabalho em equipe, na busca por significado em universos coerentes e na celebração do conhecimento especializado. O herói “lutador” não é mais o indivíduo excepcional e solitário, mas muitas vezes o grupo diversificado que, unindo habilidades complementares, supera a adversidade. Este valor da colaboração e do intelecto aplicado como ferramenta de emancipação constitui um contraponto significativo ao individualismo competitivo e ao imediatismo que marcam outras esferas da vida líquido-moderna.

Portanto, a emergência dessa nova estética não é acidental, mas necessária. Ela preenche um vazio axiológico, oferecendo um arcabouço de referências e uma comunidade de sentido para quem se sente deslocado nos grandes relatos tradicionais, seja o nacionalismo, o consumismo desenfreado ou a produtividade tóxica. A música nerd, os universos transmídia e suas iconografias funcionam como um novo “concreto” simbólico em um tempo fluido: são territórios identitários estáveis, nos quais os valores de perseverança, lealdade, curiosidade intelectual e justiça são não apenas representados, mas incessantemente reencenados e reforçados. É uma estética da reparação, que busca, nos mundos ficcionais, os alicerces éticos que parecem faltar no mundo factual.

Dessa forma, compreender e levar a sério essas novas configurações estéticas é mais do que um exercício de análise cultural; é uma ferramenta para diagnosticar os anseios e as reinvindicações de valor do tempo presente. Se Adorno via com desconfiança a cultura de massas de seu tempo, hoje talvez fosse necessário observar como, nas franjas da indústria cultural, brotam sementes de um novo sistema de valoração. A nova estética, com suas mitologias pixelizadas e heroísmos falados, não anuncia um futuro distópico, mas responde, de maneira criativa e comovente, a uma necessidade contemporânea premente: a de encontrar, ou inventar, valores sólidos para se sustentar em um mundo que insiste em “derreter”. E, nesse processo, ela demonstra que até mesmo um Seiya de Pégaso pode carregar, em seu meteoro cósmico, a centelha de uma crítica e o desejo por um mundo mais legível e, quem sabe, mais heroico.

*Thiago Barbosa Soares é analista do discurso, escritor e professor da Universidade Federal do Tocantins.