A história está presente em cada palavra que usamos. Quando alguém diz que algo “custou os olhos da cara” ou que determinada situação é “para inglês ver”, está transportando, sem saber, séculos de narrativas para o cotidiano. O conhecimento histórico não é apenas um exercício acadêmico de memorização de datas e nomes, é uma ferramenta viva que amplia a compreensão do mundo e conecta-nos com experiências que moldaram o presente.
Vivemos numa época que frequentemente despreza o passado em nome de um futuro supostamente inovador. Não raro, ouvimos questionamentos sobre a utilidade prática de estudar eventos ocorridos há séculos. Afinal, que diferença faz saber sobre reinados distantes ou conflitos antigos quando há problemas tão urgentes no presente? A resposta é simples: a história fornece as lentes através das quais podemos enxergar com clareza as estruturas sociais, políticas e econômicas que nos cercam. Ela não é uma necrologia do passado, é um reservatório das múltiplas experiências humanas, a única base de evidências reais sobre como as sociedades comportam-se, transformam-se ou resistem a mudanças.
O historiador italiano Carlo Ginzburg observou certa vez que seus alunos em Roma, em 1969, estavam obcecados com a ocupação de fábricas ocorrida em 1920, enquanto ele próprio pesquisava sobre feitiçaria. Pouco tempo depois, manifestantes feministas gritavam nas ruas: “Tremam, tremam, as feiticeiras voltaram”. A lição é clara: o que parece totalmente distante da atualidade pode tornar-se, repentinamente, seu foco principal. O conhecimento histórico desenvolve habilidades fundamentais para navegarmos no presente. Ele nos ensina a extrair significados de fontes diversas, avaliar interpretações conflitantes, analisar mudanças e continuidades, e relacionar diferentes tipos de evidência. Em tempos de desinformação e polarização (ideológica), essas competências são verdadeiros instrumentos de sobrevivência intelectual.
Talvez a demonstração mais fascinante de como a história está enraizada em nosso cotidiano esteja nas expressões populares que usamos sem questionar. São verdadeiras cápsulas do tempo linguísticas, carregando séculos de histórias em poucas palavras. “Casa da Mãe Joana”, por exemplo, é uma expressão que usamos para designar lugar onde não há regras ou onde tudo é permitido. Sua origem remonta ao século XIV, quando a rainha Joana I de Nápoles, fugindo de acusações de conspiração, estabeleceu-se em Avignon, na França, onde regulamentou os bordéis, que passaram a ser chamados de “Paço da Mãe Joana”. No Brasil, “paço” foi substituído por “casa”, e a expressão ganhou o sentido pejorativo que conhecemos.
“Para inglês ver” é outro exemplo fascinante. Durante o período imperial brasileiro, a Inglaterra pressionava o país a combater o tráfico de escravizados. As autoridades brasileiras criavam leis e medidas que nunca saíam do papel, ações apenas “para inglês ver”, para manter as aparências diante da pressão internacional. Hoje, usamos a expressão sempre que algo é feito apenas como fachada, sem efetividade real. Já “tem caroço nesse angu” remete diretamente ao período da escravidão. Escravizados que conseguiam esconder um pedaço de carne ou torresmo no meio do angu de fubá despertavam comentários suspeitos entre outros cativos. A expressão, que hoje significa que há algo escondido em determinada situação, carrega a memória das estratégias de sobrevivência e resistência nas senzalas.
“Voto de Minerva” transporta-nos à mitologia greco-romana. Quando o mortal Orestes matou a própria mãe para vingar a morte do pai, foi julgado por um tribunal presidido pela deusa Atena (Minerva para os romanos). Houve empate na votação, e coube à deusa o voto decisivo, que inocentou Orestes. A expressão sobrevive até hoje em reuniões e assembleias. “Agora, Inês é morta” é uma expressão que usamos para dizer que algo chegou tarde demais. A história remonta ao século XIV, quando Inês de Castro, amada por Dom Pedro I de Portugal, foi executada por ordem do rei Dom Manuel. Ao retornar e encontrar sua amada morta, Dom Pedro teria ouvido do pai: “Agora, Inês é morta”. Mais tarde, quando assumiu o trono, fez desenterrar o corpo de Inês e obrigou a corte a beijar a mão da falecida rainha.
Estudar História não significa buscar fórmulas prontas para evitar erros do passado, isso seria reduzir a complexidade do conjunto humano a uma equação matemática. As sociedades não repetem erros porque os homens de diferentes épocas não pensam, sentem ou sonham da mesma forma. A verdadeira importância do conhecimento histórico está na ampliação do imaginário, no alargamento do horizonte de consciência. Ele nos permite reconhecer que as estruturas que nos cercam, econômicas, sociais, políticas, religiosas, são resultado de processos históricos e, portanto, podem ser transformadas.
Quando entendemos que “fazer uma vaquinha” vem da torcida do Vasco da Gama na década de 1920, que premiava jogadores com valores inspirados no jogo do bicho (a vaca valia 25 mil réis, à época), percebemos como práticas culturais cristalizam-se na linguagem. Quando descobrimos que “pagar mico” vem de um jogo infantil dos anos 1950, compreendemos como o lúdico também molda nossa comunicação. Conhecer história é exercitar diariamente a capacidade de enxergar camadas de significado onde antes víamos apenas superfícies. É compreender que, quando usamos expressões como “a sete chaves” (referência às arcas medievais guardadas com múltiplos cadeados) ou “erro crasso” (alusão aos equívocos militares do romano Crasso), estamos dialogando com séculos de experiência humana.
A história não está nos livros empoeirados que acumulam pó nas estantes, está, em alguma medida, na boca do povo, nas decisões que tomamos, nas instituições que construímos. Como defende o historiador francês Georges Duby, ela é fonte de divertimento, também desempenha função social fundamental. Portanto, da próxima vez que alguém questionar a utilidade de estudar o passado, lembre-se: cada palavra que pronunciamos pode ser uma ponte para compreender não apenas de onde viemos, mas quem somos e para onde podemos ir. A história é, portanto, o espelho no qual o presente reconhece-se e no qual o futuro começa a desenhar-se.
*Thiago Barbosa Soares é analista do discurso, escritor e professor da Universidade Federal do Tocantins (UFT).

