Nas últimas décadas, o discurso oficial e as campanhas eleitorais venderam ao público a imagem de um Brasil que finalmente havia descoberto a chave para o desenvolvimento: a universalização do acesso à escola e a inserção dos jovens na “cultura digital”. Os dados do INAF 2024 (Indicador de Alfabetismo Funcional), no entanto, expõem a fragilidade dessa narrativa. O relatório revela um cenário de estagnação e retrocesso que desmonta o marketing político em torno da educação e escancara o fracasso das políticas públicas contemporâneas.
O documento é implacável ao demonstrar que, após duas décadas de medições, o país não avançou. Desde 2009, o percentual de analfabetos funcionais estacionou na casa dos 30%. Isto significa que aproximadamente 40,8 milhões de brasileiros não conseguem compreender e se expressar plenamente por meio da leitura e da escrita. O que deveria ser um alarme soa como um ruído abafado pelos holofotes das “inovações pedagógicas” e das promessas de uma educação “conectada”.
O problema central reside no fato de que a escola brasileira, em vez de cumprir seu papel fundamental de garantir o domínio do código escrito, entre outros, e do raciocínio lógico, foi capturada por modismos pedagógicos e pela fetichização da tecnologia. A nova matriz de habilidades do INAF, que incorporou o “contexto digital”, expõe uma realidade: a tecnologia não potencializou o aprendizado; apenas escancarou as velhas desigualdades. Os dados mostram que 60% dos analfabetos funcionais têm um desempenho baixíssimo em atividades digitais. Mais grave ainda: mesmo entre aqueles que concluíram o Ensino Superior, apenas 39% alcançaram um desempenho considerado alto em tarefas digitais. Ou seja, tem-se uma geração com acesso ao celular, porém, incapaz de interpretar um texto, avaliar uma fonte ou realizar uma operação matemática complexa.
As políticas públicas, reféns do marketing eleitoral, focaram no que é visível e mensurável em curto prazo: a distribuição de tablets, a instalação de laboratórios de informática subutilizados e a inclusão de competências digitais nos currículos como se fossem a salvação da “lavoura”. Ignoraram o óbvio: um indivíduo que não interpreta um texto no papel continuará iletrado diante de uma tela. O relatório é cristalino ao apontar que a escolaridade é o principal fator para o alfabetismo, mas que a qualidade do ensino ofertado é pífia, para ser eufemista. Impressiona o fato de que 17% das pessoas que chegam ao Ensino Médio ainda são consideradas analfabetas funcionais. A escola promove, não educa. Aprova, não ensina.
Este desastre é agravado pelo abandono da Educação de Jovens e Adultos (EJA). Enquanto os holofotes voltam-se para o “aluno do futuro” conectado, milhões de adultos com mais de 40 anos, faixa etária na qual o analfabetismo funcional atinge a assombrosa marca de 51%, são deixados à margem. Eles são vistos como estatísticas, não como cidadãos com direito à aprendizagem ao longo da vida.
O INAF 2024 desmonta a falácia do “protagonismo juvenil” digital. Os jovens de 15 a 29 anos são, principalmente, os que mais acessam a internet, mas 36% deles permanecem no nível elementar de alfabetismo. São hábeis em rolar a tela do Instagram, contudo, frágeis para compreender um artigo jornalístico ou elaborar uma ideia crítica. A cultura digital, da forma como foi implementada, não formou leitores; formou consumidores acríticos de conteúdo raso, presas fáceis das fake news e dos golpes virtuais, como o próprio estudo sugere.
Portanto, o que o INAF 2024 nos mostra é que a educação brasileira vive um engodo. Investiu-se pesado em marketing, em discursos de “inovação” e em programas de governo que visavam muito mais a construção de uma imagem de modernidade do que a solução real dos problemas. Se as políticas públicas continuarem tratando o analfabetismo funcional como uma questão menor, e o letramento digital como um adereço tecnológico, o ensino continua a produzir uma geração de “analfabetos de tela”: pessoas que até sabem ligar o aparelho, no entanto, são incapazes de interpretar o mundo.
*Thiago Barbosa Soares é analista do discurso, escritor e professor da Universidade Federal do Tocantins (UFT).

