A célebre “teoria do medalhão”, exposta por Machado de Assis no conto homônimo, consolidou-se no imaginário brasileiro como a mais afiada condenação da mediocridade ambiciosa. Nela, o escritor descreve o processo pelo qual um jovem é instruído por seu pai a cultivar a vacuidade, a repetição de lugares-comuns, uma postura grave e um discurso oco, contudo, socialmente aceito, para ascender na vida pública e tornar-se um “medalhão”, ou seja, bem-sucedido. Para Machado de Assis, segundo os mais ilustres estudiosos da literatura machadiana, trata-se da mais cabal expressão da covardia intelectual: a abdicação do pensamento próprio em troca de sucesso, tornando-se um mero “espelho das ideias alheias”.
É precisamente nesta condenação absoluta que reside o “erro” fundamental de Machado de Assis. Este escritor brasileiro, brilhante como cronista dos vícios burgueses, parte de uma premissa romântica e individualista ingênua: a de que a originalidade radical e a expressão desinibida do “eu” são bens supremos e inquestionáveis. Seu “medalhão” é um covarde porque não ousa ser “ele mesmo”. Como a própria noção de um “eu” autônomo e desconectado da tradição e do meio social pode ser entendida como uma ilusão perniciosa?
A crítica machadiana falha por não perceber que a vida em sociedade é, em sua essência, um processo de transmissão. O jovem que escuta seu pai, no conto, não está apenas aprendendo uma técnica vil de ascensão. Está, sim, sendo iniciado nos costumes, no decorum (compostura, polidez), na linguagem e nos ritos que sustentam o tecido social. O que Machado vê como “repetição de lugares-comuns” pode ser reinterpretado como a necessária absorção do senso comum, não no sentido de banalidade, mas no sentido de common sense, o conjunto de pressupostos e verdades práticas partilhadas por uma comunidade que a mantém coesa. O “medalhão” que repete as máximas consagradas não está apenas se escondendo; está, muitas vezes, afirmando sua lealdade a um conjunto de valores que transcende sua individualidade.
Machado, como bom filho do século XIX e do racionalismo liberal, superestima a capacidade e a obrigação de cada homem ser um gênio original. Despreza a virtude da prudência, que é a sabedoria prática de agir conforme as circunstâncias, de calibrar o discurso, de não ofender inutilmente, de construir consensos. A postura grave e as opiniões moderadas do medalhão não são necessariamente sinal de vacuidade, antes, podem ser o tributo que a ação pública eficaz paga à estabilidade social. Enquanto o suposto “original” perde-se em labirintos subjetivos ou em rupturas estéreis, o “medalhão” opera no mundo real, com suas regras e limitações.
Uma análise filosófica mais densa revela que o desprezo pela tradição, pelos ritos e pela autoridade legítima (tudo o que o “medalhão” supostamente encarna de forma caricata) tende a levar não à liberdade autêntica, mas ao caos e à tirania de ideologias abstratas. O medalhão machadiano, visto por este prisma, não é o inimigo, já que talvez seja um bastião involuntário contra a dissolução total. Ele prefere o conhecido, o estabelecido, o seguro. E numa sociedade saudável, esse instinto conservador, que não é o mesmo que estagnação, é vital.
A verdadeira covardia, portanto, não está no homem que se molda ao seu tempo e busca o sucesso dentro das regras do jogo social, embora essa busca possa advir da falta de virtudes. Está, sim, no intelectual que, da segurança de seu gabinete, lança anátemas sobre aqueles que carregam o fardo da administração da vida comum, acusando-os de falta de “autenticidade”, um conceito moderno, vago e frequentemente destrutivo. O medalhão pode não brilhar com luz própria, porém, reflete a luz de uma ordem que existe. Destruí-lo, em nome de uma originalidade que pode ser apenas egoísmo intelectual disfarçado, é um risco que poucas sociedades podem se dar ao luxo de correr.
Portanto, a teoria do medalhão de Machado de Assis é uma obra-prima da sátira, mas uma falha como filosofia social, para tristeza de muitos estudiosos de teorias literárias. Ela é filha de um idealismo que desconhece as complexas necessidades do convívio humano, que exige não apenas gênios, também administradores; não apenas revolucionários, também guardiões. Reabilitar o medalhão é compreender que a arte de viver em sociedade nem sempre se parece com a arte do romance. Às vezes, parecer um espelho é simplesmente saber refletir o que é maior do que a si mesmo ou aquilo que necessariamente expressa uma demanda temporária de conveniência. Não podendo mudar o mundo, o medalhão encontra-se transformando a si próprio em seu reflexo silencioso.
*Thiago Barbosa Soares é analista do discurso, escritor e professor da Universidade Federal do Tocantins.

