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Saúde

Foto: Pixabay

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O Brasil conseguiu, nas últimas décadas, reduzir de forma consistente o tabagismo com políticas públicas robustas, como restrição à propaganda, aumento de impostos, advertências sanitárias e oferta de tratamento pelo SUS. O resultado foi a queda expressiva do número de fumantes e, mais recentemente, a redução da mortalidade por câncer de pulmão entre os homens.

Agora, especialistas alertam que outro fator de risco cresce de forma silenciosa: o excesso de peso. Dados recentes do sistema Vigitel mostram que 61,4% da população adulta das capitais brasileiras está acima do peso. Estimativas apontam que, nas próximas duas décadas, quase metade dos adultos pode viver com obesidade. Hoje, a condição já atinge cerca de 26% dos brasileiros, aproximadamente 41 milhões de pessoas.

Segundo o Instituto Nacional de Câncer (INCA), uma parcela relevante dos casos de câncer no país está associada ao sobrepeso e à obesidade. A Organização Mundial da Saúde (OMS) estima que 13 em cada 100 casos de câncer no Brasil sejam atribuíveis ao excesso de peso corporal.

Quais cânceres estão associados à obesidade?

A Agência Internacional para Pesquisa em Câncer (IARC), ligada à OMS, reconhece que o excesso de gordura corporal está associado a pelo menos 13 tipos de câncer, entre eles:

  • Mama (especialmente na pós-menopausa)
  • Cólon e reto
  • Endométrio
  • Ovário
  • Fígado
  • Pâncreas
  • Rim
  • Esôfago (adenocarcinoma)
  • Vesícula biliar
  • Estômago (cárdia)
  • Tireoide
  • Mieloma múltiplo
  • Meningioma

Embora nem todos os casos desses tumores ocorram em pessoas com obesidade, o acúmulo excessivo de gordura corporal aumenta o risco populacional.

“O tecido adiposo não é inerte. Ele produz substâncias inflamatórias e altera o equilíbrio hormonal do organismo”, explica o oncologista Mauro Donadio, da Oncoclínicas. “Esse ambiente metabólico favorece a proliferação celular e pode contribuir para o desenvolvimento e a progressão de tumores. Além disso, os resultados dos tratamentos dos tumores em pessoas com obesidade tendem a ser piores.”

O que acontece no organismo?

A obesidade é definida como uma doença crônica caracterizada por índice de massa corporal igual ou superior a 30 kg/m². No plano biológico, ela envolve alterações complexas:

  • Aumento de leptina, insulina, triglicérides e fatores de crescimento;
  • Elevação de citocinas pró-inflamatórias;
  • Maior atividade da aromatase, com impacto hormonal;
  • Redução de adiponectina;
  • Supressão da imunidade antitumoral e das células T;
  • Estado de inflamação crônica persistente.

“Não se trata apenas de peso na balança, mas de um desarranjo metabólico sistêmico”, afirma Donadio. “A inflamação crônica com disfunção imunológica e as alterações hormonais criam um terreno biologicamente mais favorável ao câncer". 

Impacto no diagnóstico e no tratamento

A obesidade não influencia apenas o risco de desenvolver a doença. Ela também pode interferir no prognóstico. O risco de recidiva após um tratamento curativo é maior em pacientes oncológicos com obesidade.

Pacientes com obesidade frequentemente recebem diagnóstico em estágios mais avançados. Entre os fatores associados estão barreiras estruturais, como equipamentos inadequados para exames, e estigmas que dificultam o acesso e a continuidade do cuidado.

O tratamento oncológico é ainda mais complexo nesse cenário. O excesso de gordura corporal pode estar relacionado a maior toxicidade e efeitos adversos da quimioterapia, maior resistência à radioterapia e complicações cutâneas, pior cicatrização e mais infecções no pós-operatório, redução da eficácia de hormonioterapia, mais efeitos adversos em imunoterapia.

Outro ponto crítico é a composição corporal. A perda de massa muscular, chamada sarcopenia, pode piorar a resposta ao tratamento e a qualidade de vida. Quando há combinação de obesidade e sarcopenia, o impacto tende a ser ainda mais significativo.

“Precisamos olhar além do IMC e avaliar a composição corporal e funcionalidade”, destaca Donadio. “A abordagem deve ser individualizada". 

Prevenção e políticas públicas

A epidemia de obesidade está relacionada à mudança no padrão alimentar, com maior consumo de produtos ultraprocessados, bebidas açucaradas e refeições industrializadas, em detrimento de alimentos frescos e preparações tradicionais.

Países como México e Chile já adotaram medidas como taxação de bebidas açucaradas e rotulagem frontal de advertência. No Brasil, o Guia Alimentar para a População Brasileira e compromissos firmados junto à Organização Pan-Americana da Saúde representam passos iniciais, mas especialistas defendem ações mais amplas.

“Se aprendemos com o enfrentamento ao tabagismo, sabemos que políticas públicas consistentes fazem diferença”, afirma Donadio. “Tributação de produtos nocivos, regulação da publicidade infantil e promoção de ambientes saudáveis são medidas estruturais.”

Tratamento da obesidade em pacientes com câncer

O manejo da obesidade é multidisciplinar e pode incluir:

  • Reeducação alimentar;
  • Atividade física regular;
  • Acompanhamento psicológico;
  • Medicamentos antiobesidade, quando indicados e sem interação com terapias oncológicas;

Obesidade é o “novo tabagismo”?

A comparação tem sido feita por especialistas, mas com ressalvas. Diferentemente do cigarro, cuja relação causal com o câncer é direta e amplamente comprovada, a associação entre obesidade e câncer é biologicamente plausível e consistente, porém multifatorial e mais complexa.

“Não é uma equivalência simples”, pondera Donadio. “Mas, do ponto de vista de saúde pública, a obesidade já se consolida como um dos principais fatores modificáveis de risco para câncer". 

Diante do avanço dos índices de sobrepeso e obesidade no país, especialistas defendem que o enfrentamento da condição seja tratado com a mesma prioridade dada, no passado, ao tabagismo, como uma agenda estruturante de saúde pública.

Para Mauro Donadio, a mensagem central é clara: “Controlar o peso não é uma questão estética. É uma estratégia concreta de prevenção oncológica e de melhora de desfechos para quem já enfrenta a doença”, finaliza.