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Opinião

Thiago Barbosa Soares é analista do discurso, escritor e professor da UFT.

Thiago Barbosa Soares é analista do discurso, escritor e professor da UFT. Foto: Divulgação

Foto: Divulgação Thiago Barbosa Soares é analista do discurso, escritor e professor da UFT. Thiago Barbosa Soares é analista do discurso, escritor e professor da UFT.

Há algo de profundamente reconfortante em aderir, sem hesitação, aos costumes herdados. Desde muito cedo, somos introduzidos em um universo normativo no qual determinadas condutas são apresentadas como intrinsecamente “boas”, ajudar o próximo, respeitar os mais velhos, dizer a verdade, enquanto outras são prontamente classificadas como “más”. Raramente, contudo, somos instados a interrogar os fundamentos dessas distinções. Aprende-se a agir antes de aprender a pensar o próprio agir. É precisamente nesse hiato que se instala um problema ético de grandes proporções: até que ponto aquilo que chamamos de “bem” não passa de uma repetição acrítica de tradições naturalizadas?

A questão não é nova. No diálogo Eutífron, Platão formula um dilema que atravessa séculos e permanece inquietantemente atual: “algo é piedoso porque é amado pelos deuses, ou é amado pelos deuses porque é piedoso?” Traduzido para o horizonte contemporâneo, o impasse assume outra feição: uma ação é boa porque a tradição a consagra, ou a tradição a consagra porque ela é, em si mesma, boa? Aparentemente abstrata, tal indagação desestabiliza o solo seguro sobre o qual repousa grande parte de nossas práticas cotidianas, ao expor a fragilidade de uma moral fundada apenas na repetição.

Se admitirmos que algo é bom apenas porque sempre foi assim considerado, abrimos espaço para um relativismo complacente, no qual qualquer prática, por mais questionável que seja, pode reivindicar legitimidade em nome da tradição. Por outro lado, se sustentamos que a tradição só é legítima quando fundada em critérios racionais e eticamente justificáveis, então somos compelidos a reconhecer a necessidade da reflexão crítica como condição da própria moralidade. O dilema, portanto, não é meramente teórico: ele exige uma tomada de posição diante do modo como vivemos e justificamos nossas ações.

No cotidiano, essa tensão manifesta-se de forma quase imperceptível. Tomemos, por exemplo, a organização de filas em espaços públicos. A maioria das pessoas respeita a ordem de chegada, não por uma elaboração consciente acerca do princípio de equidade, mas por simples hábito. Quando alguém rompe essa ordem, a reação imediata é a indignação. No entanto, essa indignação nem sempre decorre da consciência de uma injustiça refletida, antes, da violação de uma regra tácita internalizada. Age-se corretamente, entretanto, sem saber exatamente por quê. A norma é seguida; o princípio que a sustenta, frequentemente, permanece opaco.

Situação análoga pode ser observada nas relações familiares. Visitar um parente enfermo, prestar assistência a pais idosos ou manter vínculos de cuidado são práticas socialmente valorizadas. Contudo, não é raro que tais ações sejam realizadas sob o peso de uma obrigação tradicional, e não por uma adesão efetiva a um valor eticamente compreendido. A fórmula recorrente, “é seu dever”, evidencia menos uma escolha refletida do que a força de um imperativo herdado. Nesse contexto, a virtude corre o risco de reduzir-se a uma encenação normativa: cumpre-se o esperado, contudo, esvazia-se o sentido do agir.

Importa ressaltar que o problema não reside na tradição em si. As tradições podem, e frequentemente o fazem, condensar formas historicamente sedimentadas de sabedoria prática. O risco emerge quando essas formas tornam-se imunes ao questionamento, convertendo-se em automatismos morais. Nesse ponto, a tradição deixa de ser um horizonte de orientação para tornar-se um dispositivo de naturalização: faz-se o que se faz não porque se compreende seu valor, mas porque nunca se cogitou a possibilidade de agir de outro modo.

É precisamente esse o equívoco que Sócrates evidencia ao interpelar Eutífron. Convicto de sua própria piedade, Eutífron é incapaz de defini-la, limitando-se a enumerar exemplos de ações consideradas piedosas. Sua segurança repousa na familiaridade com práticas consagradas, não na compreensão de seus fundamentos. Tal postura não é apenas filosoficamente frágil; ela é eticamente perigosa. Afinal, quando o bem não é pensado, ele pode ser facilmente substituído por qualquer conteúdo que a tradição venha a legitimar, inclusive aqueles que perpetuam injustiças, exclusões ou formas sutis de violência.

Estar do lado do bem sem compreender o que o constitui é, em última instância, abdicar da própria responsabilidade moral. É tornar-se dependente de normas cuja origem e validade permanecem inquestionadas, abrindo espaço para que o “sempre foi assim” funcione como justificativa suficiente para a continuidade de práticas que talvez não resistissem a um exame rigoroso. Nesse cenário, a moral degenera em conformismo, e a virtude, em mera repetição.

Por outro lado, quando o agir se ancora em uma convicção refletida, o bem deixa de ser um hábito e passa a ser uma escolha. Somente a escolha, informada, consciente e justificável, pode sustentar aquilo que, com propriedade, chamamos de virtude. Perguntar “por quê?” não enfraquece a moral; ao contrário, é o que a torna possível. Sem essa interrogação, não há propriamente ética, há apenas a reprodução silenciosa de um legado que, por mais antigo que seja, nunca deveria estar acima do crivo da razão.

*Thiago Barbosa Soares é analista do discurso, escritor e professor da Universidade Federal do Tocantins (UFT).